domingo, 20 de dezembro de 2009

Wislawa Szymborska





Alguns Gostam de Poesia

Alguns-
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam-
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia-
mas o que é poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Czeslaw Milosz



Dádiva


Um dia tão feliz,
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.


Berkeley, 1971

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Kim Gui-rim




O Mar e a Borboleta


Porque ninguém lhe disse da fundura
a borboleta branca não tinha medo do mar

Era para ela uma plantação de folhas verdes
e ao pousar, a asa tenra se gela no toque da água
e volta cansada como uma princesa

A borboleta, ressentida do mar de março sem flores,
sente a fina cintura gelar no crescente azul.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Kim Nam-jo



Mar de Inverno


Sabe, fui ver o mar de inverno
Pássaros desconhecidos
Pássaros queridos - já haviam morrido

Pensei em ti
Mas a árdua tormenta congelara
até a lágrima e a verdade daquele amor
E o fogo do vazio
ardia em chamas sobre a crista das ondas

O meu sempre mestre
o tempo
Fiquei ali a assentir, assentir com a cabeça

ainda que restem
poucos dias

Ao terminar a prece,
faze-me possuir uma alma ainda mais ardente
Ainda que restem
poucos dias

Sabe, fui ao mar de inverno
A água da dura perseverança
jazia formando um pilar na fundura do mar



* * *

A Carta


Jamais encontrei alguém tão adorável quanto você
Jamais houve alguém que me fez tão só quanto você
Quando penso nisso, choro um pranto inevitável

Jamais houve alguém que me fez tão honesta quanto você
Você, que alumia o meu interior, é o espelho mais cristalino
E quando passo por você em toda a profundidade há um eu
de olhar umidecido. É o começo de mim

Escrevo para você todos os dias
Quando escrevo uma linha você vem de pronto ler esta linha,
e por isso jamais envio a carta

sábado, 12 de dezembro de 2009

Kim Gwang-sób

Solidão


Eu
estirado aqui na condição de um vivente e

lá atrás da tumba uma corrente infinita também se agita
sob uma rocha silenciosa, lá onde o mar é profundo

Eu
como um peixe cansado

Sonhos encantados amores cristalinos adormecem
Fragmentos do mundo saudoso se misturvam

Somente os estratos de longos séculos me guiam

Nem nervos nesta noite
Relógio, que bizarro!
Durma, vá, você também

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Kim Tchun-su

Ausência


Quando por vezes o vento vinha sacudindo
a cerca chorava
em tom triste

Coisas como crista-de-galo, ipoméia, balsâmina,
floresciam cada qual na sua estação,
e murchavam
sem som

Mesmo no inverno mais frio
vinha o raio de sol
para uma sesta solitária sobre pedras azuis
e se ia

Os anos passavam sem nada por fazer
e as pessoas, como num sonho,
viviam e morriam

Bák Mog-wór

Jardim de Inverno



Choviam folhas secas,
assim que eu as varria


O aroma dos crisântemos secos
tem (é) sabor de ressentimento

Aqui, na solidão do jardim,
as nuvens não são tranquilas

Lá, sombras agitadas
das nuvens

Meia vida
levada à toa

E o vento embala
o resto da tarde

Na montanha,
desce uma sombra fria

E os pássaros
também se foram para longe

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Antonio Machado

Y ha de morir contigo el mundo mago
donde guarda el recuerdo
los hálitos más puros de la vida,
la blanca sombra del amor primeiro,

la voz que fue a tu corazón, la mano
que tú querías retener en sueños,
y todos los amores
qye llegaron al alma, al hondo cielo?

Y ha de morir contigo el mundo tuyo,
La vieja vida en orden tuyo y nuevo?
Los yunques y crisoles de tu alma
trabajan para el polvo y para el viento?




sábado, 28 de novembro de 2009

Czeslaw Milosz

Retrato Grego


Tenho a barba espessa, os olhos velados
Pelas pálpebras, como nos que sabem o preço
Das coisas que viram. Me calo como convém
A um homem ciente de que no coração humano
Cabe mais do que na fala. Deixei o país
Natal, o lar e o serviço público
Não porque buscasse lucro ou aventuras.
Não sou um estrangeiro nos navios.
O rosto comum, o do cobrador de impostos,
Do comerciante, do soldado, não me distingue na multidão.
Nem me recuso a prestar a devida homenagem
Aos deuses locais. E como o que se come.
É quanto basta dizer sobre si mesmo.

Miodrag Pávlovitch

Réquiem


Desta vez
morreu alguém por perto

Réquiem
no parque cinzento
sob o céu  carrancudo

As mulheres seguiram o corpo morto
a morte ficou no quarto vazio
e desceu a cortina

Sintam
o mundo ficou mais leve
por um cérebro humano

Silêncio agradável depois do almoço
o menino descalço senta-se ao portão
e come uvas

Será que alguém permanece fiel
àquilo que perdeu

Vocês não devem ter pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam em brinquedos

E não se despeçam ao partir
isso é engraçado
e ofensivo