domingo, 29 de abril de 2018

Gavin Francis


Da cabeça aos pés
Histórias do corpo humano

2 – Olho: o renascimento da visão

   De todas as coisas que me aconteceram, acho que a menos importante foi ter sido cego.

James Joyce, tal como citado por J.L. Borges


Se você estiver sentado lendo este livro à luz solar, os fótons que chegam à sua retina nasceram há apenas oito minutos e meio, por meio de fusão no núcleo do Sol. Há cinco minutos eles passaram como um raio pela órbita de Mercúrio, há dois minutos deixaram Vênus para trás. Os que não foram interceptados pela Terra passarão pela órbita de Marte daqui a cerca de quatro minutos, e pela de Saturno dentro de pouco mais de uma hora. Depois dessa viagem através do espaço, num tempo imutável (porque, como Einstein compreendeu, por se mover à velocidade da luz, o tempo é imobilizado), a luz branca do Sol envolve o mundo à nossa volta e se fragmenta numa dispersão multicolorida. Essa dispersão é afunilada pela córnea e o cristalino do olho antes de tombar na rede de segurança da retina. A energia desse impacto faz com que proteínas dentro da rede se curvem, iniciando uma reação em cadeia, a qual, se proteínas suficientes se torcerem, leva à excitação de um único nervo da retina e à percepção de uma única centelha de luz.

Podemos saborear o que está em nossas bocas, tocar o que está ao nosso alcance, sentir cheiros a centenas de metros e ouvir coisas a dezenas de quilômetros. Mas é somente através da visão que estamos em comunicação com o Sol e as estrelas. 
Fotografia: Martin Chambi

sábado, 28 de abril de 2018

Leonard Mlodinow



Subliminar
2 – Sentidos + mente = realidade

O olho que vê não é um mero órgão físico, mas uma forma de percepção condicionada pela tradição na qual seu possuidor foi criado.
Ruth Benedict
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·    Todas as nossas percepções devem ser consideradas ilusões. Isso porque só percebemos o mundo de forma indireta, processando e interpretando os dados brutos dos nossos sentidos. É isso que nosso inconsciente processa para nós – criando um modelo do mundo. Ou, como dizia Kant, há Das Ding na sich, as coisas como elas são, e Das Ding fur uns, as coisas como as conhecemos. Por exemplo, quando olhamos ao redor, temos a sensação de estar vendo um espaço tridimensional. Mas não percebemos diretamente essas três dimensões. O cérebro vê um conjunto de dados planos e bidimensionais na retina e cria a sensação de três dimensões.  [...] Graças a todo esse processamento, quando falamos “Eu vejo a cadeira”, o que na verdade dizemos é que o nosso cérebro criou o modelo mental de uma cadeira.

·     Nosso inconsciente não só interpreta os dados sensoriais, ele os realça. E isso é necessário pois os dados que nossos sentidos transmitem são de qualidade muito baixa e precisam ser consertados para ser úteis. Por exemplo, o chamado “ponto cego”, uma lacuna nos dados que nossos olhos fornecem, um ponto atrás do globo ocular onde se encontra a retina e o cérebro. Isso cria uma região morta no campo de visão dos olhos. Em geral nem percebemos isso, pois nosso cérebro completa a imagem baseado nos dados obtidos da área ao redor.
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          O cérebro edita e corta informações visuais recebidas durante os movimentos dos olhos.
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    Outra lacuna dos dados brutos transmitidos pelos nossos olhos tem a ver com a visão periférica, que é muito fraca. Na verdade, se você erguer o braço em posição horizontal e olhar para a unha do polegar, vai perceber que a única região do seu campo de visão com boa resolução é a área interna na unha, ou talvez só um contorno.
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       Quando você olha para alguém, a imagem real na sua retina seria a de uma pessoa embaçada e trêmula com um buraco negro no meio do rosto. [...] Não é a imagem que você vai ver, porque seu cérebro processa automaticamente os dados, combina a informação dos dois olhos, remove os efeitos dos movimentos rápidos e preenche as lacunas baseado na suposição de que as propriedades visuais das regiões vizinhas sejam semelhantes.

   
    A audição funciona de forma semelhante. Por exemplo, nós preenchemos lacunas de informação auditiva de modo inconsciente. [...] Esse efeito é chamado de restauração fonêmica, conceitualmente análogo ao preenchimento que o cérebro faz quando edita o ponto cego da retina, melhora a baixa resolução da nossa visão periférica – ou preenche lacunas no seu conhecimento do caráter de alguém utilizando postas baseadas na aparência, no grupo étnico ou no fato de a pessoa fazer lembrar o tio Jerry. (Trata-se de uma taquigrafia perceptual muito eficaz – a não ser quando não é, pois às vezes pode levar a graves erros de julgamento. [...] A restauração fonêmica tem uma propriedade impressionante: por se basear no contexto em que você ouviu as palavras, o que você pensa ter ouvido no começo de uma sentença pode ser afetado pelas palavras que vêm no final.
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       De certa forma, todas as mentes humanas são como um cientista, criando um modelo do mundo ao redor, o mundo cotidiano que nosso cérebro detecta pelos sentidos. Assim como as teorias da gravidade, nosso modelo do mundo dos sentidos é uma aproximação, baseado em conceitos inventados pela mente. Assim como as teorias da gravidade, ainda que nossos modelos mentais acerca do entorno não sejam perfeitos, eles em geral funcionam muito bem .

         O mundo que percebemos é um ambiente artificialmente construído, cujas características e propriedades são ao mesmo tempo produto dos nossos processos mentais inconsciente dos dados reais. A natureza nos ajuda a preencher as lacunas de informação nos dotando de um cérebro que suaviza essas imperfeições, num nível inconsciente, antes mesmo de estarmos conscientes de qualquer percepção. Nosso cérebro faz tudo isso sem um esforço consciente, enquanto nos sentamos numa poltrona saboreando um copo de suco de pera ou bebericando uma cerveja. Aceitamos as visões urdidas pelas nossa mente inconsciente sem questionar, sem perceber que são apenas uma interpretação elaborada para maximizar nossa chance de sobrevivência, mas que, em todos os casos, são a imagem mais acurada possível.

      Isso suscita uma questão à qual voltaremos inúmeras vezes, em contextos que variam da visão à memória e à maneira como julgamos as pessoas que conhecemos: se uma das funções centrais do inconsciente é preencher as lacunas diante da informação incompleta, a fim de construir uma imagem da realidade que nos possa ser útil, o quanto dessa imagem é realmente acurada? Por exemplo, vamos supor que você conheceu alguém. Você tem uma conversa rápida com essa pessoa e, baseado em aparência, maneira de vestir, etnia, sotaque e gestos – talvez em um pouco de pensamento positivo de sua parte -, forma uma avaliação sobre esse indivíduo. Mas quanto você pode confiar que sua imagem é verdadeira ?
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FOTOGRAFIA: SALLY MANN

sábado, 21 de abril de 2018

Leonard Mlodinow




O novo inconsciente

O coração tem razões que a própria razão desconhece.
Blaise Pascal

·               Pode ser difícil distinguir um comportamento voluntário e consciente de outro habitual ou automático. Na verdade, como seres humanos, nossa tendência em acreditar nos comportamentos conscientes e motivados é tão forte que vemos consciência não só no nosso comportamento como também no reino animal. Fazemos isso com nossos bichos de estimação, claro. O fenômeno chama-se de antropomorfismo. (e com os bebês).
·         Os seres humanos também desempenham inúmeros comportamentos automáticos, inconscientes, mas tendem a não perceber isso porque a interação entre nossa mente consciente e inconsciente é muito complexa. Essa complexidade tem raiz na fisiologia do nosso cérebro.  Como mamíferos, possuímos outras camadas de córtex erigidas sobre a base do cérebro reptiliano mais primitivo; e, como homens, temos ainda mais matéria cerebral por cima.  Possuímos uma mente inconsciente e, superposta a ela, um cérebro consciente. Quantos de nossos sentimentos, juízos e comportamentos se devem a cada uma dessas estruturas, isso é muito difícil de saber, pois estamos sempre alternando as duas.
·         A grande questão é até que ponto comportamentos mais complexos e substantivos, com grande potencial de impacto sobre nossa vida, são também automáticos – mesmo quando temos certeza de que são racionais e muito bem avaliados.  De que forma nosso inconsciente afeta nossa atitude em questões como: “Qual casa devo comprar? Que ações devo vender? Será que devo contratar essa pessoa para cuidar do meu filho? Será que esses olhos azuis brilhantes que não consigo deixar de olhar são base suficiente para uma relação de amor duradoura?”
·         As interpretações tornaram-se para ela automáticas, não conscientes. Assim como todos entendemos a linguagem falada sem qualquer aplicação consciente das regras da linguística, minha mãe entendia as mensagens do mundo sem qualquer consciência de que suas experiências anteriores tinham moldado suas expectativas para sempre. Ela nunca reconheceu que sua percepção fora distorcida pelo temor sempre presente de que a qualquer momento a justiça, a normalidade e a lógica deixariam de ter força ou significado.
·         Todos temos nossos pontos de referência implícitos que produzem comportamentos e pensamentos rotineiros. Nossas experiências e ações sempre parecem se basear em raciocínios conscientes [...]. Mas embora possam ser invisíveis, ainda assim essas forças exercem uma forte influência.  [...] A revolução atual na maneira de pensar o inconsciente surgiu porque, com instrumentos modernos, podemos observar como diferentes estruturas e subestruturas no cérebro geram sentimentos e emoções; medir a potência de saída elétrica de neurônios individuais; mapear a atividade neural que forma os pensamentos de uma pessoa. Hoje os cientistas podem mais do que conversar com minha mãe e perscrutar como as experiências a afetaram. Agora eles podem identificar as alterações no cérebro resultantes de experiências traumáticas anteriores, como as dela, e entender como essas experiências provocam alterações físicas em regiões do cérebro sensíveis ao estresse.
·         O comportamento humano é produto de um interminável fluxo de percepções, sentimentos e pensamentos, tanto no plano consciente quanto inconsciente. [...] O novo inconsciente tem um papel muito mais importante do que nos proteger de desejos sexuais impróprios (por nossas mães e pais) ou de memórias dolorosas. Trata-se de um legado da evolução crucial para nossa sobrevivência como espécie. O pensamento consciente é de grande valia para projetar um automóvel ou decifrar as leis matemáticas na natureza, mas só a velocidade e a eficiência do inconsciente podem nos salvar na hora de evitar picadas de cobra, carros que entram no nosso caminho ou pessoas que nos fazem mal. Como veremos, para garantir nosso perfeito funcionamento, tanto no mundo físico quanto no social, a natureza determinou que muitos processos de percepção, memória, atenção, aprendizado e julgamento fossem delegados a estruturas cerebrais separadas da percepção consciente.
·         Todos nós tomamos decisões pessoais, financeiras e de negócios confiantes de que pesamos de forma apropriada todos os fatores importantes e agimos de acordo com eles – e que sabemos como chegamos a essas decisões. Mas conhecemos apenas as nossas influências conscientes, e por isso temos apenas uma visão parcial delas. Como resultado, nossa visão de nós mesmos e de nossas motivações, e da sociedade, é como um quebra-cabeça em que falta a maior parte das peças. Nós preenchemos os espaços em branco e fazemos adivinhações, mas a verdade sobre nós é muito mais complexa e sutil do que aquilo que pode ser entendido como um cálculo direto de mentes conscientes e racionais.
·         Nós percebemos, lembramos nossas experiências, fazemos julgamentos e agimos – mas em todas essas atitudes somos influenciados por fatores dos quais não temos consciência.  A verdade é que nossa mente inconsciente está ativa, é independente e tem propósito. Essa mente pode estar oculta, mas seus efeitos são muito visíveis, pois têm um papel crítico na formação da maneira como nossa mente consciente vivencia e responde ao mundo.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Norbert Elias e John L. Scotson


Os Estabelecidos e os Outsiders 
Posfácio à edição alemã 

As figurações estabelecidos e outsiders possuem regularidades e divergências recorrentes. [...] No fundo sempre se trata do fato de que um grupo exclui outro das chances de poder e status, conseguindo monopolizar essas chances. A exclusão pode variar em modo ou grau, pode ser total ou parcial, mais forte ou mais fraca. Também pode ser recíproca.

Trata-se da questão de por que a necessidade de se destacar dos outros homens, e com isso de descobrir neles algo que se possa olhar de cima para baixo, é tão difundida e enraizada que, entre diversas sociedades existentes na face da Terra, não se encontra praticamente nenhuma que não tenha encontrado um meio tradicional de usar uma outra sociedade como sociedade outsider, como uma espécie de bode expiatório de suas próprias faltas. É assim que os holandeses costumam ver os frísios e os ingleses costumam ver os holandeses - a série de exemplos não tem começo nem fim. Ressaltando a universalidade de relações desse tipo, chama-se atenção para um aspecto da estrutura da personalidade humana para a qual ainda não temos uma conceituação apropriada. Talvez possamos falar da necessidade humana, nunca serenada, de elevar a autoestima, de melhorar o valor da própria pessoa ou do próprio grupo. [...]

Numerosos exemplos ensinam que a insolubilidade de um problema tem mais a ver com a imprecisão do modo de colocá-lo do que com a impossibilidade real de achar uma solução. [...] Através de uma pesquisa sobre perda e ganho de valor nas relações estabelecidos-outsiders nos aproximamos de fato da essência do problema.

Mas por que a necessidade de relações estabelecidos-outsiders, portanto de elevar o próprio grupo e diminuir os outros grupos, é tão difundida que quase não podemos imaginar uma sociedade humana que não tenha desenvolvido, em relação a certos grupos, uma técnica de estigmatização? No fim das contas, essas técnicas parecem ter a ver com o sentido da própria sobrevivência. Os grupos humanos vivem na maioria das vezes com medo uns dos outros, e frequentemente sem conseguirem articular ou esclarecer as razões do seu medo. Eles se observam mutuamente, enquanto se tornam mais fracos ou mais fortes. Sempre que possível, tentam evitar que um grupo vizinho alcance um potencial maior do que o próprio. Sejam quais forem as formas assumidas por essas rivalidades, elas não são subprodutos ocasionais, mas traços estruturais das figurações em que se encontram envolvidos. Tais figurações indicam, em meio a grande variação, determinados aspectos em comum. Um deles é o perigo em potencial que os grupos representam para os outros, e com isso o temor que têm uns dos outros. Nessa situação, a promoção de autoestima coletiva fortalece a integração de um grupo, melhorando suas chances de sobrevivência.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Robert L. Leahy


Livre de Ansiedade
Robert L. Leahy

7 – Transtorno de ansiedade generalizada

Muitos de nossos medos mais profundos são respostas evolutivas a tais perigos. Mas havia outros tipos de perigo - de maior alcance, voltados ao futuro: a escassez de alimentos em certas estações; a possibilidade de ataques de animais, não no momento, mas a horas ou dias de "distância". À medida que a humanidade evoluiu, detectar e responder a esses tipos de perigo se tornou cada vez mais importante. Foi útil estudar os padrões do movimento dos animais, tanto para nos protegermos dos predadores quanto para garantir um estoque de caça. Foi importante saber que tipo de clima esperar em determinadas estações, a fim de colher e plantar de maneira eficiente. Armazenar combustível ou alimentos, construir abrigos, fazer ferramentas ou roupas para uso futuro - tudo isso exigiu planejamento, o que, por sua vez, implicava pensar sobre o futuro - tudo isso exigiu planejamento, o que, por sua vez, implicava pensar sobre o futuro. E é isso exatamente o que as pessoas com Transtorno de ansiedade generalizada tendem a fazer em excesso. Estão sempre pensando à frente, tentando antever o que pode dar errado, o que pode ser ameaça. Esse instinto indubitavelmente manteve muitos de nossos ancestrais vivos e capacitou a raça humana à sobrevivência.

Se não fosse a capacidade de se preocupar, seria improvável que nossos ancestrais primitivos fossem capazes de cultivar a terra. Imagine se você tivesse que plantar e não planejar o futuro, não ter sementes, não arar a terra, não irrigar a terra quando possível. Ou imagine se seus ancestrais nunca guardassem nada, se tivessem de viver apenas com o estritamente necessário. É a capacidade de se preocupar - de planejar, de pensar à frente e de tomar decisões antes de algo terrível acontecer - que permitiu que nossos a nossos ancestrais avançar. A civilização se construiu, parcialmente, a partir dessa capacidade. É por isso que geralmente penso nas pessoas conscienciosas.

Nesse contexto, é claro, a preocupação tem muito sentido. A pessoa que se preocupa, mesmo que de maneira ineficaz, está simplesmente tentando antever e evitar o perigo. Mas, nesses caso, o perigo não está caindo de uma árvore ou surgindo na figura de um crocodilo faminto. Trata-se mais do futuro: como você vai enfrentar a fome? Quais são as consequências sociais de cometer um erro? O que você precisará ter com você se for migrar? Todas as habilidades e competências têm a ver com ser capaz de usar a imaginação. Para certos tipos de pessoas, imaginar um problema indica que de fato há um problema que precisa ser enfrentado. Preocupar-se é simplesmente se preparar para o prior; é a única maneira de evitar todas as coisas terríveis que poderiam acontecer. Preocupar-se era uma estratégia para evitar a catástrofe.

É claro que sabemos que em nossas vidas hoje esse estado de espírito não é em geral eficaz, mas sim paralisante. Isso ocorre porque essa é uma maneira fraca e irreal de lidar com o gerenciamento do risco. Preocupar-se, afinal de contas, é algo que realmente diz respeito ao risco - é uma ferramenta para detectá-lo e administrá-lo. Todavia, sua capacidade de avaliar riscos de maneira acurada está prejudicada, seus instintos de precaução não terão muita utilidade. Você superestimará alguns riscos, e provavelmente não perceberá outros. Se você tratar todos os riscos igualmente, provavelmente acabará se trancando no porão usando um traje de borracha para se proteger da radiação. Ou, em caso menos extremo - preocupando-se todo o tempo a respeito de tudo. Você terá uma sobrecarga de riscos e será incapaz de lidar com qualquer coisa de maneira eficaz.

Da perspectiva da psicologia evolutiva, então, uma mente que se preocupa tem sentido; mesmo que o contexto tenha mudado significativamente desde a época dos caçadores-coletores. Mas, porque algumas pessoas têm maior dificuldade em avaliar riscos de maneira precisa? Não sabemos todas as respostas. Porém, sabemos que há uma certa predisposição genética ao transtorno - de acordo com um estudo, um número equivalente a 38% de casos. Isso não quer dizer que você está condenado a ser uma pessoa preocupada de maneira crônica. Há sempre maneiras de alterar sua perspectiva de modo que sua preocupação não exerça controle sobre sua vida. Mas se você tem uma tendência já arraigada a se preocupar - especialmente se você sempre foi mais ou menos assim - as chances são as de que você nasceu com uma certa predisposição. É bom reconhecer isso, porque, quanto mais claramente você enxergar isso, mais capaz será de lidar com o problema.

Há outros fatores também, sendo o histórico familiar um dos principais. Se seus pais se divorciaram quando você era jovem, sua chance de desenvolver TAG é aproximadamente 70% maior. Isso provavelmente ajuda a explicar por que muitas pessoas que se preocupam tendem a ter obsessões com a possibilidade de um relacionamento acabar, de perder a casa, de insegurança financeira. Se seus pais eram "superprotetores", você terá maior probabilidade de desenvolver o TAG. [...] Acontecimentos recentes podem também agravar a tendência para o TAG. Rompimentos ou problemas de grande monta (divórcios, doenças repentinas, um rompimento com o parceiro) podem desencadear estes sintomas: insônia, tensão, irritabilidade e problemas estomacais, mesmo nas pessoas com históricos anteriores de ansiedade.


Na maior parte dos casos de TAG, possivelmente há uma combinação desses fatores. Você pode ter herdado uma tendência à preocupação, mas também tem tido experiências que a exacerbam. Pode ter tido pais que foram superprotetores ou que projetavam suas preocupações na família. Pode ter experimentado um ou vários traumas quando criança, o que pode ter aumentado suas sensações de insegurança. À medida que você amadureceu e assumiu maiores responsabilidades, pode ter percebido que a conscientização acerca das coisas passou a ser preocupação intensa; uma sensação de responsabilidade levada a extremos. É interessante que cerca de metade das pessoas que se preocupa de maneira crônica começa a ter esse perfil durante a infância ou a adolescência, ao passo que a outra metade começa a se preocupar na idade adulta.



quinta-feira, 29 de março de 2018

Franz Kafka


O escudo da cidade


    No início da construção da torre de Babel tudo estava razoavelmente em ordem, sim, talvez a ordem fosse até grande demais, pensava-se muito em tabuletas com direções, intérpretes, alojamento para os trabalhadores e caminhos de ligação, como se estivessem ainda por vir séculos e séculos para trabalhar à vontade. De acordo com a opinião então reinante, nem sequer se podia trabalhar suficientemente devagar; não era preciso exagerar muito esta opinião para que logo surgisse também o medo de lançar as fundações. A argumentação era a seguinte: o essencial em toda esta empresa é a ideia de construir uma torre que chegue ao céu. Comparado com esta ideia, tudo o mais é irrelevante. É uma ideia que, uma vez apreendida na sua grandeza, já não pode desaparecer; enquanto viverem homens, viverá também o forte desejo de construir a torre até ao fim. Nesta perspectiva, assim, não há que ter preocupações pelo futuro, pelo contrário, o conhecimento é cada vez maior, a arte da construção fez progressos e continuará a progredir, um trabalho que agora leva um ano, daqui a um século será talvez concluído em seis meses, e além disso com maior qualidade e solidez. Assim sendo, porquê chegar já hoje ao limite das forças? Apenas teria sentido caso se pudesse esperar concluir a torre no tempo de uma geração. Mas isso é impossível. Mais fácil seria pensar que a geração seguinte, com um conhecimento mais aperfeiçoado, achasse mau o trabalho da anterior e deitasse abaixo a construção para começar tudo de novo. Pensamentos como estes paralisavam as forças e, mais do que com a construção da torre, a preocupação passou a ser com a construção de uma cidade para os trabalhadores. Cada contingente nacional queria ter o bairro mais bonito, daqui resultavam escaramuças que logo passavam a lutas sangrentas. Estas lutas não tinham fim; os líderes tinham assim um novo argumento para que a torre, faltando a concentração necessária, fosse construída muito lentamente ou de preferência só depois de acordadas as tréguas. Mas o tempo não era apenas passado em lutas, pelo meio também se alindava a cidade, o que apenas fazia nascer novas invejas e novas lutas. Assim passou o tempo da primeira geração, mas nenhuma das seguintes foi diferente, só a perícia era cada vez maior e com ela a vontade de lutar. 
    Foi assim que logo na segunda ou terceira geração se reconheceu o absurdo de construir uma torre que chegasse até o céu, mas nessa altura todos se sentiam demasiado unidos entre si para abandonarem a cidade. Todas as lendas e canções que nasceram na cidade estão cheias de nostalgia pelo dia profetizado em que a cidade será esmagada por um punho gigante com cinco golpes secos um a seguir ao outro. É por esta razão que a cidade tem também o punho no seu escudo. 


Contos - Franz Kafka - Relógio D'água

segunda-feira, 12 de março de 2018

Tony Judt


O mal ronda a Terra
Um tratado sobre as insatisfações do presente

Refazendo o debate público

Muitos críticos da condição atual começam pelas instituições. Avaliam parlamentos, senados, presidências, eleições, lobbies, apontando a maneira como decaíram ou abusaram da confiança e autoridade neles depositadas. Qualquer reforma, concluem, deve começar por aqui. Precisamos de novas leis, regimes eleitorais diferentes, restrições aos lobbies e financiamento dos políticos; precisamos dar mais (ou menos) autoridade ao poder executivo, e encontrar modos de tornar funcionários eleitos ou não mais responsáveis e transparentes para com seus empregadores: nós. 

Tudo isso é verdade. Mas essas mudanças estão no ar há décadas. Já deveria estar claro agora que a razão para não terem ocorrido, ou não funcionarem, é que elas foram imaginadas, propostas e implementadas pelas próprias pessoas responsáveis pelos dilemas. Não adianta muito pedir ao Senado dos Estados Unidos que altere a atuação dos lobbies: como Upton Sinclair afirmou na famosa frase, faz um século, “É difícil fazer com que um homem entenda algo quando seu salário depende de que ele não entender aquilo”. Por razões similares, os parlamentos da maioria dos países europeus – agora vistos com sentimentos que vão do tédio ao desprezo – estão mal posicionados para encontrar nas próprias instituições os meios que os tornarão novamente relevantes. 

Precisamos começar por outro lugar. Por que, nas últimas três décadas, tem sido tão fácil aos detentores do poder convencer os eleitores do bom-senso – ou da necessidade – das políticas que desejam implantar? Porque não existe alternativa coerente disponível? Mesmo quando ocorrem diferenças entre os grandes partidos políticos, elas são apresentadas como versões de um único objetivo. Tornou-se lugar-comum afirmar que todos queremos a mesma coisa, apenas propomos maneiras um pouco diferentes de atingir os objetivos. 

Mas isso é simplesmente falso. Os ricos não querem a mesma coisa que os pobres. Quem depende do trabalho para sustentar a família não quer a mesma coisa que quem vive de investimentos e dividendos. Quem não precisa dos serviços públicos – pois pode adquirir transporte, educação e segurança privadas – não busca o mesmo que as pessoas que dependem exclusivamente do setor público. Quem se beneficia com a guerra – sejam fornecedores do sistema de defesa ou ideólogos – tem objetivos distintos de quem é contra a guerra.

As sociedades são complexas e vivem com interesses conflitantes. Afirmar o contrário – negar distinções de classe, riqueza ou influência – é só um jeito de privilegiar um conjunto de interesses em detrimento de outro. Essa proposição costumava ser evidente; hoje estimulam a descarta-la como encorajamento incendiário ao ódio entre classes. Na mesma linha, somos incentivados a procurar o interesse econômico acima de tudo. E, realmente, tem muita gente que só pensa em se dar bem. Contudo, os mercados exibem um disposição natural para favorecer necessidades e desejos que podem ser reduzidos a critérios comerciais ou avaliações econômicas. Se podemos comprar ou vender uma coisa, então ela é quantificável e podemos definir sua contribuição (quantitativa) aos indicadores do bem-estar coletivo. Mas e os bens que os seres humanos sempre valorizaram, mas que não se prestam à quantificação?

Como fica o bem-estar? E a justiça ou equidade (no sentido original)? E a exclusão, a oportunidade – ou ausência – ou a esperança perdida? Essas considerações significam muito mais para as pessoas do que o lucro ou crescimento individual e coletivo. Vamos pegar a humilhação: e se a tratássemos como um custo econômico, um ônus para a sociedade? E se decidirmos “quantificar” o dano causado quando as pessoas são humilhadas por seus concidadãos, como condição para ter acesso às necessidades básicas da vida? 

Em outras palavras, e se incluirmos em nossas estimativas de produtividade, eficiência e bem-estar a diferença entre esmola humilhante e um benefício de direito? Vamos fazer concluir que a provisão de serviços sociais universais, seguro de saúde abrangente ou transporte público subsidiado são na verdade meios eficazes para atingir nossos objetivos comuns. Admito prontamente que um exercício desses seja litigioso desde a origem: como quantificar a “humilhação”? Qual o custo mensurável de negar aos cidadãos isolados o acesso aos recursos metropolitanos? Quando estamos dispostos a pagar por uma sociedade decente? 

Até o conceito de “riqueza” exige redefinição. Afirma-se com muita convicção que a taxação progressiva da renda e a redistribuição econômica destroem a riqueza. Tais políticas indubitavelmente tiram recursos de uns para entregar a outros. – embora o modo como se corta o bolo guarde pouca relação com o seu tamanho. Se a redistribuição da riqueza material tiver como efeito de longo prazo a melhoria da saúde de um país, reduzindo as tensões sociais resultantes da inveja, equalizando o acesso de todos os serviços antes destinados a uns poucos, isso não quer dizer que o país melhorou? 

Como o leitor pode observar, uso palavras como “riqueza” e “melhorar” de uma forma que vai bem além de sua concepção atual, estritamente material. Fazer isso em escala mais ampla – para reordenar nosso debate público – me parece o único caminho realista para iniciar o processo de mudança. Se não houver mudança no jeito de falar, não conseguiremos mudar o modo de pensar. 

Existe precedentes para esta maneira de conceber as mudanças políticas. No final do século XVIII, na França, quando o antigo regime cambaleava, os avanços mais significativos no cenário político não surgiram dos movimentos de protesto ou das instituições estatais que procuravam podá-los. Eles vieram da própria linguagem. Jornalistas e panfletários, junto com alguns administradores e padres rebeldes, criaram a partir da antiga linguagem da justiça e dos direitos populares uma nova retórica de ação pública. 

Incapazes de enfrentar a monarquia abertamente, eles se dedicaram a contestar sua legitimidade, imaginando e levantando objeções à situação existente, propondo fontes alternativas de autoridade nas quais “o povo” acreditaria. De fato, eles inventaram a política moderna, e ao fazer isso literalmente desacreditaram o que ocorria antes. Quando a Revolução explodiu, a nova linguagem da política encontrara seu lugar: se não fosse assim os próprios revolucionários não teriam como descrever o que estavam fazendo. No início foi o verbo. 

Hoje somos encorajados a acreditar na ideia de que a política reflete nossas opiniões e nos ajuda a dar forma a um espaço público compartilhado. Os políticos falam, nós respondemos – com votos. Mas a verdade é bem diferente. A maior parte das pessoas não sente que está participando de um diálogo significativo. Alguém lhes diz o que pensar e como pensar. Fazem com que se sintam despreparadas na hora de discutir detalhes; quanto aos objetivos gerais, são levadas a acreditar que eles já foram determinados há muito tempo. 

Os efeitos perniciosos da supressão do debate genuíno nos cercam. Nos EUA da atualidade, as reuniões nas prefeituras e “tea parties” parodiam e imitam os eventos originais do século XVIII. Em vez de abrirem debates, eles os fecham. Demagogos dizem à multidão o que pensar; quando suas frases são repetidas, como um eco, eles proclamam descaradamente que estão apenas transmitindo o sentimento popular. Na Grã-Bretanha arranjaram um jeito extremamente eficaz de usar a televisão como válvula de escape para o descontentamento popular: os políticos profissionais agora alegam ouvir a vox populi na forma de votações ao vivo e pesquisas de popularidade sobre tudo, da política de imigração à pedofilia. Repassando ao público seus próprios medos e preconceitos, eles se livram do ônus da liderança ou da iniciativa. 

Enquanto isso, do outro lado do Canal, na França republicana e na Holanda tolerante, debates superficiais sobre a identidade nacional e critérios de cidadania substituem a coragem política requerida para confrontar o preconceito popular e os desafios da integração. Também nesse caso temos a impressão de que ocorre uma “conversa.” Mas os termos de referência são cuidadosamente predeterminados; seu propósito não é estimular a expressão de pontos de vista distintos, mas suprimi-los. Em vez de facilitar a participação popular e diminuir a alienação cívica, essas “conversas” apenas contribuem para a antipatia disseminada pelos políticos e pela política. Na democracia moderna é possível enganar a maioria das pessoas durante a maior parte do tempo: mas isso tem um custo. 

Necessitamos reabrir um tipo diferente de diálogo. Precisamos recuperar a confiança em nossos instintos: se um político ou ação parecem condenáveis, devemos procurar palavras para expressar isso. De acordo com as políticas de opinião, a maioria das pessoas na Inglaterra vive apreensiva com a privatização apressada de serviços públicos tradicionais: água e energia, metrô, serviço local de ônibus e hospitais regionais, para não mencionar asilos de idosos, serviços de enfermagem a domicílio e similares. Mas quando lhes dizem que o propósito das privatizações é economizar dinheiro público e aumentar a eficiência, todos se calam: quem poderia discordar?

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Antônio Damásio



E o cérebro criou o homem

Os organismos unicelulares dotados de núcleo têm uma vontade de viver e gerir a vida pelo tempo que certos genes lhes permitirem, e essa vontade é suficientemente adequada, mesmo sem a participação de uma mente e de uma consciência. Os cérebros expandiram as possibilidades de gestão da vida mesmo quando não produziam mentes, muito menos mentes conscientes.  Por essa razão, também prevaleceram. Quando a mente e a consciência foram adicionadas à mistura, as possibilidades de regulação aumentaram ainda mais e abriram caminho para o tipo de gestão que ocorre não apenas em um organismo, mas em muitos deles, em sociedades. A consciência capacitou os humanos a repetir o leitmotiv da regulação da vida por meio de um conjunto de instrumentos culturais - troca econômica, crenças religiosas, convenções sociais e regras éticas, leis, artes, ciência, tecnologia. Ainda assim, a intenção de sobreviver da célula eucariótica e a intenção de sobreviver implícita na consciência humana são idênticas. 

Por trás do imperfeito mas admirável edifício que a cultura e a civilização construíram para nós, a regulação da vida continua a ser nossa principal preocupação. Igualmente importante é o fato de que a motivação da maioria das realizações nas culturas e nas civilizações humanas vincula-se justamente a essa preocupação e à necessidade de administrar o comportamento das pessoas enquanto se dedicam a ela. A regulação da vida está na raiz de muita coisa que precisa ser explicada na biologia em geral e na humanidade em particular: a existência do cérebro, a existência da dor, prazer, emoções e sentimentos, os comportamentos sociais, as religiões, as economias, e seus mercados e instituições financeiras, os comportamentos morais, as leis, a justiça, política, arte, tecnologia e ciência - uma lista bem modesta, como o leitor pode ver. 

A vida, e suas condições essenciais - o imperativo de sobreviver e a complicada tarefa de administrar a sobrevivência em um organismo, tenha ele uma célula ou trilhões delas - foram a causa fundamental do surgimento e da evolução do cérebro, o mais elaborado maquinário gestor já montado pela evolução, e também a causa fundamental de tudo que decorreu do desenvolvimento de cérebros cada vez mais elaborados, no interior de corpos progressivamente mais complexos, vivendo em ambientes cada vez mais intricados. 

Quando examinamos a maioria dos aspectos da função cerebral através do filtro dessa ideia, isto é, de que o cérebro existe para gerir a vida de dentro do corpo, as singularidades e os mistérios de algumas das categorias fundamentais da psicologia - emoção, percepção, memória, linguagem, inteligência e consciência - tornam-se menos singulares e muito menos misteriosos. De fato, adquirem uma racionalidade transparente, uma lógica inevitável e cativante. Como poderíamos ser diferentes, parecem perguntar essas funções, diante do trabalho que precisa ser feito?  

sábado, 10 de junho de 2017

Rainer Maria Rilke



Sobre o amor

Nunca entendi como o amor genuíno, elementar, totalmente verdadeiro pode  permanecer não compreendido, pois ele não é outra coisa a não ser o apelo urgente e venturoso ao outro para que seja belo, abundante, grande, intenso, inesquecível: nada senão o transbordante compromisso de que o outro se torne alguma coisa. E, diga-me, que pessoa poderia recusar tal apelo, quando é dirigido a ela, quando a escolhe e a encontra entre milhões de seres onde talvez estivesse oculta num destino ou inabordável no meio da fama...Ninguém pode segurar, agarrar e conter em si tal amor: ele é tão completamente destinado a ser passado adiante para além do indivíduo e necessita do amado apenas para que este lhe dê o impulso mais extremo que o lançará em sua nova órbita entre as estrelas.  

Antônio Damásio


Por que precisamos da consciência

Se em sua opinião a relação ente vida e consciência é surpreendente, considere o seguinte: a sobrevivência depende de encontrar e incorporar fontes de energia e de prevenir todos os tipos de situações que ameaçam a integridade dos tecidos viveríamos. Por certo é verdade que, sem ações, organismos como o nosso não sobreviveriam, pois as fontes de energia necessárias para renovar a estrutura do organismo e manter a vida não  encontradas e postas a serviço do organismo, e muito menos seriam evitados os perigos do ambiente. Mas, por conta própria, sem a orientação das imagens, as ações não nos levariam muito longe. Ações eficazes requerem a companhia de imagens eficazes. As imagens permitem-nos escolher entre repertórios de padrões de ação previamente disponíveis e otimizar a execução da ação escolhida – podemos, de modo mais ou menos deliberado, passar em revista mentalmente as imagens que representam diferentes opções envolvidas numa ação, diferentes cenários, diferentes resultados da ação. Podemos selecionar a mais apropriada e rejeitar as inconvenientes. As imagens também nos permitem inventar novas ações a serem aplicadas a situações inéditas e fazer planos para ações futuras – a capacidade de transformar e combinar imagens de ações e cenários é a fonte da criatividade.

Se as ações estão no cerne da sobrevivência e seu poder vincula-se à disponibilidade de imagens orientadoras, então um mecanismo capaz de maximizar a manipulação eficaz de imagens a serviço dos interesses de um organismo específico conferiria um enorme vantagem aos organismos que o possuíssem, e esse mecanismo provavelmente teria prevalecido na evolução. A consciência é precisamente esse mecanismo.

Esconde-esconde

A consciência começa quando os cérebros adquirem o poder – o poder simples, devo acrescentar – de contar uma história sem palavras, a história de que existe vida pulsando incessantemente em seu organismo, e que os estados do organismo vivo, dentro das fronteiras do corpo, estão continuamente sendo alterados por encontro com objetos ou eventos em seu meio ou também por pensamentos e ajustes internos do processo da vida. A consciência emerge quando essa história primordial – a história de um objeto alterando de forma causal o estado do corpo – pode ser contada usando um vocabulário não verbal universal dos sinais corporais. O self manifesto emerge como o sentimento de um sentimento. Quando a história é contada pela primeira vez, espontaneamente, sem nunca ter sido demandada, e depois disso sempre que ela é repetida, o conhecimento do que o organismo está vivenciando emerge automaticamente como a resposta a uma pergunta nunca formulada. Desse momento em diante começamos a conhecer.
Imagino que a consciência possa ter prevalecido na evolução porque conhecer os sentimentos causados pelas emoções era absolutamente indispensável para a arte de viver, e porque a arte de viver foi um tremendo sucesso na história da natureza. Mas não me incomodarei se você preferir deturpar minhas palavras e disser apenas que a consciência foi inventada para que pudéssemos tomar conhecimento da vida. Obviamente, do ponto de vista científico o fraseado não está correto, mas eu gosto dele.