terça-feira, 11 de agosto de 2026

Gustave Flaubert


 A educação sentimental

Percorria, ao acaso, o Quartier Latin, habitualmente cheio de tumulto, mas deserto naquela época, com os estudantes de férias. As altas paredes dos colégios, que o silêncio parecia tornar mais extensas, tinham um aspecto ainda mais triste; ouvia-se um sem-número de ruídos pacíficos, bater de asas nas gaiolas, a vibração de um torno, o martelo de um sapateiro; e os vendedores de roupas, no meio da rua, interrogavam inutilmente com os olhos todas as janelas. No fundo dos cafés solitários, a dama do balção bocejava entre as garrafas cheias; os jornais permaneciam em ordem na mesa dos gabinetes de leitura; na casa das engomadeiras, a roupa branca estremecia ao sopro do vento morno. De vez em quando, detinha-se diante do tabuleiro de um alfarrabista; um ônibus que descia, rente ao passeio, fazia-o voltar-se; e, chegando em frente ao Luxemburgo, não ia mais longe. 

[...]

Disparava-se de todas as janelas das praças; balas assobiavam; a água da fonte rebentada misturava-se ao sangue, fazia poças no chão; escorregava-se na lama, sobre peças de vestuário, capacetes, armas; Frédéric sentiu debaixo do pé uma coisa mole; era a mão de um sargento, de capote cinza, caído no enxurro, com o rosto para baixo. Novos bandos de populares continuavam chegando, empurrando os combatentes para a delegacia. O tiroteio tornava-se mais cerrado. Os armazéns de vinho estavam abertos; ia-se lá, de quando em quando, fumar uma cachimbada, beber um chope, para depois voltar ao combate. Um cão perdido uivava. Dava vontade de rir. 

sábado, 8 de agosto de 2026

David Foster Wallace


O canal sofredor 

A outra parte de Style mencionada pelo editor associado se referia a The Suffering Channel, uma grade de programação de tevê a cabo que Artwater tinha conseguido que Laurel Manderley desse um jeito e passasse direto para a editoria de internacional em What in the Word [ O que se passa no mundo]. Atwater era um dos três jornalistas em tempo integral a cargo dos noticiários da WITW, que recebia 0,75 página de editorial por semana, e era a coisa mais próxima que qualquer semanário da BSG conseguia em tabloides ou matérias sensacionalistas, e era objeto de discussão nos mais altos escalões de Style. Os especiais com equipe e chamada em destaque significavam que Skip Atwater estava oficialmente contratado para uma matéria de quatrocentas palavras a cada três semanas, só que o mais novato do WITW tinha ficado em meio período desde que Eckleschafft-Bodobrigou a sra. Anger a cortar o orçamento editorial para qualquer coisa que não fosse notícia de celebridades, de modo que na verdade eram três matérias completas a cada oito semanas. 

John Updike


Terrorista 

Ahmad tem dezoito anos. Estamos no início de abril; mais uma vez o verde penetra sorrateiro, semente por semente, nas fendas de terra da cidade cinzenta. Ele olha do patamar de sua altura recém-conquistada e pensa que, para os insetos invisíveis na grama, ele seria, se eles tivessem uma consciência como a sua, Deus. No ano passado Ahmad cresceu sete centímetros, chegando a 1,82 metro - mais forças materialistas invisíveis a exercer sua vontade sobre ele. Ele não vai crescer mais do que isso, Ahmada, nesta vida nem na outra. Se houver outra, um demônio interior murmura. Que provas, além das palavras ardentes e divinamente inspiradas do Profeta, garantem que existe outra vida? Onde ela estaria escondida? Quem estaria eternamente abastecendo as fornalhas do Inferno? Que fonte infinita de energia haveria de manter o Éden opulento, alimentando as huris de olhos negros, fazendo crescer os frutos pesados nas árvores, renovando os riachos e chafarizes em que Deus, conforme a nona sura do Alcorão, eternamente se regozija? E a segunda lei da termodinâmica? 

Henry James


 Pelos olhos de Maisie 

Foi por causa dessas coisas que sua mãe conseguira contratá-la por tão pouco, quase de graça: foi o que Maisie ouviu, um dia em que a sra. Wix a acompanhou até a sala de visitas e deixou-a lá, uma das senhoras que lá estava - uma mulher de sobrancelhas arqueadas como cordas de pular e pespontos negros e espessos como a pauta de um caderno de música nas belas luvas brancas - dizer para outra. Maisie sabia que as governantas eram pobres; a pobreza da srta. Overmore não se comentava, e a da sra. Wix era comentada por todos. Porém nem esse fato, nem o velho vestido marrom, nem o diadema, nem o botão, nada disso diminuía para Maisie o encanto que apesar de tudo se manifestava, o encanto que residia no fato de que junto à sra. Wix, com toda sua feiura e sua pobreza, ela experimentava uma sensação única e tranquilizadora de segurança que nenhuma outra pessoa no mundo lhe proporcionava - nem o papai, nem a mamãe, nem a mulher das sobrancelhas arqueadas, nem mesmo, por mais linda que fosse, a srta. Overmore, em cuja beleza a menina tinha a vaga consciência de que não era possível refastelar-se com igual sensação de aconchego e ternura. Era a mesma sensação de segurança que lhe inspirava Clara Matilda, a qual estava no céu e, no entanto - constrangedoramente -, também estava em Kensal Green, onde elas duas foram ver sua pequena e mal-amanhada sepultura.