quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Eduardo Coutinho




O fim e o princípio - Chico Moisés

Coutinho: - Chico! – Estou aqui. – Ohhh! – Apareceu alguma coisa mais de estranha? – Por quê? Viemos despedir. – Já vai? – Domingo. E... Daí pode ser que a gente não se veja. Gostei muito da conversa. – Ah! E eu tenho prazer. E tão filmando? [ri] – Como é que é? – E tão me filmando? – Porque gostamos da sua conversa. – Gostaram? – É! Se não, não voltava. – E todo tempo se vo... se achou que gostou, adonde tivé, pode me chamar que eu tou pronto também, para dizer a mesma coisa. – Que bom! Daqui um ano, quando o filme tiver pronto... – Daqui um ano? - ... a gente volta. – Ahhh! – Quê? – Eu não garanto que eu tô vivo. – Por quê? – Porque não. – Por quê? – Por eu! Porque sinto! – Pela saúde? – É! – Tem que ter fé e se tratar. – Fé?!! Fé?!! Se fosse por fé, eu já tava no caminho do céu. [silêncio] Agora desse lado é mió, né? – por que que cê diz isso? – Não. Por causa da mudança. Olha aí! Olha aí!! [ri, gargalha] – O senhor preparou uma mudança, hein? – Ah, sim!!! – O senhor podia ser ator de cinema. – Não! – O senhor mesmo que fez a mudança. Nunca vi... – Mas mesmo que eu fosse, se eu nunca trabalhei, se eu nunca fiz isso, pra que? Ora! O senhor que tá dizendo. – O senhor que mudou... que fez a mudança! – Não! Fiz a mudança por que? – Por que? – Porque eu tô cansado, sabe? – E fazer essa mudança descansa? – É... Ou fica bonito, ou feio. [ri] – Tem um perfil, agora têm outro, não é isso? – Isso! [rindo] – Um dos dois vai segurar... – Mas rapaz, será possível que você peleja para me pegar e nunca pega? E sempre eu vou continuando... sempre, na mesma linha? – Por que será? – Eu sei! Que o sabido é o senhor! – Por quê? – Porque é! [pausa] – Por quê? – Ora! Se eu fosse sabido, eu que andava... filmando e procurando as pessoas. [Coutinho ri] Errei? – Não. Mas eu vim procurar o senhor porque o senhor é sabido também... – Eu sei. Acha que eu sou sabido? – Acho. – Como? Só porque eu tô sendo filmado assim? Porque... esses homens... é o jeito. – Não. Mesmo sem filmar, se eu conversasse com o senhor, eu via que o senhor tem umas ideias interessantes, que o senhor pensava... – Que pena! Né? E o que sei e não disse? Só fiz começar. [pausa] Cê já entendeu tudo. – Entendi? – Entendeu. Quem foi o primeiro que chegou aqui? Não foi o senhor? Então? [silêncio. Chico sorri, gargalha] Mas é bom falar com a pessoa sabida! Ele fica só... só ali... e fosse... Se fosse não, é mais que investigador, locutor, sabedoria científica, o senhor é. Mas tudo é sabedoria o que tem aqui. Tudo é sabedoria! – Tudo. – E tudo inteligente. Aí pegou esse matuto véi aqui, conversando esse tipo de coisa... Não sei se eu sei. Penso que sei. Será que sei? – Boa pergunta. – É... – Certeza não tem mais... – Não. A certeza é a que eu disse: Ver com os olhos e pegar com a mão. E aqui eu tô vendo. Só não pego com a mão porque não quero tocar. Mas eu tô vendo. – Pode tocar. [ri] – Mas tu... não é Deus! [ gargalha] 

https://www.youtube.com/watch?v=dIAV_yLz_sI

Um comentário:

  1. demais! sabido, existencial e ressentido. que nem o próprio coutinho...

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