terça-feira, 23 de agosto de 2016

Edward O. Wilson




O novo Iluminismo

De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? 

Os seres humanos são atores em uma história. Somos a ponta de crescimento de um épico inacabado. A resposta para as perguntas existenciais deve residir na história, e é essa a abordagem adotada pelas humanidades. Mas a história convencional por si mesma está truncada, tanto na sua linha do tempo como na percepção do organismo humano. A história não faz sentido sem a pré-história, e a pré-história não faz sentido sem a biologia. 

A humanidade é uma espécie biológica em um mundo biológico. Em cada função de nosso corpo e mente e em cada nível, somos perfeitamente adaptados para viver neste planeta particular. Pertencemos à Biosfera onde nascemos. Embora exaltados de várias formas, permanecemos uma espécie animal da fauna global. Nossas vidas são limitadas pelas duas leis da biologia: todas as entidades e processos da vida obedecem às leis da física e da química, e todas as entidades e processos da vida surgiram através da evolução por seleção natural.

Quanto mais aprendemos sobre a nossa existência física, mais aparente se torna que, mesmo as formas mais complexas do comportamento humano, são, em última análise, biológicas. Elas exibem as especializações desenvolvidas ao longo de milhões de anos por nossos ancestrais primatas. A marca indelével da evolução está clara na forma idiossincrásica como os canais sensoriais da humanidade limitam a nossa percepção natural da realidade. Ela se confirma na maneira como programas hereditariamente preparados e contrapreparados guiam o desenvolvimento da mente.

Mesmo assim, não podemos escapar da questão do livre-arbítrio, que, segundo a argumentação de alguns filósofos, ainda nos distingue. É um produto do centro da tomada de decisões subconsciente do cérebro que dá ao córtex cerebral a ilusão de ação independente. Quanto mais os processos físicos da consciência foram definidos pela pesquisa científica, menos sobrou para qualquer fenômeno que possa ser intuitivamente rotulado como livre-arbítrio. Somos livres como seres independentes, mas nossas decisões não são livres de todos os processos orgânicos que criaram nosso cérebro e nossa mente.  O livre-arbítrio, portanto, parece ser na verdade biológico. 

Claro que, por qualquer padrão concebível, a humanidade é de longe a maior realização da vida. Somos a mente da biosfera, do sistema solar e - quem sabe? - talvez da galáxia. Olhando à nossa volta, aprendemos a traduzir para nossos sistemas audiovisuais limitados as modalidades sensoriais de outros organismos. Conhecemos grande parte da base bioquímica de nossa própria biologia. Logo criaremos organismos simples em laboratório. Aprendemos a história do universo e a observamos quase até seu limite. 

Os nossos ancestrais foram uma em apenas umas duas dúzias de linhagens de animais a desenvolverem a eussocialidade, o seguinte grande nível de organização biológica acima da orgânísmica. Ali, membros do grupo que incluíam duas ou mais gerações permanecem juntos, cooperam, cuidam dos jovens e dividem o trabalho de modo a favorecer a reprodução de alguns indivíduos em detrimento de outros. Os pré-humanos eram bem maiores fisicamente do que qualquer dos insetos e outros invertebrados eussociais. Foram dotados de cérebros bem mais volumosos desde o princípio.  Com o tempo, descobriram a linguagem baseada nos símbolos, a escrita, e a tecnologia baseada na ciência que nos dá a vantagem em relação ao resto dos seres vivos. Agora, exceto o fato de nos comportarmos como macacos antropoides grande parte do tempo e termos tempo de vida geneticamente limitado, somos semelhantes a deuses. 

Que força dinâmica nos alçou a essa posição elevada? Eis uma pergunta de enorme importância para autocompreensão. A resposta aparente é a seleção natural multinível. No nível mais alto dos dois níveis relevantes da organização biológica, os grupos competem entre si, favorecendo traços sociais cooperativos entre os membros do mesmo grupo. No nível mais baixo, membros do mesmo grupo competem entre si de forma que leva ao comportamento egoísta. A oposição entre os dois níveis de seleção natural resultou em um genótipo quimérico em cada pessoa, tornando cada um de nós em parte santo, em parte pecador.  

A seleção de grupo é claramente o processo responsável pelo comportamento social avançado. Ela também engloba os dois elementos necessários à evolução. Em primeiro lugar, descobriu-se que os traços no nível do grupo, incluindo cooperação, empatia, e padrões de interligação, são hereditários nos seres humanos - ou seja, variam geneticamente em certo grau de uma pessoa para outra. Segundo, cooperação e unidade afetam claramente a sobrevivência de grupos que estão competindo. 

Ocorre ainda que a percepção da seleção de grupo como a principal força propulsora da evolução combina bem com grande parte do que é mais típico - e desconcertante - na natureza humana.  Além disso,, repercute nos indícios dos campos normalmente discrepantes da psicologia social, da arqueologia e da biologia evolutiva de que os seres humanos são, por natureza, intensamente tribalistas. Um elemento básico da natureza humana é que as pessoas se sentem compelidas a pertencer a grupos e, tendo aderido a um deles, consideram-no superior aos grupos concorrentes. 

A seleção multinível (seleção de grupo e individual combinadas) também explica a natureza conflituosa de nossas motivações. Toda pessoa normal sente a pressão da consciência, do heroísmo contra a covardia, da verdade contra a fraude, do compromisso contra o distanciamento. Constitui nosso destino sermos atormentados por grandes e pequenos dilemas ao abrirmos caminho diariamente pelo mundo arriscado e incontrolável que nos deu origem. Temos sentimentos contraditórios. Não estamos seguros quanto a este ou aquele rumo. Sabemos muito bem que ninguém é tão sábio ou superior que seja incapaz de cometer um erro catastrófico, e que nenhuma organização é tão nobre que esteja livre da corrupção. Todos nós vivemos nossas vidas em conflitos e controvérsias. 

As lutas oriundas da seleção natural multinível também são onde as humanidades e as ciências sociais habitam. Os seres humanos são fascinados por outros seres humanos, como todos os demais primatas são fascinados por seus próprios semelhantes. Sentimos um prazer incessante em observar e analisar nossos parentes, amigos e inimigos.  A fofoca sempre foi a ocupação favorita em todas as sociedades, dos grupos caçadores-coletores às cortes reais. Avaliar o mais exatamente possível as intenções e a confiabilidade daqueles que afetam nossa própria vida pessoal é um bem humano e altamente adaptativo.  Também é adaptativo julgar o impacto do comportamento dos outros sobre o bem-estar do grupo como um todo. Somos gênios em interpretar as intenções dos outros, enquanto eles também lutam, hora após hora, com seus próprios anjos e demônios. O direito civil é o meio pelo qual moderamos o dano de nossas falhas inevitáveis

sábado, 14 de dezembro de 2013

Carlos Drummond de Andrade



Resíduo


De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Rafael R. Macêdo



[um copo de cerveja quente, um isqueiro e um cigarro]

Na escada que leva aos banheiros, um rapaz magro está parado, na altura do terceiro degrau. Blusa de algodão marrom, mangas recolhidas, listras brancas. As mãos repousam sobre o corrimão amarelo claro, preso à parede vermelha na mesma altura onde se inicia sua metade superior: um apanhado de espelhos gastos, distribuídos por ambos os lados até o teto.

No mesmo instante, mais acima, ao final do primeiro lance de escadas, uma jovem também parada. Vestido de alças azuis, jeans escuro, cobalto. A barra pela metade das coxas, grossas e resguardadas numa delicada meia-calça escura, discretamente rendada. Acaba de sair do banheiro, um tanto alta e desajeitada. Disfarça. Observa surpresa o rapaz lá embaixo. Permanece imóvel, como se congelada. 

Ele prossegue em sua direção. Sobe decidido o que lhe falta da escada. Aflita, ela arregala os olhos, confere ao lado os que passam, então sorri, respirando fundo e relaxando os ombros, como se desabrochasse. A rara combinação de malícia e ternura pela qual ele sempre se apaixonou.

Então eles se beijam com força. Francamente desesperados. Como que precipitando ali uma vontade urgente, dolorosamente condensada pelo passar dos anos. As mãos dele, dedos curtos e modestos, percorrem a pele de seu rosto macio, seu anguloso maxilar. Depois, com calma, recolhem até detrás das orelhas as mechas do seu cabelo escuro, levemente ondulados, e ainda, sorrindo, seus precoces fiapos brancos. Tudo num tamanho curto, colados ao corpo, um chanel de pontas, como se diz. 

Feito isso, ele então conforta sua nuca molhada com uma das mãos. A outra repousa esquecida, suave, sobre a cintura dela, sustentando ainda um copo de cerveja quente, o isqueiro e um cigarro de palha apagado. Tudo a um palmo de onde se começa o vestido, que lhe deixa as costas nuas, ora pressionadas, ora refletidas contra o espelho.

Pronunciam qualquer tipo de acordo, um lugar talvez, baixinho, feito prece. Ela suspira hesitante, pensa no namorado, tonta e apreensiva, no mesmo instante em que despeja lentamente seus braços magros sobre o peito dele, apoiando em seus ombros com carinho. Beijam-se mais uma vez de maneira terna, um abraço breve e íntimo como antigamente. Seguem sozinhos, em sentidos contrários. Ele, atordoado, em direção ao banheiro.

Em quarenta minutos estarão agarrados, confidentes, suados dentro de um carro, protegidos pela chuva que tomou conta da cidade enquanto tudo aconteceu. 

Georges Bataille



História do Olho

          Havia no corredor um prato de leite para o gato.
          - Os pratos foram feitos para a gente sentar - disse Simone.  - Quer apostar que eu me sento no prato?
          - Duvido que você se atreva - respondi, ofegante.
          Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua "carne rosa e negra" banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.
          De repente, ela se levantou: o leite escorreu por suas coxas até as meias. Enxugou-se com um lenço por cima da minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava o pau, me remexendo no assoalho. Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos. Porém quando sua mãe retornou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão por entre suas coxas quentes.
          Voltei pra casa correndo, louco para bater punheta de novo. No dia seguinte, amanheci de olheiras. Simone me olhou de frente, escondeu a cabeça contra meu ombro e disse: "Não quero mais que você bata punheta sem mim". 

Georges Bataille

História do Olho (II)


          Um deslumbramento interior me esgotava e não sei o que teria acontecido se, de repente, Simone não tivesse se movido ligeiramente; abriu as coxas, abriu-as tanto quanto podia e me disse, em voz baixa, que não conseguia mais se conter; inundou o vestido, com um estremecimento; no mesmo instante, a porta jorrou nas minhas calças.
          Deitei-me então na grama, o crânio apoiado numa pedra lisa e os olhos abertos sobre a Via Láctea, estranho rombo de esperma astral e de urina celeste cravado na caixa craniana das constelações; aquela fenda aberta no topo do céu, aparentemente formada por vapores de amoníaco brilhando na imensidão - no espaço vazio onde se dilaceram como um grito de galo em pleno silêncio - refletia no ininito as imagnes simétricas de um ovo, de um olho furado ou do meu crânio deslumbrado, aderido à pedra. Repugnante, absurdo grito do galo coincidia com a minha vida: quer dizer, nesse momento eu era o Cardeal, devido à fenda, à cor vermelha, aos gritos dissonantes que me provocara dentro do armário e, também, porque os galos são degolado...


Para outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o grito do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam "os prazeres da carne", na condição de que sejam insossos.
          Mas desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo a que se chama "os prazeres da carne", justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por "sujo". Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo estrelado...

Gustav Flaubert




Educação Sentimental

           Viajou.
     Conheceu a melancolia dos paquetes, o frio despertar sob a tenda de campanha, o atordoamento das paisagens e das ruínas, a amargura das simpatias interrompidas.
           Voltou.
        Frequentou a sociedade, e teve novos amores. Mas a permanente lembrança do primeiro tornava-os insípidos; e além disso, a veemência do desejo, a própria flor da sensação, já não existia. Também suas ambições espirituais tinham diminuído. Passaram-se os anos; e suportava a ociosidade da sua inteligência e a inércia do seu coração.
         Em fins de março de 1867, ao cair da noite, estava sozinho em seu gabinete, quando uma mulher entrou.
           - A Senhora Arnoux!
           - Frédéric!
           Ela agarrou-lhe as mãos, puxou-o, docemente até a janela, e olhava-o repetindo:
           - É ele! Sim, é ele!
        Na penumbra do crepúsculo, só lhe via os olhos, debaixo do véu de renda preta que lhe velava o rosto.
          Depois de pousar na borda da lareira uma pequena carteira de veludo cor de vinho, sentou-se. Ambos estavam incapazes de falar, sorrindo um para o outro.
          Finalmente, Frédéric fez-lhe uma série de perguntas sobre ela e sobre o marido. 
          Habitavam nos confins da Bretanha, para viver economicamente e pagar as dívidas. Arnoux, quase sempre doente, parecia agora um velho. A filha estava casada em Bordéus, e o filho num regimento, em Monstagnem. Depois, ela ergueu a cabeça: 
            -Mas torno a vê-lo! Sinto-me feliz!
            [...]
            Então, numa voz trêmula, e com demorados intervalos entre as palavras:
            -Tinha  medo! Sim... medo de você... e de mim!
     Esta revelação fê-lo sentir como que um arrepio de volúpia. O coração batia-lhe apressadamente. Ela continuou:
           - Desculpe por eu não ter vindo antes. [...]
           E falou-lhe do lugar onde morava.
         Era uma casa baixa, de um só pavimento, com um jardim cheio de enormes buxos e uma avenida ladeada de castanheiros que subia até o alto da colina, de onde se via o mar.
           - Vou pra lá, e sento-me num banco, ao qual dei o nome de banco do Frédéric. 
           Ela confessou o desejo de dar uma volta, pelo seu braço.
       A luz dos estabelecimentos iluminava-lhe, a intervalos; o perfil pálido; depois, a sombra novamente a envolvia; e, no meio das carruagens, da multidão e do ruído, seguiam sem se distrair de si próprios, sem nada ouvir, como aqueles que caminham juntos no campo, sobre um leito de folhas mortas.
         Contavam um ao outro os dias antigos, os jantares ao tempo da Art Industriel, a sua maneira de esticar as pontas do colarinho, de esmagar cosméticos nos bigodes, e outras coisas mais íntimas e profundas. Que emoção emoção ele sentira ao ouvi-la cantar pela primeira vez! Como ela estava bela, no dia da sua festa, em Saint-Cloud! Lembrou-lhe o jardinzinho de Auteuil, as noites de teatro, um encontro no bulevar, antigos criados, a babá preta. 
          Ela espantava-se da sua memória. Contudo, disse-lhe: 
          - Às vezes, suas palavras voltam-me como um eco longínquo, como som de um sino trazido pelo vento; e  parece-me tê-lo, quando leio passagens de amor nos livros.
     - Tudo o que neles se censura como exagerado, senti-o por você, - disse Frédéric. - Compreendo os Werther, - aos quais não aborrece o pão com a manteiga de Carlota.
          - Pobre amigo querido!
          Suspirou, e, ao fim de longo silêncio:
          - De qualquer modo, amamo-nos muito.
          - Mas não pertencemos um ao outro!
          -Talvez tenha sido melhor assim - disse ela.
          - Não! Não! Que felicidade teria sido a nossa!
          - Oh! Acredito, com um amor como o seu!
          E devia ser bem forte, para ainda durar ao cabo de tão longa separação! 
          Frédéric perguntou-lhe  como tinha descoberto que ele a amava.
          - Foi uma  noite em que me beijou o pulso, entre a luva e o punho. Disse de mim pra mim: "Mas ele ama-me, ele ama-me". Tinha medo de ter certeza, contudo. A sua reserva era tão deliciosa, que eu sentia o prazer de uma homenagem involuntária e contínua.
           Ele nada lamentava. Os sofrimentos de outrora tinha sido pagos.

            
     

sábado, 28 de setembro de 2013

Rainer Maria Rilke



Sou apenas um de vossos mais humildes monges
fitando da minha cela a vida lá fora,
das pessoas mais distante que das coisas.
...
Não me julgo presunçoso se digo:
Ninguém realmente vive sua vida.
As pessoas são acidentes, vozes, fragmentos,
medos, banalidades, muita alegria miúda,
já crianças, envoltas em dissimulação,
quando adultos, máscaras; como rostos - mudas.

Penso muitas vezes: deve haver tesouros
onde se armazenam todas essas muitas vidas,
como armaduras ou liteiras, berços
que nunca portaram alguém francamente real,
vidas qual roupas vazias que não se sustentam
de pé e, despencando, agarram-se
às sólidas paredes de pedra abobadada.

E quando à noite vagueio
fora do meu jardim, imerso em tédio,
sei que os caminhos todos que se estendem
levam ao arsenal de coisas não vividas

Não há árvore ali, como se a terra se guardasse
e com ao redor da prisão ergue-se o muro,
sem janela alguma, em seu sétuplo anel.
E seus portões, de trancas de ferro,
que repelem os que querem passar,
têm suas grades todas feitas por mãos humanas.

sábado, 14 de setembro de 2013

Pedro Juan Gutiérrez



   
Trilogia suja de Havana

     Então finalmente nos esbarramos um no outro, e foi de primeira. Eu me divertia muito porque sua luxúria comigo a transformava numa das grandes pecadoras da história da humanidade. Era só sentir a pele do meu pau roçando nos lábios vaginais e ela perdia a cabeça. Mandava à merda toda a pose intelectualóide e virava uma doida pornográfica. E tudo sem uma gota de rum, sem um baseado. Nada. Não precisava de nada. A capella. Falava sem parar e quando começava a ter um orgasmo atrás do outro, falava mais e mais. Toda aquela parafernália me excitava muito. Não posso me fazer de santo agora e dizer que odiava suas contorções mentais. Não, não. A verdade é que aquilo tudo me excitava muito.
       "Quero ser sua escrava, papito. E quero que você me amarre e me bata de chicote. Ali estão a corda e o cinto de couro. Quero que você me bata e me faça trepar com quatro homens ao mesmo tempo. Quero ser puta e foder com todos esses homens na sua frente. Ahh, me come. Olha que bunda mais dura eu tenho. É toda sua, seu veado, toda sua. E vou virar sapata pra você. Arranja uma branca bonita e vai ver que eu endoido ela pra você. Quero ser sua escrava, papi. Me bate. Me chicoteia, papito. Me morde. Me marca com seus dentes. Enfia o dedo no meu cu."
       Tinha revista de sacanagem e gostava de ter seus orgasmos olhando para aquelas lindas louras de olhos verdes. Bom, eu me divertia com aquilo tudo e nunca pretendi entender. É impossível entender tudo. A vida não dá pra ser vivida e entendida. Você tem que escolher.
      [...]
      A vida é assim, safada. Se você tem um caráter forte, é intransigente e depreciativo. O rigor e a disciplina transformam você nunca pessoa implacável. Só os fracos são submissos e parasitários. E precisam do forte. Sacrificam tudo esperando alguma migalha. Sacrificam sua dignidade. Sei que é complicado dizer isso em voz alta, mas a verdade é que uns mandam e outros obedecem. Eu não posso obedecer a ninguém. Nem a mim mesmo. E isso me custa caro. pago bem caro.
     Então você está cheio de fúria  e de raiva e tem que relaxar. Todo mundo sabe como: álcool, sexo, drogas. Bom, outros se fartam de chocolates ou de comida compulsiva, sei lá. Aqui no bairro todo mundo usa muito sexo e um pouco de álcool e maconha. E também há os místicos, e são os que vivem melhor. Mas isso é outra coisa. Vamos deixar de lado os místicos e os exotéricos, são muito poucos. Não contam.

Wislawa Szymborska



A vida na hora

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço em cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira à província.
Meus instintos são amadorismos.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá pra retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como um casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que eu não conheço.

Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar pra sempre naquilo que fiz.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Pedro Juan Gutiérrez



O Rei de Havana

Às vezes, gostava de observar. Agora, tinha uma fome de cão. Sem comida e sem dinheiro, teria de observar melhor ainda. Quem sabe aparecia alguma coisa comestível. Chegou ao Malecón. Sentou-se no muro, para tomar a fresca. Como sempre acontecia com ele, tinha tanta fome que não sentia mais. Fazia muito calor, embora o crepúsculo já se acendesse sobre o mar com tintas alaranjadas, cinzentas, vermelhas, rosadas, azuis, violeta, brancas. Só vendo pra crer. O sol afundando no mar e todas aquelas cores no céu. Sem camisa, Rey sentia o suor escorrer das axilas e pelas costas até as nádegas. O saco também estava suando e ele todo fedia a bodum forte. Fazia muitos dias que não tomava banho. Cheirou as axilas. Gostava daquele cheiro. Cheirava a si mesmo várias vezes por dia. Ficava excitado de se cheirar. Sentiu uma leve ereção. Mas estava com vontade de mijar. Sentou-se bem na beirada do muro. Tirou a vara meio dura e mijou no mar. Uma mulher que estava beijando o namorado ficou olhando fixamente pra ele, fascinada por aquele belo instrumento. Rey percebeu e gostou. Mexeu um pouco o pau. Cuspiu na cabeça para deslizar melhor e se masturbou um pouco em honra de sua admiradora.  O homem, de costas, não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela segurava a cabeça dele, beijava seu pescoço, e seus olhos se arregalavam olhando a piroca de Rey. Ele tinha se excitado cheirando a si próprio, como fazem os macacos e muitos outros animais, inclusive o  homem. E agora tinha uma admiradora entusiasmada que a qualquer momento era capaz de largar o noivo e se aproximar de Rey para completar amavelmente sua masturbação.  Mas Rey se lembrou da fome e pensou: "Se eu gozar agora, desmaio, porra!" Guardou o material, olhou uma última vez a jovem fã e saiu andando pelo Malecón, para o porto. Deteve-se um instante e correu os olhos em busca de Magda: o ponto de camelo na esquina de San Lázaro e Marqués González, a porta da capela, a esquina do hospital, o parque Maceo.  Olhou devagar. Magda não estava por ali. Estava louco para vê-la, para deitar com ela, beijar-lhe a bunda e mergulhar numa daquelas trepadas loucas que duravam três dias e terminavam quando o pau e a buceta lhes ardiam tanto que tinham de parar senão começavam a sangrar. "Por onde será que anda aquela louca? Com quem está?", perguntou-se algumas vezes, e em seguida deixou o assunto pra lá.  Seguiu pelo Malecón, mais dois quarteirões. Não sabia para onde ir. Como fome e sem dinheiro. Sua morte e sua desgraça era que vivia exatamente o minuto presente. Esquecia com precisão o minuto anterior e não se antecipara nem um segundo ao próximo. Tem quem vida dia a dia. Rey vivia minuto a minuto. Só o momento exato que respirava. Aquilo era decisivo para sobreviver e ao mesmo tempo o incapacitava de fazer qualquer projeto positivo. Vivia do mesmo modo que a água estancada num charco, imobilizada, contaminada, se evaporando em meio a uma podridão asquerosa. E desaparecendo.