domingo, 25 de setembro de 2016

Philip Roth





O professor do desejo

Em vez de passar o primeiro dia de aula falando sobre a lista de leituras e as diretrizes básicas do curso, gostaria de lhes dizer algumas coisas sobre mim que nunca divulguei a nenhum de meus alunos. Não há razão alguma para isso e, até que entrei na sala e me sentei, não tinha certeza de que o faria. E ainda posso mudar de ideia. Pois como justificar a circunstância de lhes revelar os fatos mais íntimos de minha vida privada? Com efeito, nos reuniremos para discutir livros por três horas todas as semanas durante os dois próximos semestres, e sei por experiência, como vocês também sabem, que em tais condições pode se criar um forte vínculo afetivo. No entanto, também sabemos que isso não me dá o direito de fazer algo que pode ser apenas um exemplo de impertinência e mau gosto. 

Como vocês já devem ter deduzido - tanto pela maneira com que me visto quanto pelo estilo dos meus comentários iniciais -, as convenções que tradicionalmente presidem a relação entre aluno e professor são mais ou menos aquelas que eu venho adotando, mesmo durante a turbulência dos anos recentes. Já me disseram que sou um dos últimos professores a me dirigir aos alunos em sala de aula como "senhor" e "senhorita", em vez de usar os primeiros nomes. E, não importa como desejem se vestir - como mecânico, mendigo, cigana de casa de chá ou ladrão de gado - eu prefiro me apresentar perante vocês para dar aula de paletó e gravata... conquanto, como os mais observadores notarão, geralmente com o mesmo paletó e a mesma gravata. E, quando comparecerem ao meu escritório para alguma consulta, as alunas verão, caso ao menos se deem ao trabalho de olhar, que durante o encontro manterei devidamente aberta a porta que liga ao corredor o aposento em que estaremos sentados lado a lado. Alguns de vocês talvez se divirtam ao me verem retirar o relógio do pulso, como fiz há pouco, e pô-lo ao lado das minhas anotações todo começo de aula. A esta altura não me lembro mais qual dos meus professores costumava acompanhar dessa forma a passagem do tempo, mas ao que parece isso me causou forte impressão, demonstrando um profissionalismo que ainda desejo associar à minha pessoa.

Apesar disso, não vou tentar esconder de vocês que sou feito de carne e osso - ou que entendo que vocês sejam. Lá  pelo final do ano, já poderão estar cansados das minhas insistências nas conexões existentes entre os romances que lerão para este curso, mesmo os mais excêntricos e rebarbativos, e o que sabem até hoje sobre a vida. Vocês descobrirão (e nem todos aprovarão) que não concordo com alguns de meus colegas que nos dizem que a literatura, em seus momentos mais sublimes e intrigantes, é, "essencialmente não referencial". Posso me apesentar diante de vocês de paletó e gravata, posso chamá-los de senhor e senhora, mas, seja como for, vou exigir que se abstenham de falar de "estrutura", "forma" e "símbolos" em minha presença. Tenho a impressão de que muitos de vocês foram suficientemente intimidados pelo terceiro ano da universidade e deveriam ter a possibilidade de se recuperar, restaurando a respeitabilidade dos interesses e e entusiamos que muito provavelmente os levaram inicialmente a ler ficção e dos quais não caberia agora se envergonhar. Como uma espécie de experimento, vocês podem até querer, ao longo do ano, tentar viver sem nenhuma terminologia aprendida nas salas de aula abrindo mão de "trama" e "personagem", juntamente com aquelas palavras grandiloquentes a que não poucos de vocês recorrem para tornar mais solenes suas observações, tais como "epifania", "persona" e, naturalmente, "existencial" aplicadas a tudo o que existe na face da terra. Sugiro isso na esperança de que, se falarem sobre Madame Bovary com as mesmas palavras que usam com o dono da mercearia ou com sua namorada, estarão criando uma relação com Flaubert e sua heroína mais íntima, mais interessante e até mesmo mais referencial. 

Na verdade, todos os romances do primeiro semestre estão relacionados, em maior ou menos grau, com a obsessividade, com o desejo erótico, porque pensei que as leituras organizadas em torno de um tema com o qual vocês têm alguma familiaridade poderia ajudá-los a situar mais ainda tais livros no domínio da experiência pessoal, desestimulando a tentação de despachá-los para aquele terreno mais controlável dos estratagemas narrativos, dos motivos metafóricos e dos arquétipos míticos. Acima de tudo, espero que, ao ler tais livros, vocês aprendam algo valioso sobre a vida, num de seus aspectos mais enigmáticos e exasperadores. Também espero aprender alguma coisa. 

Muito bem. Tendo dito isso a fim de ganhar tempo, é chegada a hora de começar a revelar o irrevelável - a história do desejo do professor. Só que não posso, ou ainda não posso, ao menos até que haja explicado a mim próprio, se não a seus pais, por que deveria até mesmo pensar em transformá-los em voyeurs, em meus juízes e confidentes, por que deveria expor meus segredos a pessoas que têm a metade da minha idade, a maioria das quais nem conheci como alunos. Por que possuir uma platéia, quando quase todos os homens e mulheres preferem guardar tais assuntos para si ou só expô-los aos seus confessores mais fidedignos, sejam eles laicos ou sacerdotais? O que faz tão necessário, ou minimamente adequado, que eu me apresente a jovens desconhecidos não sob a roupagem do professor, e sim como o primeiro texto do semestre?

Permitam-me responder com um apelo ao coração. 

Adoro ensinar literatura. Raramente sinto-me tão feliz como quando estou aqui com minhas anotações, meus textos assinalados e pessoas como vocês. A meu ver, não há nada na vida comparável a uma sala de aula. Às vezes, quando conversamos - quando, por exemplo, um de vocês com uma só frase atinge em cheio o âmago do livro que está sendo estudado -, tenho vontade de gritar: "Queridos amigos, aproveitem bem este momento!". Por quê? Porque, depois de saírem daqui, poucas vezes, se é que alguma vez, as pessoas falarão com vocês ou ouvirão vocês do modo como todos nós nos falamos e nos ouvimos aqui, nesta salinha iluminada e com tão poucos móveis. Também não é provável que vocês encontrem com facilidade outras oportunidades de falar sem constrangimento sobre o que foi mais importante para homens tão conscientes dos conflitos da vida quanto Tolstói, Mann e Flaubert. Duvido que saibam o quanto me emociona ouvi-los falar com ponderação e total seriedade sobre a solidão, doença, saudade, perda, sofrimento, ilusão, esperança, paixão, amor, terror, corrupção, calamidade e morte... e me emociono porque vocês têm dezenove, vinte anos, a maioria vinda de lares confortáveis de classe média e sem ter vivido ainda experiências muito traumáticas - mas também porque, estranha e tristemente, essa talvez seja a última ocasião em que vocês refletirão de modo sério e sustentado sobre as forças inexoráveis que em algum momento terão de enfrentar, queiram ou não. 

Será que ficou mais clara a razão pela qual considero nossa sala de aula, na verdade, o cenário mais adequado para que eu relate minhas experiências eróticas? Será que minhas palavras tornaram mais legítimas as exigências que farei com respeito ao tempo e à paciência de vocês, assim como ao custo de seus estudos universitários? Para que não paire nenhuma dúvida: uma sala de aula é, para mim, o mesmo que uma igreja para um verdadeiro crente. Algumas pessoas se ajoelham durante o serviço de domingo, outros se cobrem com filactérios todas as manhãs... e eu apareço três vezes por semana, de gravata no pescoço e relógio em cima da mesa, a fim de lecionar os grandes romances. 

Ah, meus alunos, venho surfando uma onda de grande emoção este ano. Vou falar disso também. Nesse  meio-tempo, se possível, tolerem minha sensação de plenitude. Na realidade, só desejo apresentar a vocês minhas credenciais como professor do curso de Literatura 341. Por mais indiscretas, não profissionais e repugnantes que certas partes dessas revelações possam parecer a alguns de vocês, pretendo agora, se me permitem, seguir adiante e contar francamente minha vida pregressa como ser humano. Sou devotado à ficção e asseguro que, no momento oportuno, vou lhes dizer tudo que sei sobre ela, mas de fato nada vive mais intensamente dentro de mim que minha própria vida. 

domingo, 11 de setembro de 2016

Edward O. Wilson




A conquista social da Terra

A humanidade vive em um mundo em grande parte mítico, assolado por espíritos. Devemos isso à nossa história arcaica. Quando os nossos ancestrais remotos adquiriram pleno reconhecimento de sua mortalidade pessoal, provavelmente entre 100 mil e 75 mil anos atrás, buscaram uma explicação de quem eles eram e o sentido do mundo que cada um estava destinado a logo deixar. Devem ter indagado: para onde vão os mortos? Para o mundo dos espíritos, muitos acreditavam. E como podemos vê-los novamente? Era possível vê-los a qualquer momento por meio de sonhos, drogas, magia ou privações e torturas autoinfligidas.

Os primeiros seres humanos não tinham nenhum conhecimento da Terra além do alcance do seu território e das redes comerciais. Nada sabiam do céu além da esfera celeste na superfície interna por onde passavam o Sol, a Lua e as estrelas. Para explicar os mistérios de sua existência, acreditavam em seres superiores em muitos aspectos semelhantes a eles, os seres divinos que construíam não apenas ferramentas e abrigos, mas que haviam criado o universo inteiro. Com a evolução das sociedades de chefatura e depois dos Estados políticos, as pessoas imaginaram a existência de governantes sobrenaturais, além dos governantes terrestres a quem obedeciam. 

Os primeiros seres humanos precisavam de uma história sobre as cosias importantes que aconteciam com eles, porque a mente consciente não consegue funcionar sem histórias e explicações de seu próprio sentido. A melhor, a única forma de nossos ancestrais conseguirem explicar a própria existência, era um mito de criação. E todo o mito de criação, sem exceção, afirmava a superioridade da tribo que o inventou em relação a todas as demais tribos. Com essa suposição, todo crente religioso se considerava uma pessoa eleita. 

As religiões organizadas e seus deuses, embora concebidos na ignorância de grande parte do mundo real, infelizmente se tornaram verdades absolutas na história antiga. Como no princípio, continuam sendo em toda parte uma expressão de tribalismo pelo qual os membros estabelecem sua própria identidade e uma relação especial com o mundo sobrenatural. Seus dogmas codificam regras de conduta que os devotos podem aceitar absolutamente sem hesitação. Questionar os mitos sagrados é questionar a identidade e o valor daqueles que neles acreditam. Por isso os céticos, inclusive aqueles comprometidos com mitos diferentes mas igualmente absurdos, são tão fanaticamente malvistos. Em alguns países, podem acabar na prisão ou mortos. 

No entanto, as mesmas circunstâncias biológicas e históricas que nos levaram ao atoleiro da ignorância foram, em outros aspectos, benéficas à humanidade. As religiões organizadas presidem sobre os ritos de passagem, do nascimento à maturidade, do casamento à morte. Oferecem o melhor que uma tribo tem a oferecer: uma comunidade empenhada que oferece apoio emocional sincero, acolhe e perdoa. As crenças nos deuses ou num Deus único sacralizam as ações comunitárias, incluindo nomeação de líderes, obediência ás leis e declarações de guerra. Crenças na imortalidade na justiça divina suprema oferecem um conforto precioso e estimulam resolução e bravura em épocas difíceis. Durante milênios as religiões organizadas foram a fonte de grande parte das artes criativas. 

Por que então convém questionar abertamente os mitos e os deuses das religiões organizadas? Porque eles atentam contra a inteligência e semeiam discórdia. Porque cada uma é apenas uma versão de uma multiplicidade de cenários concorrentes que poderiam ser verdadeiros. Porque encorajam a ignorância e desviam  as pessoas do reconhecimento de problemas do mundo real, conduzindo-as muitas vezes em direções erradas para ações desastrosas. Fiéis às suas origens biológicas, encorajam intensamente o altruísmo entre seus membros, estendendo-o sistematicamente aos forasteiros, embora geralmente com o objetivo adicional de proselitismo. O compromisso com uma religião particular  é por definição um ato de fanatismo religioso. Nenhum missionário protestante jamais aconselha seu rebanho a examinar o catolicismo romano ou o islamismo como uma alternativa possivelmente superior. Ele deve, por implicação, declará-los inferiores. 

Mas é insensato pensar que as religiões organizadas poderão num futuro próximo ser extirpadas e substituídas por uma paixão racionalista pela moralidade. O mais provável é que isso aconteça gradualmente, como vem ocorrendo na Europa, impulsionado por diversas tendências atuais. A mais potência das tendências é a reconstituição científica cada vez mais detalhada da crença religiosa como um produto biológico evolutivo. Quando contrastada com os mitos de criação e seus excessos teológicos, a reconstituição é cada vez mais persuasiva para qualquer mente ainda que apenas ligeiramente aberta. Outra tendência contra o infortúnio da devoção sectária é o crescimento da internet e a globalização das instituições e seus usuários. Uma análise recente mostrou que a interligação crescente das pessoas no mundo inteiro fortalece suas atitudes cosmopolitas. Para isso, enfraquece a importância da afiliação étnica, localidade e nacionalidade como fontes de identificação. A interligação também intensifica uma segunda tendência: a homogeneização da humanidade quanto a aça e a etnia por meio do casamento misto. Inevitavelmente, isso enfraquecerá a confiança nos mitos de criação e nos dogmas sectários.   

Um bom passo inicial para a libertação da humanidade das formas opressivas do tribalismo seria o repúdio, respeitoso, das alegações daqueles no poder que se dizem porta-vozes de Deus, representantes de Deus, ou conhecedores exclusivos da vontade divina.  Entre esses fornecedores de narcisismo teológico estão os aspirantes a profetas, fundadores de cultos religiosos, pastores evangélicos eloquentes, aiatolás, imames, rabinos-chefes, chefes de yeshivas, o Dalai Lama e o papa. O mesmo vale para as ideologias políticas dogmáticas baseadas em preceitos incontestáveis, de esquerda e de direita, especialmente quando justificadas pelos dogmas das religiões organizadas. As religiões podem até conter sabedoria intuitiva digna de ser ouvida. Seus líderes podem ter boas intuições. Mas a humanidade já sofreu demais com as histórias incorretas contadas por profestas equivocados. [...]

Outro argumento em favor de um novo Iluminismo é que estamos sozinhos neste planeta com qualquer racionalidade e compreensão que consigamos reunir e, portanto, somos os únicos responsáveis por nossas ações como espécie. O planeta que conquistamos não é apenas uma parada no caminho para um mundo melhor em alguma outra dimensão. Um preceito moral com que podemos todos concordar é parar de destruir nosso local de nascimento, o único la que a humanidade jamais terá. Os indícios do aquecimento global, com a poluição industrial como causa principal, são agora esmagadores. também evidente a uma inspeção ainda que fortuita é o rápido desaparecimento de florestas tropicais, pradarias e outros habitats onde reside grande parte da diversidade da vida. Se não controlarmos as mudanças globais causadas pela destruição dos habitats, espécies invasivas, poluição, superpopulação e superexploração, metade das espécies de plantas e animais poderão estar extintas ou pelo menos  entre os "mortos vivos" - prestes a se extinguirem - no final do século. Estamos desnecessariamente matando a galinha dos ovos de ouro que herdamos dos antepassados e por isso seremos desprezados por nossos descendentes. 

A ciência não é mais um empreendimento, como a medicina, a engenharia ou a teologia. Ela é o manancial de todos os nossos conhecimentos do mundo real que podem ser testados e ajustados aos conhecimentos preexistentes. É o arsenal de tecnologias e matemática inferencial necessário para distinguir o verdadeiro do falso. Ela formula os princípios e as fórmulas que unificam todos esses conhecimentos. A ciência pertence a todos. Suas partes componentes podem ser desafiadas por qualquer um com informações suficientes para fazê-lo. Não é apenas "outro modo de conhecer", como muitas vezes alega, tornando-a coigual á fé religiosa. O conflito entre o conhecimento científico e os ensinamentos das religiões organizadas é irreconciliável. O abismo continuará aumentando e perpetuando os problemas, enquanto os líderes religiosos continuarem fazendo alegações insustentáveis sobre as causas sobrenaturais da realidade. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Carlo Rovelli




Sete breves lições de física

Que lugar temos nós, seres humanos que percebem, decidem, riem e choram, neste grande afresco do mundo que a física contemporânea oferece? Se o mundo é um pulular de efêmeros quanta de espaço e matéria, um imenso jogo de encaixe de espaço e partículas elementares, o que somos nós? Também somos feitos de partículas? Mas, então, de onde vem aquela sensação de existir singularmente  e em primeira pessoa, que cada um de nós experimenta? Então o que são nossos valores, os nossos sonhos, as nossas emoções, o nosso próprio saber? O que somos nós, neste mundo imenso e rutilante? [...]

É uma pergunta difícil. No grande quadro da ciência contemporânea, há muitas coisas que não compreendemos, e uma das que menos compreendemos somos nós mesmos. Mas evitar essa pergunta, e fingir que não é nada, significaria, penso, desprezar algo essencial. [...]

"Nós", seres humanos, somos antes de mais nada o sujeito que observa este mundo, e autores, coletivamente, desta fotografia da realidade que tentei compor. [...] Mas, do mundo que vemos, somos também parte integrante, não somos observadores externos. Estamos situados nele. Nossa perspectiva se origina de dentro. Somos feitos dos mesmos átomos e dos mesmos sinais de luz trocados entre os pinheiros nas montanhas e as estrelas nas galáxias. 

À medida que nosso conhecimento cresceu, fomos aprendendo cada vez mais esta noção de sermos partes, e pequena parte, do universo. Pensávamos estar sobre o planeta no centro do cosmo, e não estamos. Pensávamos ser uma raça à parte, na família dos animais e das plantas, e descobrimos que somos descendentes dos mesmos genitores de que descende qualquer outro ser vivo ao nosso redor. Temos tataravós em comum com as borboletas e com os pinheiros. Somos como um filho único que cresce e aprende que o mundo não gira somente ao seu redor, como ele pensava quando era pequeno. Ele deve aceitar ser um entre os outros. Ao nos espelharmos nos outros e nas outras coisas, aprendemos quem somos. [...] No mar imenso de galáxias e de estrelas, somos um infinitesimal cantinho perdido; entre os infinitos arabescos de formas que compõe o real, não somos mais do que um rabisco entre muitos outros. 

As imagens que construímos do universo vivem dentro de nós, no espaço de nossos pensamentos. Entre essas imagens - entre aquilo que conseguimos reconstruir e compreender com nossos meios limitados - e a realidade da qual somos parte existem filtros incontáveis: nossa ignorância, a limitação dos nossos sentidos e da nossa inteligência, as próprias condições que nossa natureza de sujeitos, e sujeitos particulares, submete à experiência. [...] Não somente aprendemos, mas aprendemos também a mudar gradualmente nossa estrutura conceitual, e adaptá-la àquilo que aprendemos. E aquilo que aprendemos a conhecer, embora devagar e tateando, é o mundo real de que somos parte. 

Quando falamos do Big Bang ou da estrutura do espaço-tempo, o que estamos fazendo não é a continuação dos relatos livres  e fantásticos que os homens contavam em torno da fogueira nas noites de centenas de milênios. É a continuação de outra coisa: do olhar daqueles mesmos homens, às primeiras luzes da alvorada, buscando em meio à poeira da savana os rastros de um antílope - observar os detalhes da realidade para deduzir deles aquilo que não vemos diretamente, mas cujos indícios podemos seguir. Conscientes de que podemos nos enganar e, portanto, dispostos a cada instante a mudar de ideia se aparecer um novo indício, mas sabendo também que, se formos competentes, compreenderemos corretamente, e descobriremos. A ciência é isso. 

Tudo o que é especificamente humano não representa nossa separação da natureza, é a nossa natureza. É uma forma que a natureza assumiu aqui em nosso planeta, no jogo infinito de suas combinações, da influência recíproca e da troca de correlações e informação entre suas partes.  [...] A vida na Terra é apenas uma amostra do que pode suceder no universo. Nossa alma não é senão outra amostra. 

Somos uma espécie curiosa, a única que restou de um grupo de espécies (o "gênero Homo") formado por pelo menos uma dúzia de espécies curiosas. As outras espécies do grupo já se extinguiram; algumas, como os neandertais, há pouco: não faz nem 30 mil anos. É um grupo de espécies que evoluiu na África, afim aos chimpanzés hierárquicos e litigiosos, e mais ainda aos bonobos, os pequenos chimpanzés pacíficos, alegremente promíscuos e igualitários. Um grupo de espécies que saiu repetidamente da África para explorar novos mundos e que chegou longe, até a Patagônia, até a Lua. Não somos curiosos contra a natureza: somos curiosos por natureza. 

Cem mil anos atrás, nossa espécie partiu da África, talvez impelida justamente por essa curiosidade, aprendendo a olhar  cada vez mais à frente. Sobrevoando a África à noite, eu me perguntei se um daqueles nossos longínquos antepassados, erguendo-se e pondo-se a caminho rumo aos espaços abertos no Norte, e olhando o céu, poderia ter imaginado um distante neto seu voando naquele céu, interrogando-se sobre a natureza das coisas, anda impelido pela sua mesma curiosidade. 

Penso que nossa espécie não durará muito. Ela não parece ter a resistência das tartarugas, que continuam existindo semelhantes a si mesmas por centenas de milhões de anos, centenas de vezes mais do que nós temos existido. Pertencemos a um tipo de espécie de vida breve. Nossos primos já estão todos extintos. E nós causamos danos. As mudanças climáticas e ambientais que deflagramos foram brutais, e dificilmente nos pouparão.[...] Talvez sejamos sobre a Terra a única espécie consciente da inevitabilidade de nossa morte individual: temo que em breve nos tornaremos também a espécie que conscientemente verá chegar o próprio fim, ou pelo menos o fim da própria civilização. 

Para nós, justamente por sua natureza efêmera, a vida é preciosa. Porque, como escreve Tito Lucrécio, "nosso apetite de vida é voraz, nossa sede de vida, insaciável".  

A natureza é nossa casa e na natureza estamos em casa. Este mundo estranho, diversificado e assombroso que exploramos, onde o espaço se debulha, o tempo não existe e as coisas podem não estar em lugar algum, não é algo que nos afasta de nós: é somente aquilo que nossa natural curiosidade nos mostra da nossa casa. Da trama da qual somos feitos nós mesmos. Somos feitos da mesma poeira de estrelas de que são feitas as coisas, e quer quando estamos imersos na dor, quer quando rimos e a alegria resplandece, não fazemos mais do que ser aquilo que não podemos deixar de ser: uma parte do nosso mundo. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Ian McEwan




Conversas entre escritores

Cheguei ao ponto que, agora, quando alguém diz que a vida se move em torno de um único princípio organizador, eu perco o interesse. Não sinto que a vida se estruture sobre nenhum princípio único. É um impulso religioso se agarrar somente a uma coisa, a uma explicação.

Aspectos do "romance inglês" a serem evitados: diálogos educados e reveladores, narrativa linear e estável, investigação ética levemente irônica, quantidades excessivas de mobiliário. 

Sempre achei que a crueldade é uma falha da imaginação. [...] Há algo que liga a imaginação e a moral. 

Um dos grandes valores da ficção é exatamente a possibilidade de entrar na mente de outras pessoas. [...] Com o romance nós conseguimos desenvolver essa forma que é muito elástica e mutável, e permite uma verdadeira investigação humana. É um olhar sem amarras voltado para nossa própria imagem, de um jeito que a ciência não consegue fazer; a religião não é confiável e a metafísica, de um ponto de vista intelectual, é muito repelente em sua superfície - o romance é nossa melhor máquina, assim como sempre foi. 

Estou interessado em como representar - claro que de uma forma muito estilizada - qual é a sensação de estar pensando. Ou como é estar consciente, ou, fatalmente, apenas semi-consciente. E como é difícil ver tudo que está acontecendo e entender tudo de uma vez só, e o quanto nossas lembranças podem influenciar o que nós aceitamos como realidade - o quanto a percepção é distorcida pela vontade. Isso é algo que acho muito interessante. As formas como nos convencemos, como nos persuadimos a confirmar uma noção pessoal ou uma posição intelectual. É por isso que gosto de psicologia evolutiva, ela fala muito sobre auto-convencimento... Na minha ficção, venho tentando indicar minha noção do quanto somos falhos - de um modo muito interessante - ao nos representarmos e "o que sabemos" um do outro

Tenho a impressão de que simpatizo com a visão segundo a qual o real - o que existe de fato - é tão rico e exigente que torna o realismo mágico uma fuga tediosa de qualquer responsabilidade artística. [...] O real, o que existe de fato, impõe muitas exigências para o escritor: como inventá-lo, como confrontá-lo ou passá-lo pelo filtro de sua própria consciência. Por isso nunca fui um grande admirador de Márquez. Gostei de O Tambor,  mas nunca da forma como gosto de Kundera, por exemplo. E me parece que o realismo mágico se tornou algo como o estilo internacional nas mobílias, uma espécie de língua franca que realmente desafia a noção central do romance, que é o fato do romance ser local. Ele é regional, é um processo que funciona às avessas e, de alguma forma, esses estilos internacionais parecem operar de modo oposto. Eles são muito parecidos uns com os outros. [...] É jogar tênis sem rede. Não tem nenhuma graça. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Marcel Proust




Acho que, de repente, a vida nos pareceria maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morte como o senhor diz. Pense em quantos projetos, viagens, casos de amor e estudos a vida oculta de nós, tornando-os invisíveis  por causa da nossa preguiça, que, certa de um o futuro, adia-os incessantemente. 
Mas, sob a ameaça da impossibilidade eterna, tudo isso voltaria a ser lindo! Ah! Se o cataclismo não acontecer desta vez, não deixemos de visitar as novas galerias do Louvre, de nos jogar aos pés da Srta. X, de fazer uma viagem à Índia.
O cataclismo não acontece e deixamos de fazer tudo isso porque voltamos ao âmago da nossa vida normal, no qual a negligência arrefece desejo. Mas não deveríamos precisar do cataclismo para amar a vida hoje. Seria suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode acontecer esta noite. [...]

Na verdade, todo leitor, quando está lendo, é leitor do seu próprio eu. O trabalho do escritor é simplesmente uma espécie de instrumento ótico oferecido ao leitor para lhe permitir distinguir o que, sem o livro, ele talvez nunca fosse vivenciar em si mesmo. E o reconhecimento em si próprio, por parte do leitor, daquilo que o livro diz é a prova da sua veracidade.[...]

As pessoas de eras passadas parecem infinitamente distantes de nós. Achamos que não temos motivo para lhes atribuir qualquer intenção subjacente além da que elas expressam formalmente; ficamos surpresos ao nos depararmos com um herói homérico cuja emoção é mais ou menos semelhante à que sentirmos hoje (...) é como se imaginássemos que o poeta épico (...) está tão distante de nós quanto um animal em um zoológico. [...]

Ao lermos a nova obra-prima de um homem brilhante, ficamos felizes em descobrir reflexões nossas que havíamos menosprezado, alegrias e tristezas que havíamos reprimido, todo um mundo de sentimentos que havíamos desdenhado e cujo valor nos é repentinamente ensinado por aquele livro. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Jean Follain 1903-1971





Face the animal

It`s not always easy
to face the animal
even if it looks at you
without fear or hate
it does so fixedly
and seems to disdain
the subtle secret it carries
it seems better to fell
the obvionousness of the world
that noisily day and night
drills and dameges
the silence of the soul.