sábado, 4 de junho de 2011
Walt Whitman
Folhas de Relva
Já percebi que estar junto de quem gosto me basta,
Ficar na companhia dos outros, num fim de tarde me basta,
Estar cercado por suas carnes belas curiosas gargalhantes e sem fôlego me basta,
Passar no meio deles . . tocar qualquer um . . . . pousar de leve meu braço ao redor do
pescoço dele ou dela por um momento . . . . o que é isso?
Não peço delícia melhor . . . . mergulho nisso como num mar.
Tem alguma coisa em ficar perto de homens e mulheres e no olhar e no contato e nos
seus cheiros que satisfazem a alma,
Todas as coisas satisfazem a alma, mas essas sim satisfazem a alma.
sábado, 21 de maio de 2011
Gyula Krúdy
O companheiro de viagem
Por essa época, eu completei quarenta anos, e às vezes passava dias muito infelizes; ao abrir os olhos de manhã, temia alguma catástofre; a noite era cheia de maus presságios; pensava a toda hora que já não viveria muito...
(Assim começou sua narrativa o meu companheiro de viagem, de quem eu não sabia mais do que o costumeiro sobre aqueles com quem passamos um longo dia ou uma noite aparentemente interminável num barco a vapor ou num trem. Há muito perdi a vontade de fazer novos conhecidos, porém meu companheiro simpático e calmo, de olhos tristes, cabelos grisalhos, parecia distinto e simples, e não imaginei que pudesse ameaçar meu descanso durante a noite. Viajávamos à luz da lua, as árvores, como saias enfileiradas, nos acompanhavam, as raposas, invisíveis que, como num enigma, desapareciam para sempre ante o olhar dos caçadores, latiam nos campos claros, os gansos selvagens, alçavam voo, içando um tom prateado na distância, podia-se imaginar que na estrada cinzenta, junto aos trilhos caminhavam pessoas infelizes à sombra de copas que se moviam no ritmo de um coração lento, apareciam casebres brancos como cães deitados, um pavio ardia detrás de uma janela com recorte em folha, talvez acabassem de matar alguém ou um velho camponês agonizante balbuciasse as últimas palavras; como a tristeza, a chuva nos alcançou, e da noite escura lançava lágrimas sobre a janela impiedosa. "onde estarão aqueles que amo?", pensei tiritante, como se nunca mais fosse ouvir a fala agradável das bocas queridas, mas apenas as palavras tristes de meu companheiro de viagem, que zumbiam em torno de minha cabeça como se a morte lesse a Bíblia.)
domingo, 8 de maio de 2011
J. W. Goethe
Os sofrimentos do jovem Werther
Que a vida humana é apenas um sonho já ocorreu a muita gente, e esta ideia também me persegue por toda parte. Quando vejo os limites que aprisionam a capacidade humana de ação e pesquisa; quando vejo que toda a atividade se esgota na satisfação de necessidades cujo único propósito é prolongar a nossa pobre existência e, também, que toda a tranquilidade em relação a certas questões não passa de resignação sonhadora, pois as paredes que nos aprisionam estão cobertas de formas coloridas e perspectivas luminosas... isso tudo, Wilhelm, me deixa estupefato. Volto-me para dentro de mim mesmo e encontro um mundo! Mais de pressentimentos e desejos que de raciocínios e forças vitais. E então, tudo flutua ante meus olhos, sorrio e sonhando penetro ainda mais neste mundo.
As crianças querem as coisas sem saber por que as querem, nisso todos os mestres-escolas e preceptores estão de acordo; mas adultos também cambaleiam por este mundo feito crianças, sem saber de onde vêm, nem para onde vão, agindo sem objetivos determinados e deixando-se governar igualmente com biscoitos, bolo e vara de marmelo: ninguém acredita, mas me parece que não há verdade mais palpável.
Confesso a você, pois sei o que vai me dizer a respeito, que os mais felizes são aqueles que como as crianças vivem para o presente, vestindo, despindo e levando as suas bonecas para passear, espreitando com grande respeito a gaveta onde a mamãe guarda o pão doce, e quando finalmente conseguem apanhar o que querem, devoram tudo com avidez e gritam: "Mais!"...Sim, são essas criaturas felizes. Felizes também aqueles que dão às suas ocupações fúteis, ou mesmo mesmo às suas obsessões, títulos pomposos, fazendo-as passar como proezas de gigante, realizadas para salvação e o bem estar da humanidade. - Ditosos sejam aqueles que podem ser assim. Mas quem reconhece humildemente aonde vai dar tudo isso, quem então vê com que delicadeza o ditoso burguês sabe cuidar de seu jardim, fazendo dele um paraíso, e com que perseverança o infeliz também carrega ofegante o seu fardo, todos igualmente interessados em ver um minuto a mais a luz de sol.... sim, esse é tranquilo e forma o seu mundo a partir de si mesmo e também é feliz por ser um homem. E depois, por mais limitado que seja, mantém sempre viva no coração a doce sensação de liberdade, sabendo que pode sair deste cárcere quando quiser.
domingo, 1 de maio de 2011
Anton Tchékhov
A dama do cachorrinho
Olhando-a agora, Gugov pensou:"Quantos encontros diferentes acontecem na vida!". O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas, afetadamente, com histeria, com uma expressão que parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar nele ódio e julgava ver escamas no rendado de suas roupas brancas. [...]
Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio o mar. Quase não se via Ialta através da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam Ialta, nem Oreanda; o mesmo ruído do não existirmos mais. E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento da vida sobre a terra, da perfeição imorredoura. Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, refletindo-se direito sobre tudo isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com a exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa própria dignidade humana. [...]
Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente pra si e beijava-a apaixonado. Aquele ócio completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem-vestida e nutrida, pareceram tê-lo transformado completamente. Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava, não a amava um sequer, e que via nela simplesmente uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estavam adiantado o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem-sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.
Esperavam a vinda do marido. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. [...]
Passaria um mês, mais ou menos, e Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro em raro ia aparecer-lhe em sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras lhe apareciam. No entanto decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas tudo permanecia nítido na memória, como se a separação de Ana tivesse sido na véspera. E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas. Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um orgão ou uma canção no restaurante, o vento soprasse na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia, os beijos. Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando, sorria e, depois, as lembranças transformavam-se em sonhos e o passado misturava-se, em sua imaginação, ao que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o. Fechando os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem, mais terna do que fôra realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias em Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru carinhoso de suas roupas. Na rua, acompanhava mulheres com o olhar, procurando alguma que a ela se assemelhasse...
terça-feira, 26 de abril de 2011
Virginia Woolf
Juntos e à parte
Seu suspiro e depois sua risada, sua melancolia e seu senso de humor tornavam-no estimado por todos, e ele sabia disso, no entanto o fato de ser benquisto não compensava as decepções e, se dependia dessa estima que os outros tinham por ele (fazendo longas, longas, longas visitas a simpáticas damas), não era porém sem amargor, pois nunca fizera uma décima parte do que poderia ter feito e sonhou em fazer quando garoto em Canterbury.
[...]
... mas essa receptividade e extraordinária facilidade para conversar de sua parte é que foram sua ruína, como não raro ele pensava, tirando as abotoaduras e pondo suas chaves e moedas no toucador depois de uma daquelas festas (durante a temporada ele ás vezes saía quase todas as noites)...
[...]
...tinha fracassado, como tantas vezes pensava, porque não conseguia se desligar totalmente da sociedade e da companhia das mulheres, que lhe era tão necessária, para escrever. Envolvera-se muito a fundo com a vida - e a essa altura ele cruzaria as pernas (seus movimentos eram sempre um pouco anticonvencionais e distintos) e, para não se culpar, punha a culpa na exuberância de sua natureza, que comparava favoravelmente com a de Wordsworth, por exemplo, e, posto que ele já dera tanto aos outros, sentia, deixando repousar nas mãos a cabeça, que os outros deveriam por sua vez ajudá-lo, sendo isso o prelúdio, trêmulo, fascinante, estimulante, da conversa a manter; e em sua mente borbulhavam imagens.
[...]
...sairia assim para talvez umas dez festas ou mais na temporada sem sentir nada fora do comum, ou apenas remorsos sentimentais e o desejo de belas imagens - como aquela cerejeira em flor - estagnando-se nele o tempo todo, sem a menor alteração, uma espécie de superioridade em relação ao circunstante, uma impressão de recursos inexplorados, que o mandava de volta para casa insatisfeito com a vida, consigo mesmo, bocejando vazio, volúvel. Mas agora, não mais que de repente, como um raio branco no nevoeiro, (imagem que assomava formada pela inevitabilidade da luz), aquilo tinha acontecido ali; o velho êxtase da vida; sua invencível investida; pois, se não era agradável, ao mesmo tempo alegrava e rejuvenecia, enchendo nervos e veias de filamentos de fogo e gelo; era aterrador.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Lév Tolstói
A morte de Ivan Ilitch
O médico foi para a sala de visitas e comunicou a Prascóvia Fiodorovna que as coisas iam mal e que só lhe restava o recurso do ópio para abrandar as dores, que seriam tremendas.
Não mentia o doutor, mas as dores morais de Ivan Ilitch eram infinitamente piores do que as físicas. Resultavam do fato de, naquela noite, ao contemplar o rosto de Guerássim, sonolento, bondoso, de maçãs salientes, acudir-lhe à mente a seguinte indagação: "E se toda a minha vida, minha vida consciente, tivesse sido realmente errada?"
Ponderou que aquilo que antes acreditava ser totalmente impossível, isto é, não ter vivido como deveria, podia ser verdade. Considerou que as pequeninas tentativas que fizera, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocava, para lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais altamente instaladas na sociedade, podiam representar o lado autêntico das coisas, sendo falso tudo mais. E que os seus deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e todos os interesses mundanos e oficiais não passassem de grandes mentiras. Tentou defender tudo aqui perante si mesmo e, de repente, atinou com a frugalidade da sua defesa. Não havia nada a defender.
"Mas se assim é, estou eu saindo da vida com a plena consciência de ter destruído tudo o que me foi concedido e, se a perda é irreparável, que irei fazer?", pensou. E, deitado de costas, pôs-se a passar em revista a sua vida de maneira completamente diversa.
De manhã, quando apareceram sucessivamente o criado, a mulher, a filha e o médico, cada palavra, cada gesto deles era a confirmação da tremenda verdade que lhe fora revelada de noite. Reviu-se em cada um - sua existência fora precisamente o que era a deles. E viu de forma espantosamente clara que não passava ela dum imenso e horrendo embuste, que escondia a vida e a morte.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Jens Peter Jacobsen
Niels Lyhne
Experimenta uma sensação de força desconhecida no fato de ver com os próprios olhos, escolher com o próprio coração e modelar a si próprio. Tanta coisa nova aflora à superfície do seu espírito, tantas facetas da sua natureza, antes ignoradas, desperdiçadas, combinam-se maravilhosamente em um todo harmonioso! É o tempo encantado das descobertas, quando ele, cheio de medo e de incerta alegria, cheio de uma felicidade intranquila, descobre a si mesmo. Em primeiro lugar, ele nota que não é igual aos outros; isso desperta-lhe um pudor moral que o torna acanhado, lacônico, arredio. Fica desconfiado, e em tudo que se fala vê alusões aos seus mais íntimos segredos. Por ter aprendido a ler em si mesmo, acredita que todo mundo também poderá ler o que está escrito na sua consciência, evita os adultos e aprofunda a sua solidão. Parece-lhe que que os homens de súbito tornaram-se estranhamente inoportunos. Sente-se vagamente hostil em relação a eles, como se fossem seres de outra raça, e no seu isolamento começa a distingui-los, a observá-los e a julgá-los. Outrora os nomes de pai, mãe, pastor e moleiro davam uma idéia perfeita e suficiente dessas criaturas. O nome escondia a pessoa. O pastor era o pastor e não havia nada mais a dizer. Mas agora ele via que o pastor era um homenzinho jovial, que em casa se fazia ainda menor e tão quieto quanto possível, para não ser percebido pela mulher, e fora de casa embriagava-se de conversas e de discussões revolucionárias e libertárias para esquecer o jugo caseiro.
Eis em que tinha se transformado o pastor.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Rainer Maria Rilke
Os cadernos de Malte Laurids Brigge
Creio que devia começar a trabalhar, agora que aprendo a ver. Tenho vinte e oito anos, e até aqui aconteceu tanto como nada. Vamos repetir: escrevi um estudo sobre Carpaccio, que é mau; um drama chamado "Matrimônio" que quer provar, por meios equívocos, qualquer coisa falsa; e versos. Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo o bastante),- são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos e regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, - em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria pra outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual à outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só guando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.
terça-feira, 1 de março de 2011
Jorge Luis Borges
The unending gift
Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, soube que morreu. Senti, como de outras
vezes, a tristeza e a surpresa de compreender que somos como
um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse ali, seria, com o tempo, essa coisa a
mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos de minha casa;
agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e de
qualquer cor e não sujeita a nenhuma.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música, e
estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Jens Peter Jacobsen
Niels Lyhne
Continua mergulhado em seus estudos, porém sem método, e a idéia de aprontar-se para lutar e aparecer apenas bruxuleia, vacilante. Frequenta muita gente, mas não vive com ninguém; bem que as pessoas lhe interessam, mas ele não faz nenhuma questão de interessar a elas; e sente diminuir dentro de si aquela força que deveria levá-lo a realizar a sua obra, custasse o que custasse. Já se conforma em esperar, mesmo que tenha que esperar até que seja demasiado tarde. Quem tem fé não tem pressa, é a sua desculpa. E ele tem bastante fé, quando vai ao fundo de si mesmo reconhece que tem uma fé capaz de remover montanhas; mas não consegue fazer esse esforço. De vez em quando irrompe nele um impulso criador, um desejo de ver libertada uma parte do seu eu em seu trabalho, e durante dias inteiros concentra-se num alegre e titânico esforço de modelar a argila do seu Adão; mas não consegue nunca dar-lhe a forma do ideal; não tem persistência para manter a concentração exigida por essa tarefa. Durante semanas hesita em abandonar o trabalho, mas acaba sempre por abandoná-lo e pergunta-se por que haveria de continuar: que pode lucrar com isso? Gozou a alegria da concepção, restam-lhe apenas trabalho e disciplina, cuidar, alimentar, levar a bom termo – e para quê, para quem? Ele não é um pelicano... Diga o que disser, porém, fica descontente consigo mesmo e sente que não correspondeu às exigências do seu próprio ser, e de nada lhe adiantam as especulações e as dúvidas sobre os fundamentos dessas exigências. Enfrenta uma opção, e deve optar; pois a vida é assim: passada a primeira mocidade, cedo ou tarde, conforme a natureza de cada um, cedo ou tarde amanhece o dia em que a resignação vem a nós como o Tentador e procura seduzir-nos, procura levar-nos a dizer adeus ao impossível e darmo-nos por satisfeitos. E a resignação tem doces e judiciosas palavras... Quantas vezes não foram derrotadas as aspirações ideais da juventude, quantas vezes seu entusiasmo não foi espezinhado e a sua esperança aniquilada! Os ideais, os claros e luminosos ideais ainda não perderam nada do seu brilho, mas não percorrem mais a terra ao nosso lado, como nos primeiros dias da nossa juventude; pisaram os largos degráus da experiência e subiram de novo ao céu de onde tinham sido retirados pela nossa fé ingênua, e lá se encontram, cintilantes mas distantes, sorridentes mas fatigados, numa ociosidade divina, enquanto o incenso de uma inerte adoração vai se enrolando até o seu trono em solenes espirais.
Niels Lyhne estava cansado; tinham-no exaurido esses repetidos preparativos para um salto que nunca era executado, tudo lhe parecia vazio e sem valor, artificial e confuso, e além disso tão mesquinho; achava que o mais natural era tapar os ouvidos e a boca, e aprofundar-se em seus estudos, que nada tinham que ver com o ambiente irrespirável do mundo, que eram para ele como uma quieta profundeza marinha, com pacíficas florestas de algas e estranhos animais.
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