terça-feira, 17 de abril de 2012

Milan Kundera



Os testamentos traídos

Suspender o julgamento moral não é a imoralidade do romance, é a sua moral. A moral que se opõe à irremovível prática humana de julgar imediatamente, sem parar, a todos, de julgar antecipadamente e sem compreender. Esta fervorosa disponibilidade para julgar é, do ponto de vista da sabedoria do romance, a asneira mais detestável, o mal mais pernicioso. [...]
A criação do campo imaginário em que o julgamento moral fica suspenso foi uma proeza de imenso valor: somente aí podem desabrochar os personagens romanescos, ou seja, os indivíduos concebidos não em função de uma verdade preexistente, como exemplos do bem ou do mal, ou como representações de leis objetivas que se confrontam, mas como seres autônomos fundamentados em sua própria moral, em suas próprias leis.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Marcel Proust



No caminho de Swann

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de S. Tiago. Em breve,  maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes às vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo.  Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.  De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. é tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que eu procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intacto à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? não apenas explorar; criar. Está em face de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar  na sua luz.

Walt Whitman



Quando ouvi pelo fim do dia

Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido
recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi
feliz para mim, a noite que se seguiu;
E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,
assim mesmo não me senti feliz;
Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,
renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,
Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer
na luz da manhã,
Quando vaguei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,
rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a
caminho, Oh, então senti-me feliz;
Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento
me nutriu mais – e o belo dia passou bem,
E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,
chegou o meu amigo;
Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar
continuamente, lentas sobre as margens,
Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a
mim, cochichando, felicitando-me,
Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta
na noite fria,
No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado
sobre mim,
Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite
fui feliz.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Viktor Chkloviski




Uma teoria da prosa

Se estudarmos com relativa atenção as leis da percepção, não tardaremos a perceber que os atos habituais tendem a se tornar automáticos. Todos os nossos hábitos provêm da esfera do inconsciente e do automatismo. Para se dar conta disso, basta lembrar a sensação experimentada ao segurar uma caneta pela primeira vez, ou quando se começa a falar uma língua estrangeira, e compará-la à que acompanha o mesmo ato na sua milésima repetição. As leis da linguagem cotidiana, com suas frases incompletas e suas palavras pronunciadas apenas pela metade, se explicam precisamente a partir do automatismo de certos processos. [...] a vida passa, se anula. A automatização engole tudo: as coisas, roupas, móveis, a mulher e o medo da guerra.

Para ressuscitar nossa percepção da vida, para tornar sensíveis as coisas, para fazer da pedra uma pedra, existe o que chamamos de arte. O propósito da arte é nos dar uma sensação da coisa, uma sensação que deve ser a visão e não apenas o reconhecimento. Para obter tal resultado, a arte se serve de dois procedimentos: o estranhamento das coisas e a complicação da forma, com a qual tende a tornar mais difícil a percepção e prolongar sua duração. Na arte, o processo de percepção é de fato um fim em si mesmo e deve ser prolongado. A arte é um meio de experimentar o devir de uma coisa; para ela, o que foi não tem a menor importância.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Blaise Pascal





Pensamentos


[139]
Sobrecarregam os homens desde a infância com o cuidado de sua honra, dos bens, dos amigos, e ainda dos bens e da honra dos amigos; cumulam-nos de afazeres, do aprendizado das línguas e de exercícios e se lhes dá  a entender que não conseguiriam ser felizes sem que a sua saúde, honra e fortuna e as de seus amigos, estivessem em bom estado, e que a falta de uma única coisa dessas os tornará infelizes. Assim, são lhes dados encargos e afazeres que os fazem quebrar a cabeça desde o raiar do dia. Aí está, direis, uma estranha maneira de torná-los felizes; que se poderia fazer de melhor para torná-los infelizes? Como, o que se poderia fazer? Bastaria retira-lhes todas essas preocupações, porque então eles se veriam, pensariam naquilo que são, de onde vêm, para onde vão, e assim nunca é demais ocupá-los e desviá-los disso. E eis por que, depois de preparar-lhes tantos afazeres, se ainda tiverem algum tempo livre, aconselha-se que o empreguem em se divertir, e jogar, e ocupar-se sempre por inteiro.

[166]
Corremos despreocupados para o precipício depois de ter colocado alguma coisa à nossa frente para impedir-nos de vê-lo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Wislawa Szymborska



Sob uma estrela pequenina


Me desculpem o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que chamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nda me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Rainer Maria Rilke



Sobre Arte

Considero a arte o esforço de um indivíduo em chegar a um acordo com todas as coisas, as menores e as maiores, para além do estreito e obscuro e, nesses consistentes diálogos, aproximár-se das fontes últimas, silenciosas de toda vida. No interior desse indivíduo, os segredos das coisas se fundem com suas mais profundas sensações e se tornam audíveis para ele, como se fossem seus próprios anseios. A rica linguagem dessas confissões íntimas é a beleza.

Não espere que eu fale de meu esforço interior - devo me manter calado a respeito; seria aborrecido, mesmo para mim, prestar contas de todas as mudanças de fortuna que eu teria de sofrer em minha batalha por concentração. Essa inversão de todas as forças, essa mudança de direção da alma nunca ocorre sem inúmeras crises. A maioria dos artistas a evita por meio das distrações. Mas é por isso também que jamais chegam a tocar seu centro de produção, donde partiram no momento do seu mais puro elã. Toda vez, no início do trabalho, é preciso refazer para si essa inocência primeira, retornar ao local ingênuo onde o anjo se revelou a você quando lhe passou a primeira mensagem sedutora; é preciso reencontrar, por trás das amoreiras silvestres, a cama onde então se caiu no sono. Dessa vez não se irá dormir ali, mas suplicar, gemer - não importa; se o anjo se dignar  vir, será porque você o convenceu, não com lágrimas, mas com sua humilde decisão de começar sempre: ser um iniciante! 


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Czeslaw Milosz



A Song on the End of the World

On the day the world ends
A bee circles a clover,
A fisherman mends a glimmering net.
Happy porpoises jump in the sea,
By the rainspout young sparrows are playing
And the snake is gold-skinned as it should always be.

On the day the world ends
Women walk through the fields under their umbrellas,
A drunkard grows sleepy at the edge of a lawn,
Vegetable peddlers shout in the street
And a yellow-sailed boat comes nearer the island,
The voice of a violin lasts in the air
And leads into a starry night.

And those who expected lightning and thunder
Are disappointed.
And those who expected signs and archangels’ trumps
Do not believe it is happening now.
As long as the sun and the moon are above,
As long as the bumblebee visits a rose,
As long as rosy infants are born
No one believes it is happening now.

Only a white-haired old man, who would be a prophet
Yet is not a prophet, for he’s much too busy,
Repeats while he binds his tomatoes:
There will be no other end of the world,
There will be no other end of the world.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Rafael R. Macêdo




seria assim

gosto da leveza que brota da tua gengiva, se acontece de você sorrir;
da combinação formosa da tua saia cáqui, assim, bordada,
com o azul escuro das tuas sapatilhas.

gosto disso; não sei por que.

e do modo curioso dos teus olhos ágeis, estrangeiros, infantis, cientes de tudo,
que me reconfortam, sem que você saiba, desde muito tempo...
sem que pra isso eu tenha escutado sequer teu nome,

como se tivesse sido sempre assim:
cálido e passageiro, ambíguo e inevitável,
contemplar teu rosto de longe e sempre.

por isso eu fico aqui.

do contrário, estaríamos longe agora, deitados, eu e você, assim:
preguiçosos e esquecidos, numa grama qualquer daqui,
invisíveis feito a chuva modesta, que de tão fina, cede seu passo à força do vento,
marejando os olhos da senhora gorda com carinho.

e talvez houvesse uma taça, muriçocas ou então formigas,
e assim você soubesse que prefiro sempre dormir de meias,
mesmo que não faça frio, que me sinto mais seguro assim.

e quem sabe você me contasse, numa calma sedutora,
apoiando suas costas pelos cotovelos, desse jeito,
tudo quanto foi seu dia até aqui, tudo quanto foi sua vida até eu te olhar;

e por tudo encontraria em mim uma expressão confortável de alegria,
feito uma esperança satisfeita, como se o tempo cochilasse,
se esquecesse da pressa, numa brincadeira morna e suave,
tão antiga quanto o próprio mundo.

seria assim, eu sei.
e de que outra forma poderia ser, meu deus?

Edwin Morgan




De uma Varanda da Cidade


Quantas vezes quando penso em você o dia se ilumina!
Nosso amor silencioso
vagueia no Glen Fruin com borboletas e cucos -
me traz a sonolênca do campo! Deixe que flutue sobre o tráfego
pela janela aberta com uma nuvem de testemunhas -
uma queimadura cintilante, ovelhas brancas, a chama do junco,
os cucos chamando loucamente, a nuvem branca real sobre nós,
borboletas brancas sobre sua mão na curta grama quente,
e então a testemunha era minha mão fechando na sua,
minha boca penteando suas pálpebras e seu lábios
muitas vezes até você suspirar e se voltar para o amor.
Seu peito e coxas estavam ardendo como o junco.
Eu cobri sua fogueira em silêncio ali.
Deixamos o dia envelhecer junto com a grama.
Era em silêncio que o amor estava.

Passos e testemunhas! Nesta varanda de Glasgow quem serve
alegria como a água da montanha? Ela enche, transborda outra vez
para baixo da terra árida e rodas implacáveis.
Quantas vezes eu pensarei em você, até
que nossos passos moribundos esqueçam esta luz, esqueçam
que um dia conhecemos o vale feliz,
ou que um dia eu disse, Nós devemos pular em direção ao sol,
e nós pulamos em direção ao sol.