quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sándor Márai



As Brasas

Compreendi tudo. Que quer que lhe diga?... A gente vai envelhecendo aos poucos: numa primeira fase, atenua-se a vontade de viver e de ver nossos semelhantes. Vai prevalecendo o sentido da realidade, vai se esclarecendo o significado das coisas, você acha que os acontecimentos se repetem monótona e fastidiosamente. Isso também é um sinal de velhice. Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais. Depois, seu corpo envelhece; não todo de uma vez, é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração. A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia, você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a seus olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos. Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probabilidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem, nem para o mal... e esta é a verdadeira velhice. E no entanto, alguma coisa ainda vive em seu coração, uma lembrança, uma vaga e nebulosa esperança, há alguém que gostaria de ver, há algo ainda que gostaria de dizer ou saber. Um dia, você tem absoluta certeza, chegará esse momento, e então, de repente, saber e enfrentar a verdade já não lhe parecerá tremendamente importante como imaginara durante os anos de espera. O homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre. Descobre as causas ocultas dos fenômenos e das ações humanas. A linguagem simbólica do inconsciente... pois os homens recorrem a uma linguagem simbólica para comunicar seus pensamentos, você nunca percebeu? Quando falam das coisas essenciais parece que usam uma língua estrangeira, que falam como os chineses, e é preciso traduzir essa língua para trazê-la ao plano da realidade. Os homens não sabem nada sobre si mesmos. Falam sempre de seus desejos e camuflam osbtinadamente seus pensamentos mais secretos. Se você aprender a reconhecer as mentiras dos homens, notará que dizem sempre coisas diferentes do que pensam e querem realmente. E então a vida se torna quase divertida. Depois, um dia, você consegue entender a verdade: isso quer dizer que a velhice e a morte chegaram. Mas nessas alturas já não sente dor.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

Honoré de Balzac




Eugênia Grandet

Não há graciosas semelhanças entre o começo do amor e o da vida? Não é com doces cantigas e com ternos olhares que se nina a criança? Não se lhe contam maravilhosas histórias que douram seu futuro? A esperança não lhe abre incessantemente suas asas radiosas? E ela não derrama alternadamente lágrimas de alegria e dor? Não briga a criança por um nada, por umas pedras com as quais tenta construir um palácio móvel, por um ramalhete logo esquecido, apenas cortado? Não possui ela a avidez de tomar conta do tempo, de avançar na vida? O amor é a nossa segunda transformação. A infância e o amor foram a mesma coisa entre Eugênia e Carlos: foi a paixão primeira com todas as suas puerilidades, tanto mais cariciosas para os seus corações quanto estes se achavam envoltos em melancolia.

Debatendo-se, logo ao nascer, entre os crepes do luto, esse amor, por isso mesmo, se harmonizava melhor com a rusticidade provinciana daquela casa em ruína. Trocando algumas palavras com a prima à beira do poço, naquele pátio mudo; deixando-se estar naquele jardinzinho sentado com ela num banco coberto de musgo, até a hora do pôr do sol, ocupados em dizerem grandes nadas, ou recolhidos os dois na calma que reinava entre a muralha e a casa, como sob as arcadas de uma igreja, Carlos compreendeu a santidade do amor.

[…]

Pela manhã, deixava-se estar, pensativa, em baixo da nogueira, sentada no banco de madeira roído pelo carucho e coberto de musgo cinzento, onde eles se haviam dito tantas coisas boas, tantos pequenos nadas, onde tinham construído os castelos de vento de seu formoso lar. Ela pensava no futuro, olhando para o céu pelo pequeno espaço que os muros lhes permitiam abranger; depois para o velho pano de muralha e o teto debaixo do qual ficava o quarto de Carlos. Enfim, foi o amor solitário, o amor verdadeiro, que persiste, que se esgueira em todos os pensamentos e torna-se substância, ou, como diriam nossos pais, o estôfo da vida.

William Butler Yeats




When You are Old

When you are old and grey and full of sleep,
and nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
and loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sarrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
and paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

sábado, 22 de maio de 2010

Anton Tchékhov



Cartas


     Lembre-se de que os escritores ditos imortais ou simplesmente bons e que nos deixam inebriados têm em comum um traço muito importante: para onde quer que se dirijam, eles o convidam a acompanhá-los e você sente não com a razão, mas com todo o seu ser, que possuem algum objetivo, como a sombra do pai de Hamlet, a qual aparecia não por acaso e perturbava a imaginação. Alguns, dependendo do próprio calibre, perseguem objetivos mais imediatos: a servidão, a libertação da pátria, a política, a beleza ou simplesmente a vodca, como  é o caso de Danis Davýdov; outros tem objetivos remotos: Deus, a vida depois da morte, o bem da humanidade etc. Os melhores dentre eles são realistas e retratam a vida como ela é, mas, pelo fato de cada linha estar impregnada, como se fora de um suco, da consciência do objetivo, você, além da vida como é, também sente como ela deveria ser, e é isso que o cativa.
   E nós? Nós! Nós representamos a vida como ela é, e ponto final... Além disso não vamos nem a chicotada. Não temos objetivos imediatos nem remotos, e em nossa alma não há nada de nada. Não temos concepção política, não acreditamos na revolução, não temos um Deus, não temos medo de assombração, e, quanto a mim, nem mesmo a morte e a cegueira eu temo. Quem nada quer, nada espera e nada teme não pode ser artista. Seja isso doença ou não, pouco importa, mas deve-se reconhecer que a nossa situação não é das melhores. Não sei o que será de nós daqui a dez, vinte anos; talvez, até lá as circunstâncias tenham mudado, mas por enquanto seria leviandade esperar de nós algo que realmente preste, pouco importando se temos talento ou não. Escrevemos feito máquinas, submetendo-nos à ordem de há muito estabelecida, segundo a qual uns são funcionários, outros comerciantes, outros ainda são escritores... Você e Grigoróvitch acham que sou inteligente. Sim, sou inteligente pelo menos a ponto de não ocultar de mim mesmo a minha doença e de não mentir a mim mesmo e esconder o meu vazio com os farrapos alheios.
   A Aleksei Suvórin


     Não sou nem liberal, nem conservador, nem progressista, nem monge, nem indiferencista. Queria ser um artista livre, mais nada, e lamento Deus não ter me dado forças pra isso. Detesto a mentira e a violência sob todos os aspectos [...] O farisaísmo, a estupidez e a arbitrariedade reinam não só nas casas dos comerciante e nas cadeias; eu os vejo na ciência, na literatura, entre os jovens... Por isso, não nutro uma predileção especial nem pelos gendarmes, nem pelos açougueiros, nem pelos cientistas, nem pelos escritores, nem pelos jovens. Considero preconceito marcas e rótulos. Meu santuário é o corpo humano, a saúde a inteligência e o talento, a inspiração, o amor e a liberdade absoluta, a insubordinação à violência e à mentira, onde quer que essas duas últimas se manifestem. Aí está o programa que eu seguiria, se fosse um grande artista.
A Aleksei Plechetchéiev

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ian McEwan




Na Praia

Quando pensava nela, parecia-lhe surpreendente que tivesse deixado aquela garota com seu violino ir embora. Agora é claro, via que a proposta recatada que ela lhe fizera era totalmente irrelevante. Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele, e da sua garantia de que não havia pressa, pois tinham a vida pela frente. Amor e paciência - se ao menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo - certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades. E que dizer das crianças que poderiam ter tido, e da menininha com um arco no cabelo que poderia ter se tornado sua filha querida? É assim que todo o curso de uma longa vida pode ser desviado - por não se fazer nada. Na praia de Chesil, ele poderia ter gritado o nome de Florence, poderia ter ido atrás dela. Ele não sabia, ou teria querido não saber, que, enquanto ela fugia, certa na sua dor de que o estava perdendo, nunca o amara tanto, ou mais desesperadamente, e que o som da voz dele teria sido seu resgate, e que ela teria voltado atrás. Em vez disso, ele permaneceu num silêncio frio e honrado, na penumbra do verão, a observá-la em sua precipitação ao longo da orla, o som do seu avanço difícil perdendo-se entre o das pequenas ondas a quebrar na praia, até ela ser apenas um ponto borrado, desaparecendo na estrada estreita e infinita de seixos brilhando sobre a luz pálida.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Czeslaw Milosz



Conversation with Jeanne 


Let us not talk philosophy, drop it, Jeanne.
So many words, so much paper, who can stand it.
I told you the truth about my distancing myself.
I've stopped worrying about my misshapen life.
It was no better and no worse than the usual human tragedies.
For over thirty years we have been waging our dispute
As we do now, on the island under the skies of the tropics.
We flee a downpour, in an instant the bright sun again,
And I grow dumb, dazzled by the emerald essence of the leaves.
We submerge in foam at the line of the surf,
We swim far, to where the horizon is a tangle of banana bush,
With little windmills of palms.
And I am under accusation: That I am not up to my oeuvre,
That I do not demand enough from myself,
As I could have learned from Karl Jaspers,
That my scorn for the opinions of this age grows slack.
I roll on a wave and look at white clouds.
You are right, Jeanne, I don't know how to care about the salvation of my soul.
Some are called, others manage as well as they can.
I accept it, what has befallen me is just.
I don't pretend to the dignity of a wise old age.
Untranslatable into words, I chose my home in what is now,
In things of this world, which exist and, for that reason, delight us:
Nakedness of women on the beach, coppery cones of their breasts,
Hibiscus, alamanda, a red lily, devouring
With my eyes, lips, tongue, the guava juice, the juice of la prune de Cythère,
Rum with ice and syrup, lianas-orchids
In a rain forest, where trees stand on the stilts of their roots.
Death, you say, mine and yours, closer and closer,
We suffered and this poor earth was not enough.
The purple-black earth of vegetable gardens
Will be here, either looked at or not.
The sea, as today, will breathe from its depths.
Growing small, I disappear in the immense, more and more free.


http://www.youtube.com/watch?v=IoNli84m1mQ&feature=related