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terça-feira, 19 de abril de 2011

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Experimenta uma sensação de força desconhecida no fato de ver com os próprios olhos, escolher com o próprio coração e modelar a si próprio. Tanta coisa nova aflora à superfície do seu espírito, tantas facetas da sua natureza, antes ignoradas, desperdiçadas, combinam-se maravilhosamente em um todo harmonioso! É o tempo encantado das descobertas, quando ele, cheio de medo e de incerta alegria, cheio de uma felicidade intranquila, descobre a si mesmo. Em primeiro lugar, ele nota que não é igual aos outros; isso desperta-lhe um pudor moral que o torna acanhado, lacônico, arredio. Fica desconfiado, e em tudo que se fala vê alusões aos seus mais íntimos segredos. Por ter aprendido a ler em si mesmo, acredita que todo mundo também poderá ler o que está escrito na sua consciência, evita os adultos e aprofunda a sua solidão. Parece-lhe que que os homens de súbito tornaram-se estranhamente inoportunos. Sente-se vagamente hostil em relação a eles, como se fossem seres de outra raça, e no seu isolamento começa a distingui-los, a observá-los e a julgá-los. Outrora os nomes de pai, mãe, pastor e moleiro davam uma idéia perfeita e suficiente dessas criaturas. O nome escondia a pessoa. O pastor era o pastor e não havia nada mais a dizer. Mas agora ele via que o pastor era um homenzinho jovial, que em casa se fazia ainda menor e tão quieto quanto possível, para não ser percebido pela mulher, e fora de casa embriagava-se de conversas e de discussões revolucionárias e libertárias para esquecer o jugo caseiro.
Eis em que tinha se transformado o pastor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Jens Peter Jacobsen



Niels Lyhne
    
       Continua mergulhado em seus estudos, porém sem método, e a idéia de aprontar-se para lutar e aparecer apenas bruxuleia, vacilante. Frequenta muita gente, mas não vive com ninguém; bem que as pessoas lhe interessam, mas ele não faz nenhuma questão de interessar a elas; e sente diminuir dentro de si aquela força que deveria levá-lo a realizar a sua obra, custasse o que custasse. Já se conforma em esperar, mesmo que tenha que esperar até que seja demasiado tarde. Quem tem fé não tem pressa, é a sua desculpa. E ele tem bastante fé, quando vai ao fundo de si mesmo reconhece que tem uma fé capaz de remover montanhas; mas não consegue fazer esse esforço. De vez em quando irrompe nele um impulso criador, um desejo de ver libertada uma parte do seu eu em seu trabalho, e durante dias inteiros concentra-se num alegre e titânico esforço de modelar a argila do seu Adão; mas não consegue nunca dar-lhe a forma do ideal; não tem persistência para manter a concentração exigida por essa tarefa. Durante semanas hesita em abandonar o trabalho, mas acaba sempre por abandoná-lo e pergunta-se por que haveria de continuar: que pode lucrar com isso? Gozou a alegria da concepção, restam-lhe apenas trabalho e disciplina, cuidar, alimentar, levar a bom termo – e para quê, para quem? Ele não é um pelicano... Diga o que disser, porém, fica descontente consigo mesmo e sente que não correspondeu às exigências do seu próprio ser, e de nada lhe adiantam as especulações e as dúvidas sobre os fundamentos dessas exigências. Enfrenta uma opção, e deve optar; pois a vida é assim: passada a primeira mocidade, cedo ou tarde, conforme a natureza de cada um, cedo ou tarde amanhece o dia em que a resignação vem a nós como o Tentador e procura seduzir-nos, procura levar-nos a dizer adeus ao impossível e darmo-nos por satisfeitos. E a resignação tem doces e judiciosas palavras... Quantas vezes não foram derrotadas as aspirações ideais da juventude, quantas vezes seu entusiasmo não foi espezinhado e a sua esperança aniquilada! Os ideais, os claros e luminosos ideais ainda não perderam nada do seu brilho, mas não percorrem mais a terra ao nosso lado, como nos primeiros dias da nossa juventude; pisaram os largos degráus da experiência e subiram de novo ao céu de onde tinham sido retirados pela nossa fé ingênua, e lá se encontram, cintilantes mas distantes, sorridentes mas fatigados, numa ociosidade divina, enquanto o incenso de uma inerte adoração vai se enrolando até o seu trono em solenes espirais. 
         Niels Lyhne estava cansado; tinham-no exaurido esses repetidos preparativos para um salto que nunca era executado, tudo lhe parecia vazio e sem valor, artificial e confuso, e além disso tão mesquinho; achava que o mais natural era tapar os ouvidos e a boca, e aprofundar-se em seus estudos, que nada tinham que ver com o ambiente irrespirável do mundo, que eram para ele como uma quieta profundeza marinha, com pacíficas florestas de algas e estranhos animais. 

     

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Jens Peter Jacobsen



Niels Lyhne

- Não posso ajudá-lo, senhor Bigum, o senhor não representa para mim nada do que deseja ser; se isso o faz infeliz, seja infeliz; se isso o faz sofrer, sofra; é preciso que existam homens que sofram. Quando alguém faz de uma criatura humana o seu Deus e árbitro do seu destino, é preciso inclinar-se ante os decretos do ídolo. Mas é imprudente forjar desse modo uma divindade e entregar-lhe a alma; pois existem deuses que não querem descer  do seu pedestal. Seja razoável, senhor Bigum; seu ídolo é tão pequeno, tão pouco digno de ser adorado; esqueça-o... e seja feliz com uma das moças do lugar.
[...]
Pela janelinha da água-furtada, Niels o observava. Tinha assistido a cena do princípio ao fim, e uma expressão de quase terror estampava-se em sua fisionomia, o corpo sacudido por um tremor nervoso. Pela primeira vez a vida lhe fazia medo, compreendia que quando um homem é condenado a sofrer, não se trata de poesia nem de uma simples ameaça; trata-se de ser arrastado à câmara de torturas e ser de fato torturado, e não há, no último momento, salvação como nos contos de aventuras nem despertar súbito como nos pesadelos.

Eis o que ele compreendeu, cheio de medo e de pressentimento.

domingo, 15 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Feliz é aquele que, em seu luto pela morte de um ente querido, pode consagrar todas as lágrimas ao vazio, ao abandono, à privação daquele que se foi, pois mais penosos, mais amargos são os prantos que espiam a falta de ternura que os dias passados presenciaram contra aquele que agora está morto - e contra quem cometeram-se crimes irreparáveis. Retornam então as palavras duras, as respostas cuidadosamente envenenadas, a censura impiedosa e a cólera injustificada, e também os pensamentos hostis que não se externavam em palavras, os julgamentos precipitados que atravessaram o espírito, o dar de ombros discreto, e o riso oculto cheio de ironia e impaciência - voltam todos como flechas nocivas e cravam profundamente seus aguilhões no peito, seus aguilhões embotados, pois a ponta partida ficou no coração que não bate mais. Este não vive mais, nada mais pode reparar, nada. Agora há bastante amor em teu coração, mas agora é tarde; vai até o frio túmulo com teu coração agora generoso! Chega bem perto... Planta flores e tece coroas: nem por isso estarás mais perto do morto!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Eu desprezo a imaginação. Quando todo o nosso ser anseia pelo coração de um homem, de que vale abrigar-se na câmara fria da imaginação? E quantas vezes isso não é tudo que nos é dado! E quantas vezes não devemos nos resignar a sermos adornadas pela fantasia daquele a quem amamos, que nos cinge a testa com uma auréola, cola-nos asas aos ombros e nos envolve numa túnica semeada de estrelas, e só nos julgas dignas de amor depois de nos termos revestido dessa fantasia, na qual nenhuma de nós assemelha a si mesma, porque esse disfarce nos incomoda e porque alguém nos perturba, alguém que se joga aos nossos pés e nos adora, em vez de nos tomar simplesmente como somos e desse modo simplesmente nos amar.
[...]
Essa adoração de que somos alvo, essa espécie de fanatismo no fundo é tirânica: somos obrigadas a nos amoldar ao ideal dos homens. Corta-se uma lasca do calcanhar, uma ponta do dedão!... Tudo aquilo em nós que não se adapta a essa imagem ideal deve ser suprimido - quando não pelo abafamento, pelo fato de que é ignorado, sistematicamente esquecido, qualquer expressão espontânea de nossa natureza é negada; por um lado aquilo que não nos é natural ou que não nos é peculiar, isso é freneticamente estimulado, é elevado às nuvens sempre na suposição de que possuímos em alto grau estas qualidades estranhas - e dessas qualidades é feita a pedra fundamental sobre a qual os homens edificam seu amor. Considero isso uma violência contra a natureza. Considero isso o mesmo que adestramento de animais. O amor do homem é o de um domador. E nós nos sujeitamos a isso; mesmo aquelas que não são amadas submetem-se junto com as outras - tão desprezível é a nossa fraqueza! 

sábado, 7 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen





Estava tão cansado de si mesmo, dos seus estéreis pensamentos e visões. A vida, um poema?... Não quando se passava a vida a poetar em vez de vivê-la. Como ficava oca, então, como ficava vazia, vazia, vazia! Essa perseguição constante do próprio eu, no rastro das próprias pegadas - e em círculo, naturalmente... Essa comédia simulada: fingir que se atira à corrente da vida e ao mesmo tempo ficar ali agarrado ao anzol, pescando-se a si próprio neste ou naquele curioso disfarce... Ah, se a vida quisesse submergi-lo... A vida, o amor, a paixão, de modo que ele não mais precisasse poetizá-la, porém apenas - em estado de poesia - vivê-la!
[...]
E contudo era lastimável a existência a meio pano, em águas calmas, com a terra à vista; viesse ao menos uma ventania, uma tempestade! Soubesse ele ao menos dirigir-se e desenrolaria todas as velas em direção ao alto mar da vida. E diria adeus aos dias monótonos; adeus, momentos de felicidade medíocre; adeus ainda, pálidas emoções, que deviam ser aquecidas pela poesia para poder brilhar um pouco; e os débeis sentimentos, que precisam ser envoltos em sonhos tépidos, e ainda assim perecem e frio, adeus! Tomarei o rumo de uma terra onde as sensações enrolam-se como lianas opulentas em todas as fibras do coração - uma floresta virgem; para cada ramo ressecado há vinte outros em flor, para cada um que floresce, mais cem que brotam...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Há homens que são capazes de assumir os seus sofrimentos até o fim, naturezas vigorosas que experimentam as suas forças justamente sob o peso da infelicidade, enquanto outros - mais fracos - abandonam-se à dor sem resistência, como vítimas de uma moléstia. E como uma moléstia, penetra-os o sofrimento, embebe-se no âmago do seu ser, identifica-se com eles, assimilando-se através de uma luta prolongada e desaparece com a volta da saúde.
Mas existem também seres para os quais o sofrimento significa um atentado à sua pessoa, uma crueldade, e nunca uma provação, um castigo ou um mero capricho do destino. Tomam-no como um golpe de tirania odiosa e dele guardam sempre uma cicatriz no fundo do coração.
[...]
Com sua fé, não tinha arrancado ao céu nenhum milagre; nenhum Deus tinha respondido ao seu apelo; a morte agarrara sem vacilar a sua presa, como se nenhuma muralha de preces se levantasse até as nuvens.
Em sua alma fez-se um grande silêncio.
[...]
E ele desafiou Deus e bani-o do seu coração [...] quando ouvia alguém dizê-lo, franzia a testa numa expressão de revolta. À noite, quando ia dormir, experimentava um estranho sentimento de dignidade solitária; [...] Ele renunciara a proteção divina, nenhum anjo inclinava-se sobre sua cabeceira; sozinho e desamparado, ele se dispunha a enfrentar o sono noturno como quem atravessa um lago escuro e misterioso, e a solidão o  submergia em círculos cada vez maiores e mais distantes: mas ele não rezava, podia até chorar de desgosto, mas não cedia.
[...]
Pois ele pertencia a essa classe por assim dizer artística e superficial de naturezas religiosas, de acordo com o feitio peculiar dos seus dotes de inteligência: dessas que não temem harmonizar um pouco os contrários, e facilmente alteram os limites e os fundamentos de uma crença, pois desejam antes de tudo afirmar a sua personalidade e, sejam quais forem as esferas em que voem, apenas fazem questão de ouvir a seu próprio espírito adejante.
[...]
Ele tomou o freio nos dentes, e lança-se a cada atalho novo que se ofereça, contanto que se afaste do que era outrora o refúgio dos seus sentimentos e dos seus pensamentos.
Experimenta uma sensação de força desconhecida no fato de ver com os próprios olhos, escolher com o próprio coração e modelar a si próprio. [...] É o tempo encantado das descobertas, quando ele, cheio de medo e de incerta alegria, cheio de uma felicidade intranquila, descobre a si mesmo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne


O primeiro ano assemelhou-se muito ao tempo do noivado, mas à medida em que a vida em comum envelhecia, Lyhne sentia maior dificuldade em dissimular a si próprio sua fadiga: estava cansado de procurar sempre novas expressões para o seu amor; cansado de, sempre revestido da plumagem da poesia, manter as asas alçadas para a fuga pelo céu de todas as emoções e pelas profundezas de todos os pensamentos; ansiava pelo bem-estar de uma paz contemplativa, sentar-se muito quieto no seu galho e dormitar, a cabeça oculta na morna penugem sob a asa. Não concebia o amor como chama sempre desperta, crepitante, que fulgidiamente iluminasse os menores incidentes da existência, fantasticamente tornando tudo maior e mais estranho. Antes era o amor para ele, como a brasa que arde na calma, que irradia de suas brandas cinzas um calor sempre igual, que no aconchego do crepúsculo faz esquecer suavemente a distância e acende no que está ao redor um brilho mais próximo, mais familiar.
[...]
Havia muito que ela percebera, com desgosto, como minguava a opinião que fizera do marido, e como ele descia das alturas vertiginosas em que ela o colocara ao tempo do noivado.[...] procurou reconstituir o estado anterior, afogando o marido numa torrente de emoções ainda mais extraordinárias, de maiores entusiasmos; encontrou porém, tão fraca ressonância, que passou quase a sentir-se ela mesma sentimental e afetada[...] não queria acreditar no que pressentia; mas à medida que, pouco a pouco, a inutilidade dos seus esforços despertou-lhe dúvidas sobre suas próprias qualidades de espírito e de coração, passou a deixá-lo tranquilo, tornou-se fria, silenciosa e meditativa, procurou a solidão para chorar em paz as suas ilusões.

Pois agora ela verificava que se tinha enganado amargamente e que Lyhne, a rigor e no íntimo, não era diferente das pessoas que sempre conhcecera, e que aquilo que a enganara era a coisa mais comum: o amor simplesmente o envolvera por algum tempo numa fugitiva auréola de espírito e nobreza, como acontece tantas vezes às naturezas inferiores.

Lyhne tornou-se tão aflito quanto apreensivo com essa alteração nas suas relações, e esforçou-se em tentativas infelizes para reatar o antigo vôo apaixonado; o que apenas serviu para provar mais claramente a Bartolina a extensão do seu erro. 
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