Mostrando postagens com marcador Czeslaw Milosz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Czeslaw Milosz. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Czeslaw Milosz



A Song on the End of the World

On the day the world ends
A bee circles a clover,
A fisherman mends a glimmering net.
Happy porpoises jump in the sea,
By the rainspout young sparrows are playing
And the snake is gold-skinned as it should always be.

On the day the world ends
Women walk through the fields under their umbrellas,
A drunkard grows sleepy at the edge of a lawn,
Vegetable peddlers shout in the street
And a yellow-sailed boat comes nearer the island,
The voice of a violin lasts in the air
And leads into a starry night.

And those who expected lightning and thunder
Are disappointed.
And those who expected signs and archangels’ trumps
Do not believe it is happening now.
As long as the sun and the moon are above,
As long as the bumblebee visits a rose,
As long as rosy infants are born
No one believes it is happening now.

Only a white-haired old man, who would be a prophet
Yet is not a prophet, for he’s much too busy,
Repeats while he binds his tomatoes:
There will be no other end of the world,
There will be no other end of the world.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Czeslaw Milosz



A assim chamada vida 

A assim chamada vida, quer dizer
Tudo o que é assunto de telenovela
Não lhe parecia digno de relatar.
Mesmo que quisesse falar, não o sabia.
Admiravam-no as histórias de homens e mulheres
Que se iam arrastando até à deslembrança coruscante.
Ele próprio só sabia cerrar os dentes, aguentar e
esperar que a velhice inviabilizasse os dramas,
que a novela de amores, ódios, tentações e traições
rebentasse como uma bola de sabão.






segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Czeslaw Miloz




Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é também quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

sábado, 24 de julho de 2010

Czeslaw Milosz





Love

Love means to learn to look at yourself
The way one looks at distant things
For you are only one thing among many.
And whoever sees that way heals his heart,
Without knowing it, from various ills
A bird and a tree say to him: Friend.
Then he wants to use himself and things
So that they stand in the glow of ripeness.
It doesnt matter whether he knows what he serves:
Who serves best doesnt always understand.

Czeslaw Milosz

domingo, 6 de junho de 2010

Czeslaw Milosz






Cris

Em abril de 1996 a imprensa internacional noticiou a morte  aos 75 anos de idade de Christopher Robin Milne, eternizado no livro de seu pai, A.A. Milne, O Ursinho Puff, como Cris.

       Eu, o Ursinho Puff, preciso de repente pensar em coisas muito difíceis pra minha pequena cabecinha. Nunca me importei com o que está lá fora do nosso jardim, onde morávamos eu, o porquinho Leitão, o coelho Abel e o burrinho Bisonho com nosso amigo Cris. Quer dizer, nós ainda moramos aqui e nada mudou e agorinha mesmo comi um pote de mel – o Cris só foi ali e já volta.
      A Coruja diz que lá fora do nosso jardim começa o Tempo, e isso é um poço assim fundo pra caramba, e quando uma pessoa cai nele vai sumindo e sumindo lá pra baixo, até que ninguém sabe o que acontece com ela depois. Fiquei um pouco preocupado com o Cris, se não tinha caído lá dentro, mas ele voltou e aí eu perguntei sobre o tal poço. “Puff – ele disse – eu estava dentro dele e fui caindo, e caindo eu ia mudando, minhas pernas foram ficando compridas, fiquei grande, usava umas calças que iam até o chão e me cresceu barba, depois meus cabelos foram ficando brancos, fui me encurvando, andei de bengala e aí morri.
     Com certeza, foi tudo só um sonho, porque não parecia bem de verdade. De verdade pra mim sempre foi só você, Puff, e as nossas brincadeiras. Agora já não saio daqui pra lugar nenhum, mesmo se me chamarem pro lanche."

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Czeslaw Milosz



Conversation with Jeanne 


Let us not talk philosophy, drop it, Jeanne.
So many words, so much paper, who can stand it.
I told you the truth about my distancing myself.
I've stopped worrying about my misshapen life.
It was no better and no worse than the usual human tragedies.
For over thirty years we have been waging our dispute
As we do now, on the island under the skies of the tropics.
We flee a downpour, in an instant the bright sun again,
And I grow dumb, dazzled by the emerald essence of the leaves.
We submerge in foam at the line of the surf,
We swim far, to where the horizon is a tangle of banana bush,
With little windmills of palms.
And I am under accusation: That I am not up to my oeuvre,
That I do not demand enough from myself,
As I could have learned from Karl Jaspers,
That my scorn for the opinions of this age grows slack.
I roll on a wave and look at white clouds.
You are right, Jeanne, I don't know how to care about the salvation of my soul.
Some are called, others manage as well as they can.
I accept it, what has befallen me is just.
I don't pretend to the dignity of a wise old age.
Untranslatable into words, I chose my home in what is now,
In things of this world, which exist and, for that reason, delight us:
Nakedness of women on the beach, coppery cones of their breasts,
Hibiscus, alamanda, a red lily, devouring
With my eyes, lips, tongue, the guava juice, the juice of la prune de Cythère,
Rum with ice and syrup, lianas-orchids
In a rain forest, where trees stand on the stilts of their roots.
Death, you say, mine and yours, closer and closer,
We suffered and this poor earth was not enough.
The purple-black earth of vegetable gardens
Will be here, either looked at or not.
The sea, as today, will breathe from its depths.
Growing small, I disappear in the immense, more and more free.


http://www.youtube.com/watch?v=IoNli84m1mQ&feature=related

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Czeslaw Milosz

Não Mais


Preciso contar um dia como mudei
Minha opinião sobre poesia e por que
Me considero hoje um dos muitos
Mercadores e artesãos do Império do Japão
Compondo  versos sobre a floração da cerejeira,
Sobre crisântemos e a lua cheia.


Se eu pudesse descrever as cortesãs
De Veneza, como incitam com uma vareta o pavão no pátio
E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina
Os seios pesados, a marca
Avermelhada no ventre onde o vestido se abotoa,
Ao menos assim como as viu o dono das galeotas
Arribadas aquela manhã carregando ouro;
E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus pobres ossos
No cemitério, onde o mar oleoso lambe o portão,
Em palavras mais duráveis que o derradeiro pente
Que entre carcomas sob a lápide, só, espera pela luz


Não duvidaria. Da resistência da matéria
O que se retém? Nada, quando muito o belo.
Então devem nos bastar as flores de cerejeira
E os crisântemos e a Lua cheia.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Czeslaw Milosz

Descrição honesta de si mesmo junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos em Minneapolis

Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas, meus
olhos vão ficando mais fracos, mas não se fartaram.

Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou
tecidos voláteis,

Observo uma a uma, suas bundas e coxas, pensativo, aca-
lentado por sonhos pornô.

Velho depravado, é a cova que te espera, não os jogos e
folguedos da juventude.

Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz, compondo
cenas dessa terra sob as ordens de uma imaginação erótica.

Não desejo a estas criaturas, desejo tudo, e elas são como
o signo de uma convivência extática.

Não é minha culpa se somos feitos assim, metade contem-
plação desinteressada, e metade apetite.

Se após a morte eu chegar ao Céu, lá deve ser como aqui,
só que terei me desfeito da obtusidade dos sentidos e do
peso dos ossos.

Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do cor-
po humano, a cor da íris, uma rua de Paris em junho de
manhãzinha, toda a incompreensível, a incompreensível
multidão das coisas visíveis.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Czeslaw Milosz

ARS POETICA


Sempre aspirei por uma forma mais ampla,
que não fosse nem poesia nem prosa em demasia
e permitisse a compreensão, sem expor ninguém,
nem autor nem leitor, a grandes tormentos.

Em sua essência, a poesia é algo horrível:
nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós,
e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre,
e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris.

É por isso que se afirma, com razão, que a poesia é ditada por um espírito,
embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo.
É difícil de entender a soberba dos poetas,
por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta.

Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demónios,
que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas,
e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos,
ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer?

Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado,
alguém poderá pensar que estou brincando apenas,
ou que encontrei uma outra maneira
de elogiar a Arte através da ironia.

Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos,
que ajudam a suportar a dor e a desgraça.
Mas isso não é o mesmo que examinar milhares
de obras oriundas directamente das clínicas psiquiátricas.

Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece,
e nós próprios somos diferentes dos nossos delírios.
Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia,
para obter o respeito de parentes e vizinhos.

A vantagem da poesia consiste no facto de lembrar-nos
da dificuldade de manter a identidade,
pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta,
e hóspedes invisíveis entram e saem.

Concordo, o que estou contando aqui não é poesia.
Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade,
sob uma pressão insuportável e apenas na esperança
de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Czeslaw Milosz

Flight

When we were fleeing the burning city
And looked back from the first field path,
I said: "Let the grass grow over our footprints,
Let the harsh prophets fall silent in the fire,
Let the dead explain to the dead what happened.
We are fated to beget a new and violent tribe
Free from the evil and the happiness that drowsed there.
Let us go" - and the earth was opened for us by a sword of the flames.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Czeslaw Milosz



Dádiva


Um dia tão feliz,
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.


Berkeley, 1971

sábado, 28 de novembro de 2009

Czeslaw Milosz

Retrato Grego


Tenho a barba espessa, os olhos velados
Pelas pálpebras, como nos que sabem o preço
Das coisas que viram. Me calo como convém
A um homem ciente de que no coração humano
Cabe mais do que na fala. Deixei o país
Natal, o lar e o serviço público
Não porque buscasse lucro ou aventuras.
Não sou um estrangeiro nos navios.
O rosto comum, o do cobrador de impostos,
Do comerciante, do soldado, não me distingue na multidão.
Nem me recuso a prestar a devida homenagem
Aos deuses locais. E como o que se come.
É quanto basta dizer sobre si mesmo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Czeslaw Milosz




NÃO MAIS


Preciso contar um dia como mudei
Minha opinião sobre a poesia e por que
Me considero hoje um dos muitos
Mercadores e artesãos do Império do Japão
Compondo versos sobre a floração da cerejeira,
Sobre crisântemos e a lua cheia.
Se eu pudesse descrever as cortesãs
De Veneza, como incitam com uma vareta o

pavão no pátio
E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina
Os seios pesados, a marca
Avermelhada no ventre onde o vestido se

abotoa,
Ao menos assim como as viu o dono das

galeotas
Arribadas àquela manhã carregando ouro;
E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus

pobres ossos
No cemitério, onde o mar oleoso lambe

o portão,
Em palavras mais duráveis que o derradeiro

pente
Que entre carcomas sob a lápide, só, espera

pela luz
Não duvidaria. Da resistência da matéria
O que se retém? Nada, quando muito o belo.
Então devem nos bastar as flores da cerejeira
E os crisântemos e a lua cheia.