terça-feira, 9 de abril de 2013

Alejandra Pizarnik



Abro la ventana

Ahora me levanto
De esta cama
Ahora
Abro la ventana
Y entra la luz
Con el viento
Ahora te siento
Y estas tan lejos
De aquí

Si un día te vas
Y ya no vuelves más
Si un día me voy
Y ya no vuelvo yo

Que largo es el mundo
Es infinito
Ayer te tuve
En mis brazos
Y hoy
Como un grano de arena
En algún suelo ajeno
Estas escondido de mí

Si un día te vas
Y ya no vuelves más
Si un día me voy
Y ya no vuelvo yo

Que grán silencio
Todo en suspenso
Que vértigo de no verte
Retumbo
Como una campana
Abro la ventana
Y entras tú
Entras tú...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Kim Nam-jo



Oeste

Ó homen,
o que importa?

O que importa se a noite sobrevém,
como a sombra que se estende no chão
como o vento que se debruça sobre a sombra
como um rio negro que cobre o vento

O que importa se não se vê
Se o fundo do mar fica mais fundo
e se as águas aumentam em desmedida
Se no céu sobre o céu
um bando de gaivotas grasnam
E o que importa se não se vê
que elas se aproximam

O que importa se for despedida
O que importa se sol e lua andam separados
O que importa se não nos encontramos
Se tudo
submerge
para o oeste
para o oeste

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Yehuda Amichai



Que pena, éramos uma invenção tão boa

Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Rainer Maria Rilke




Na minha infância, quando todos sempre me tratavam mal, e eu me sentia infinitamente abandonado, tão completamente perdido no desconhecido, pode ter havido um momento em que desejei muito ir para outro lugar. Mas então, enquanto as pessoas continuavam estranhas a mim, eu me dirigi às coisas e delas soprou uma alegria, uma alegria de ser, que sempre permaneceu uniformemente serena e forte e jamais comportou uma hesitação ou uma dúvida. Na escola militar, após longas e inquietas lutas, abandonei minha intensa piedade de criança católica, livrei-me dela, para ser ainda mais sozinho, ainda mais inconsolavelmente sozinho. Das coisas, porém, e sua maneira de tolerar e durar pacientemente, veio mais tarde para mim um novo amor, maior e mais pio, um tipo de crença que não conhece medo nem limites. A vida também é uma parte dessa crença. que não conhece medo nem limites. A vida também é parte dessa crença. Oh, como creio nela, na vida. Não a vida constituída pelo tempo, mas essa outra vida, a vida das pequenas cosias, a vida dos animais e das grandes planícies. Essa vida que dura através dos milênios, aparentemente sem participação e, contudo, no equilíbrio de suas forças, cheia de movimento e crescimento e calor. Por isso as cidades pesam tanto sobre mim. Por isso amo percorrer longos caminhos descalço, para não perder nenhum grão de areia e dar ao meu corpo inteiro em múltiplas formas como sensação, acontecimento e afinidade. Por isso vivo, quando possível, de verduras, para estar perto da consciência simples da vida, não intensificada por nada de estranho; por isso não bebo vinho, pois quero que apenas meus sucos falem e rumorejem e tenham bem-aventurança, como nas crianças e nos animais, da profundeza de si mesmos! E por isso quero despir de mim toda arrogância, não me alçar acima do mais ínfimo animal e não me considerar mais magnífico do que uma pedra. Mas ser o que eu sou, viver o que me foi destinado viver, querer soar o que ninguém mais pode soar, brotar as flores ditadas ao meu coração: é isso o que quero - e isso decerto  não pode ser arrogância.

sábado, 1 de setembro de 2012

Walt Whitman



O que tem que ser será bom - pois o que é, é bom,
Interessar-se é bom, e não se interessar também é bom.

O céu continua lindo... o prazer dos homens com as mulheres nunca será
saciado .. nem o prazer das mulheres com os homens.. nem o prazer que
provém dos poemas;
As alegrias domésticas, o trabalho ou negócio diário, a construção de casas - eles
não são fantasmas .. possuem peso e forma e local;
As fazendas e os lucros e as safras .. os mercados e salários e o governo .. eles também
não são fantasmas;
A diferença entre pecado e bondade não é aparente;
A terra não é um eco ... o homem e sua vida e todas as coisas de sua vida são bem
consideradas.

Você não está ao léu.. você se reúne com certeza e segurança ao seu redor,
De você mesmo! Você mesmo! Sempre você mesmo!

Não foi pra difundir você que você nasceu de pai e mãe - foi pra identificar você,
Não foi pra que você fosse indeciso, mas que fosse decidido;
Alguma coisa há tempos preparada e informe chegou e se formou em você,
Portanto você está salvo, haja o que houver.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Henry Miller



O mundo do sexo

Se estivéssemos realmente acordados, ficaríamos chocados com o horror da vida cotidiana. Ninguém em posse de suas faculdades mentais seria capaz de fazer as coisas que exigem de nós a todo momento do dia. Somos todos vítimas, quer no topo, como na base, ou no meio. Não há escape, nem imunidade. [...]

De vez em quando, no longo curso da história humana, um indivíduo conseguiu romper as amarras e seguir sua maneira de vida singular. Mas que espetáculo raro! [...] Ainda mais trágico, mais irônico, é o exemplo dos imitadores, que nunca tentaram levar suas próprias vidas, mas, igual a escravos, copiaram os donos. Por mais claros que os poucos grandes exemplos tenham sido, até os espíritos mais audazes deixaram de entender. Seguir, não liderar, esta é a maldição do homem. [...]

Não ir até o fundo, este é o erro fatal do homem. Como diz Jean Guéhenno: A verdadeira traição é seguir o mundo do jeito como ele anda e empregar o espírito para justificá-lo. 

Somente quando fixamos nosso olhar nestas figuras vulcânicas podemos começar a estimar a pressão das forças aparentadas à morte que nos detêm em suas garras. Só então nos damos conta do que é necessário de coragem e imaginação, de ousadia e humildade, para cortar a trama estranguladora de desespero e derrota que nos envolve.  


Schopenhauer



Sobre o ofício de escritor

Obscuridade e indistinção na expressão é, em toda parte e sempre, um sinal muito grave. Pois, de cem casos, em noventa e nove elas derivam da falta de clareza do pensamento, que por sua vez procede quase sempre de sua desproporção original, da sua inconsistência e, por tanto, de sua inexatidão. Quando um pensamento correto eleva-se à mente sua meta é alcançar sua expressão adequada. O que um homem é capaz de pensar também pode ser expresso sempre em palavras claras, compreensíveis e inequívocas. [...]

Nua, a verdade é belíssima, e a impressão que causa é tanto mais profunda quanto mais simples é sua expressão; em parte porque, nesse caso, ela ocupa sem dificuldades toda a alma do ouvinte, que não é distraído por nenhum pensamento secundário; em parte, porque ele sente que não foi corrompido ou iludido por nenhum artifício retórico, e que o efeito inteiro advém do assunto em si. [...]

A ausência de espírito assume todas as formas para se esconder: encobre-se com o estilo empolado, com o bombástico, com o tom de superioridade e de fidalguia e com centenas de outras formas; somente pela ingenuidade  não se deixa atrair, pois, nesse caso, ficaria imediatamente despida e não poderia oferecer ao mercado nada além de uma mera simploriedade. Mesmo à boa cabeça não é permitido ser ingênuo, já que pareceria seca e magra. Eis a razão de a ingenuidade continuar a ser a veste de honra do gênio, assim como a nudez é a da beleza.


Rainer Maria Rilke



Cartas

O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Jón Bong-gón




Lirismo

Chovia
Até o vento preso na árvore
se dilacerava encharcado

Agarrado ao meu braço - você
Chovia também nessa ruela
onde caía a noite

E na escuridão que se intumescia de chuva
duas mãos envolveram-me o rosto
a perguntar

Na voz mais suave
Na voz mais quente

terça-feira, 22 de maio de 2012

Henry Miller



O mundo do sexo

Hoje parecemos movidos quase exclusivamente pelo medo. Tememos até aquilo que é bom, que é saudável, que é alegre. E o que é um herói? Em princípio, alguém que conquistou seus medos. Podemos ser um herói em qualquer domínio; nunca deixamos de o reconhecer quando ele aparece. Sua virtude singular é que ele se unificou com a vida, se unificou consigo mesmo. Tendo deixado de duvidar e questionar, ele acelera o fluxo e o ritmo da vida. O covarde, par contre, procura obstruí-los. Não obstrui nada, é claro, a não ser a si mesmo. A vida continua, quer atuemos como covardes ou heróis. A vida não tem outra disciplina a impor, se apenas percebêssemos isso, em vez de aceitar a vida sem questionar. Tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, serve para nos derrotar no final. O que prece desagradável, doloroso, maligno, pode se tornar uma fonte de beleza, alegria e força, se encarado com a mente aberta. Cada momento é uma mina de ouro para aquele que tem a visão de reconhecer isso. A vida é agora, cada momento, não importa que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa a serviço da vida.