sexta-feira, 22 de junho de 2018

Robert L. Leahy



O que a evolução pode ensinar sobre a ansiedade?

Por que somos tão ansiosos? Como os nossos medos irracionais se encaixam no quadro evolutivo? Por que não conseguimos nos desligar à noite e não dormimos bem? Por que nos preocupamos com coisas sobre as quais não podemos fazer nada a respeito, pensamos sobre erros passados, ficamos obcecados com o que as outras pessoas pensam de nós, estabelecemos padrões – para nós mesmos – que nos entristecem, criamos cenários futuros terríveis a partir do nada, paralisamo-nos por causa de nossos próprios medos de modo que não conseguimos pensar ou agir com eficácia? Por que nossas vidas pessoais são, com tanta frequência, uma bagunça, mesmo quando nossa eficiência, como espécie, nos dá um predomínio sem precedentes sobre a natureza? [...]

A ansiedade foi umas principais ferramentas para a sobrevivência. Foi simplesmente a maneira de a natureza instilar a prudência em nós. [...] Embora a linguagem tenha nos dado ferramentas, as emoções eram ainda a força motriz do comportamento humano. E a ansiedade foi uma das principais emoções. [...] Em geral, muitos dos transtornos de ansiedade que experimentamos hoje têm sua origem nos medos programados em nós por nossa história evolutiva. [...] A evolução, portanto, tende a favorecer a precaução: ela quer que sejamos supercuidadosos, constantemente alertas ao perigo. Ela nos ensina a não deixarmos de ser vigilantes só porque um perigo que imaginamos não veio a se concretizar.

Isso é fundamental para nossa compreensão da ansiedade. O que nós pensamos ser um “transtorno” de ansiedade – um peculiar desvio da norma – não é uma aberração mas simplesmente o resultado natural de nossa história evolutiva. A evolução “instalou”, para isso, um software em nosso cérebro, como um mecanismo de sobrevivência. O problema não está em nós, mas na vida que levamos – no fato de ela ter mudado muito drasticamente em relação à vida que levávamos na savana ou na floresta. Ironicamente, o problema é que nosso ambiente é mais seguro agora, e nossos medos são, então, desnecessários. Eles não nos protegem tanto quanto inibem nossa fruição da vida. É o medo certo no momento errado. O que era perigoso antigamente pode não ser hoje, ao passo que um comportamento antes inconsequente pode hoje ser seriamente prejudicial à nossa capacidade de funcionar em nossas vidas econômicas, sociais e pessoais. Os padrões que nos protegiam na vida selvagem não mais têm sentido no mercado de trabalho, em casa ou no bairro. O que se pede a nós é que modifiquemos nossos instintos primitivos de modo adequado à nossa realidade de hoje.

Isso é possível? Por meio do exame de algumas maneiras pelas quais a ansiedade limita e controla nossas vidas possamos chegar a uma melhor compreensão de como lidar com ela. Ao conquistarmos a consciência de como o medo opera em nossas vidas começamos a afrouxar a pressão sobre nós. Começamos a trabalhar com nosso medo de uma maneira produtiva, que tira vantagem de nossa capacidade de aprender, de nos adaptar a novas circunstâncias. [...] Há uma coerência subjacente ao processo pelo qual o medo se torna um fator preponderante. Da mesma maneira, há uma coerência subjacente ao processo pelo qual podemos neutralizar esse medo.

Nossas mentes são como filtros pelos quais vemos a realidade. Elas foram programadas por nossa história evolutiva e por nosso condicionamento de toda uma vida para enviar-nos mensagens constantes, não raro irracionais, sobre a natureza dessa realidade, e também instruções sobre como responder. Quando experimentamos a ansiedade, a mensagem é que nada é seguro. As instruções que acompanham a mensagem dizem que há algo fundamental que devemos fazer (ou não fazer) para ficarmos seguros. Mas, e se nada disso for verdadeiro? E se a mensagem for falsa e as instruções contraproducentes? Afinal de contas, a mensagem é simplesmente uma mensagem – não precisamos acreditar nela. Ao colocarmos em questão a mensagem do medo, ao questionarmos sua verdade, ao colocarmos tal mensagem à luz da experiência, enfraquecemos seu poder de controlar nossos pensamentos e nosso comportamento. Abrimo-nos, então, para verdadeiro potencial e para nossa verdadeira liberdade.     


Fotografia: James Natchwey

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Leonard Mlodinow



In-groups e out-groups

Todos os grupos ... desenvolvem uma forma de viver, como com códigos e convicções característicos.
Gordon Allport

Os seres humanos sempre viveram em bandos. Se uma competição num cabo de guerra gera hostilidade intertribal, imagine a rivalidade entre bandos de homens com bocas demais para alimentar e poucas carcaças de elefante para comer. Hoje pensamos na guerra como algo em parte baseado em ideologia, mas a necessidade de comida ou água é a mais forte ideologia. Bem antes de inventarem comunismo, democracia ou teorias de superioridade racial, grupos de pessoas que viviam perto lutavam com regularidade e até massacravam uns aos outros motivados pela competição por recursos. Nesse contexto, um sentido altamente desenvolvido de “nós contra eles” teria sido crucial para a sobrevivência.

Havia também um sentido de “nós contra eles” dentro bandos, pois os seres humanos pré-históricos formavam alianças e coalizões no interior de seus próprios grupos, como aconteceu com outras espécies de hominídeos. [...] Assim, se a capacidade de captar pistas que sinalizem alianças políticas é importante no trabalho contemporâneo, na pré-história isso era vital, pois a ser demitido era equivalente a ser morto.

Os cientistas chamam qualquer grupo de que as pessoas se sentem parte de um “in-group”, e qualquer grupo que as exclui de “out-group”. Diferentemente do uso coloquial, no sentido técnico, in-group e out-group se referem não à popularidade dos que pertencem a grupos, mas apenas à distinção “nós-eles”. É uma diferença importante, porque pensamos de forma diversa sobre membros de grupos de que somos parte e de grupos dos quais não participamos; também apresentamos comportamentos diferentes em relação a eles. Fazemos isso de forma automática, independentemente de estarmos ou não conscientes da intenção de discriminar. [...] O fato de nos posicionarmos em categorias in-group e out-group tem um efeito na maneira como vemos nosso próprio lugar no mundo e como encaramos os outros.

Todos pertencemos a muitos grupos. Por conseguinte, a maneira como nos identificamos muda de situação para situação. Em diferentes ocasiões, a mesma pessoa pode se ver como mulher, executiva, funcionária da Disney, brasileira ou mãe, dependendo do que for relevante – ou do que a fizer se sentir bem no momento. Alterar a afiliação do grupo que adotamos em dado momento é um truque que todos usamos, e ajuda a manter uma aparência simpática, pois os in-groups com que nos identificamos são um importante componente de nossa autoimagem.

[...] As pessoas estão dispostas a fazerem grandes sacrifícios financeiros para ajudar a estabelecer a sensação de pertencer a um in-group de que desejam participar. – Disposição de abrir mão de dinheiro em troca do prestígio de uma identidade grupal cobiçada. [...] Quando penamos em nós mesmos como pertencentes a um clube de campo exclusivo, ocupando um cargo executivo, ou inseridos numa classe de usuário de computadores, os pontos de vista de outros no grupo infiltram-se nos nossos pensamentos e dão cores à maneira como percebemos o mundo. Os psicólogos chamam essa visão de “normas grupais”.

Quando nos vemos como membro de um grupo, automaticamente todos ficam marcados com um “nós” ou um “eles”. Alguns de nossos in-groups, como nossa família, os colegas de trabalho ou os parceiros de bicicleta, incluem outras pessoas que conhecemos. Outros, como mulheres, hispânicos ou cidadãos idosos, são grupos mais amplos definidos pela sociedade, que a eles conferem características. Porém, seja qual for o grupo a que pertencermos, por definição ele consiste em pessoas que percebemos como tendo alguma coisa em comum conosco. Essa experiência partilhada, ou identidade, faz com que vejamos nossa fé como algo interligado com a fé do grupo, e os sucessos e fracassos como também nossos. É natural, então, que tenhamos um lugar especial em nossos corações para os membros do grupo a que pertencemos.

Podemos não gostar muito das pessoas de maneira geral, mas nosso ser subliminar tende a gostar mais dos companheiros de nosso in-group. [...] No que se refere a religião, raça, nacionalidade, uso de computadores ou à nossa unidade operacional de trabalho, em geral, temos uma tendência inata de preferir os membros do nosso in-group. Estudos mostram que pertencer a um grupo em comum pode até superar atributos pessoais negativos. Como enunciou um pesquisador: “Podemos gostar de pessoas como membros do grupo mesmo quando não gostamos delas como indivíduos”.

Esta constatação – de que gostamos mais de pessoas apenas por estamos associados a elas de alguma forma – tem um corolário natural: também tendemos a favorecer membros do nosso grupo nos relacionamentos sociais e nos negócios, e a avaliarmos o trabalho e os produtos deles de maneira mais favorável do que faríamos em outras circunstâncias, mesmo quando pensamos que estamos tratando todo mundo de forma igualitária.

Outra maneira com que somos afetados pelas diferenças entre in-groups e out-groups é que tendemos a pensar nos membros do nosso grupo como mais diversificados e complexos que os do out-group. [...] Pode parecer natural observar mais diversificação nos grupos a que pertencemos, pois, em geral conhecemos melhor seus integrantes como indivíduos. [...] A sensação que temos de que nosso grupo é mais diversificado que o out-group não depende de conhecer melhor nosso in-group. Na verdade, a categorização das pessoas em in-groups e out-groups já é suficiente para acionar esse julgamento

Aliás, nossos sentimentos especiais em relação ao grupo a que pertencemos persistem mesmo quando pesquisadores separam artificialmente estranhos em in-groups e out-groups aleatórios. Quando Marco Antônio se dirigiu à multidão depois do assassinato de César e declarou, na versão de Shakespeare, “Concidadãos, romanos, bons amigos, concedei-me atenção”, ele na verdade estava dizendo: “Membros in-group, membros in-group, membros in-group...” Um apelo inteligente.    

Fotografia: Werner Bischof



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Mariano Sigman




A  natureza do otimista

O otimista fará uma cesta sempre que arremessar a bola, ganhará todas as finais que disputar, nunca perderá o emprego e poderá fazer sexo sem proteção ou dirigir de maneira imprudente porque, afinal de contas, os riscos não lhe competem. O estranho é que o otimismo sobreviverá apesar da evidência em contrário que recebemos diariamente. O otimismo é nada mais nada menos do que essa obstinação.

Parte disso é obra do esquecimento seletivo que todos experimentamos. Cada segunda-feira, cada aniversário, cada 1 de janeiro se enchem de promessa as repetidas; cada amor é o amor de nossas vidas. [...] Cada uma dessas afirmações ignora completamente que já houve outras tantas segundas-feiras e outros tantos desenganos. Somos realmente tão cegos ante a evidência? Que mecanismos do cérebro encaram esse otimismo fundamentalista? E o que fazemos com o otimismo persistente, se entendermos que ele se cimenta em uma ilusão?

Um dos modelos mais comuns de aprendizagem humana é o erro de previsão. É simples e intuitivo. A primeira premissa, para cada ação que realizamos, desde a mais mundana à mais complexa, é que construímos um modelo interno, uma espécie de prelúdio simulado daquilo que vai suceder.

Esse erro de previsão expressa a diferença entre o que esperamos e o que observamos na realidade, e isso se codifica em um circuito neuronal nos gânglios basais que gera dopamina. A dopamina é um neurotransmissor que funciona, entre outras coisas, como mensageiro da surpresa, espalhando-se por diferentes estruturas cerebrais. O sinal dopaminérgico reconhece a dissonância entre o previsto e o encontrado, e é o combustível vital para a aprendizagem, pois os circuitos irrigados por dopamina se tornam maleáveis e predispostos à mudança. Na ausência de dopamina, em contraposição, os circuitos neuronais são em sua maioria rígidos e pouco maleáveis. 

Se o cérebro não gerasse um sinal de dissonância quando a realidade é pior do que esperamos, renovaríamos indefinidamente nossas esperanças.

Em sua grande maioria, as pessoas pressupõem que as possibilidades de que lhes aconteça algo ruim são muito menores do que mostram as estatísticas.

A cada vez que descobrimos um conhecimento desejável ou benéfico, ativa-se um grupo de neurônios em uma pequena região do córtex pré-frontal esquerdo chamado giro frontal inferior. Em contraposição, quando recebemos uma evidência não desejável, ativa-se outro grupo de neurônios na região homóloga do hemisfério direito. Entre essas regiões cerebrais se estabelece uma espécie de balança entre as boas e as más notícias. Essa balança, porém, tem duas armadilhas: a primeira é que ela dá muito mais peso às boas notícias do que às más, o que, em média, cria uma tendência para o otimismo; e a segunda – a mais interessante – é que a inclinação da balança muda em cada indivíduo e revela a maquinaria do otimismo.

A ativação dos neurônios do giro frontal do hemisfério esquerdo é semelhante em todos nós, quando descobrimos que o mundo é melhor do que pensávamos. Em contraposição, a ativação do giro frontal do hemisfério direito varia em um nível amplo de indivíduo para indivíduo, nos casos em que ficamos sabendo que o mundo é pior do que acreditávamos. Nas pessoas mais otimistas, essa ativação é atenuada, como se literalmente elas fizessem ouvidos moucos às más notícias.  Nas mais pessimistas, ocorre o oposto: a ativação está amplificada, acentua e multiplica o impacto dessa informação negativa. Aí está a receita biológica que separa os otimistas dos pessimistas: não é a capacidade que eles têm de valorizar o bom, mas suas possibilidades de ignorar e esquecer o ruim.

razões instintivas para alimentar um otimismo cândido, o qual se revela um motor para a ação, a aventura e a inovação. Sem o otimismo não teríamos ido à Lua nem voltado de lá; e ele também está associado de uma maneira bastante genérica com uma saúde melhor e uma vida mais satisfatória. Poderíamos pensar então que o otimismo é uma espécie de pequena loucura que nos impele a fazer coisas que de outro modo não faríamos. Sua face oposta, o pessimismo, é o prelúdio da inação e, na versão crônica, da depressão.  [...] O otimista conhece os riscos mas age como se não o afetassem.  Sentem-se excetuado da estatística e isso, claro, é falso: se todos formos a exceção, a regra deixa de existir. Esse otimismo expandido – que não costuma ser reconhecido como tal – pode acarretar consequências fatais, mas também evitáveis. 

Fotografia: James Nachtwey

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Mariano Sigman



Crer, saber e confiar

Ao tomar uma decisão, além de executar a opção escolhida, o cérebro gera uma crença. É o que percebemos como confiança ou convicção quanto ao que fazemos.  [...] Como se constrói a confiança? Por que algumas pessoas sentem um excesso permanente de confiança, façam o que fizerem, e outras, ao contrário, vivem na dúvida?

O estudo científico a confiança – ou o da dúvida – é particularmente sedutor porque abre uma janela para subjetividade: já não é o estudo de nossos atos observáveis, mas de nossas crenças privadas. Sob uma perspectiva meramente pragmática, tampouco é um assunto menor, pois estarmos seguros ou não de nossas ações define nosso modo de ser.

Vícios e rastros da confiança

A forma pela qual cada pessoa constrói a confiança é quase como uma impressão digital. Alguns distribuem a confiança com matizes intermediários; outros, ao contrário, tendem a expressá-la em estados extremos de dúvida ou convicção.

Alguém com um sistema preciso de confiança julgar bem seu próprio conhecimento e sabe quando apostar e quando não. A confiança é, então, uma janela para o próprio conhecimento. [...] A precisão do sistema de confiança é um traço pessoal, quase como uma estrutura ou a cor dos olhos. Mas, à diferença desses traços físicos, há um certo espaço para modificar esse rastro do pensamento. E, como se poderia esperar de um traço característico da identidade – e que de certo modo a define –, ele tem uma assinatura na estrutura anatômica do cérebro. 0s que possuem sistemas de confiança mais precisos têm maior quantidade de conexões.

Essa diferença na atividade cerebral entre os que têm um sistema preciso de confiança e os que não o têm só se observa quando uma pessoa dirige a atenção para seu mundo interior – por exemplo, concentrando-se na respiração –, e não quando a atenção está focalizada no mundo exterior. Isso estabelece uma ponte entre duas variáveis que em princípio quase não estavam relacionadas: a qualidade da confiança e o conhecimento de nosso próprio corpo. Ambas coincidem em dirigir o olhar para o mundo interior. E, assim, sugere-se que uma maneira natural de melhorar o sistema de confiança é aprender a observar e focalizar nosso próprio corpo.




Fotografia: Justyna Mielnikiewicz

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Leonard Mlodinow




Classificação de pessoas e coisas

Nós ficaríamos ofuscados se tivéssemos de tratar tudo o que vimos, toda a informação visual, como um elemento em separado; e se tivéssemos de desvendar de novo as conexões todas as vezes que abríssemos os olhos.
Gary Klein

      A classificação é uma estratégia que nosso cérebro usa para processar informações com mais eficiência. Cada objeto ou pessoa que encontramos no mundo é único, mas nós não funcionaríamos muito bem se os percebêssemos dessa maneira. Não temos tempo nem capacidade mental para observar e considerar cada detalhe de todos os itens de nosso ambiente. Por isso utilizamos alguns traços salientes que conseguimos observar para situar o objeto em um categoria; depois baseamos nossa avaliação do objeto na categoria e não no próprio objeto. Ao mantermos um conjunto de categorias, conseguimos acelerar nossas reações.

    Pensar em termos de categorias genéricas, como “ursos”, “cadeiras” e “motoristas erráticos”, nos ajuda a navegar pelo nosso ambiente com mais velocidade e eficiência; primeiro entendemos o significado bruto de um objeto, depois nos preocupamos com sua individualidade.

         Classificar é um dos atos mentais mais importantes que desempenhamos, e nós fazemos isso o tempo todo. Até nossa capacidade de ler depende de nossa capacidade de classificar; o domínio da leitura exige o agrupamento de símbolos semelhantes, como b e d, em categorias de letras diferentes. [...] Em geral fazemos isso de maneira rápida e sem esforço consciente.

    Uma das principais maneiras de classificar é maximizar a importância de certas diferenças e minimizar a relevância de outras.  Mas a seta do nosso raciocínio pode apontar para o outro lado. Se concluirmos que um conjunto de objetos pertence a um grupo, e um segundo conjunto de objetos pertence a outro, podemos perceber os que estão dentro do mesmo grupo como mais semelhantes do que na verdade são – e os que estão em grupos diferentes como menos semelhantes do que na verdade são. O mero posicionamento de objetos em grupos pode afetar nosso julgamento desses objetos. Portanto, embora a classificação seja um atalho crucial e natural, como outros truques de sobrevivência do nosso cérebro, ele também tem suas desvantagens.
  
      Distorções causadas pelas categorizações [...] Quando categorizamos, nós polarizamos. Coisas que por uma ou outra razão arbitrária são identificadas como pertencentes à mesma categoria parecem mais semelhantes entre si do que realmente são, enquanto as catalogadas em diferentes categorias parecem mais distintas do que são na verdade. A mente inconsciente transforma diferenças difusas e nuances sutis em distinções nítidas. Seu objetivo é apagar detalhes irrelevantes enquanto mantém a informação importante. Quando isso é feito de forma bem-sucedida, nós simplificamos nosso ambiente e tornamos a navegação mais fácil e rápida. Quando isso não é feito da forma inadequada, distorcemos nossas percepções, às vezes com resultados prejudiciais para os outros ou até para nós mesmos .  Isso vale em especial quando nossa tendência a classificar afeta nossa visão acerca de outros seres humanos.

  Lippmann escreveu: “O ambiente real é na verdade grande, complexo e transitório demais para um conhecimento direto.  ... Embora tenhamos de agir nesse ambiente, precisamos reconstruí-lo em um modelo mais simples antes de conseguir lidar com ele ”.

    Tipos e personagens normais eram (e ainda são) um resumo conveniente – nós os reconhecemos de pronto -, mas seu uso amplifica e exagera os traços de personalidade associados às categorias que representam.

         Gostamos de pensar que julgamos as pessoas como indivíduos, e às vezes tentamos de forma consciente avaliar os outros com base em suas características específicas. Em geral conseguimos. Mas, se não conhecemos bem uma pessoa, nossa mente pode procurar as respostas em sua categoria social. Em cada um desses casos, nossa mente subliminar pega os dados incompletos, usa o contexto ou outras pistas para completar a imagem, faz algumas deduções e produz um resultado algumas vezes exato, outras vezes não, mas sempre convincente. Nossa mente preenche as lacunas quando julgamos as pessoas, e a categoria a que a pessoa pertence é parte dos dados que usamos para fazer isso.

     Os vieses perceptivos de categorização estão na raiz do preconceito. Até segunda metade dos anos 1980, muitos psicólogos ainda viam a discriminação como um comportamento consciente e intencional, não como algo surgido naturalmente de processos cognitivos normais e inevitáveis, relacionados à propensão vital do cérebro para categorizar.  A estereotipagem inconsciente, ou “implícita”, é a regra, não a exceção. Julgar individualmente é complicado, e essa complexidade exige recursos mentais, o que retarda o processo. ... Esse é o ponto crucial: quando o rotulamento segue suas associações mentais (vieses), o processo se acelera, mas, quando mistura as associações, o processo fica mais lento. 

         Pesquisadores mostraram aos participantes imagens de rostos brancos, negros, palavras hostis (horrível, fracasso, maligno, desagradável e assim por diante), e palavras positivas (paz, alegria, amor, felicidade e assim por diante). Se você fizer associações a favor de brancos ou contra negros, levará mais tempo para separar palavras e imagens quando tiver de relacionar palavras positivas com a categoria negra e palavras hostis para a categoria branca do que quando rostos negros e palavras hostis entrarem numa mesma caixa.  Cerca de 70% dos que passaram pelo teste mostraram essa associação pró-branca, inclusive muitos que ficaram (conscientemente) surpresos ao saber que mostraram tais atitudes. Aliás, até muitos negros mostraram um viés inconsciente pró-brancos no IAT. É difícil não fazer isso quando se vive numa cultura que incorpora estereótipos negativos envolvendo afro-americanos.

    Ainda que sua avaliação de outra pessoa possa parecer racional e deliberada, ela é informada por processos automáticos e inconscientes – os tipos de processo reguladores da emoção sediados no córtex pré-frontal ventromedial. Aliás, lesões no VMPC costumam suprimir a estereotipagem inconsciente de gênero.

   Como reconheceu Lippmann, não podemos evitar a absorção mental de categorias definidas pela sociedade em que vivemos. Elas permeiam notícias, programação da TV, filmes, todos os aspectos de nossa cultura. Pelo fato de nosso cérebro categorizar naturalmente, somos vulneráveis a agir de acordo com atitudes que essas categorias representam.

    A tendência a classificar até as pessoas em geral é uma benção. Ela permite que compreendamos a diferença entre motorista de ônibus e passageiro, balconista e comprador, recepcionista e médico, e entre outros estranhos com quem interagimos, sem ter de parar para repensar mais uma vez sobre o papel de cada um durante cada encontro. O desafio não é deixar de categorizar, mas como se tornar ciente de quando fazemos isso e conseguir ver as pessoas individualmente, como elas são.

         As categorias saturam tudo que elas contêm com o mesmo “sabor ideal ou emocional ”.

     A cultura agora chegou ao ponto de a maioria das pessoas considerar errado negar intencionalmente uma oportunidade a alguém em decorrência de traços de caráter inferidos a partir de sua identidade classificatória. Mas estamos apenas começando a lidar com esses vieses inconscientes. ... O desafio apresentado pela ciência à comunidade legal é ir além disso, abordar o tema mais difícil da discriminação inconsciente, do viés sutil e oculto até para quem o exerce. ... Se estivermos cônscios de nossos vieses e motivados para superá-los, conseguiremos fazer isso.

     Nosso juízo inconsciente, amplamente apoiado em categorias que atribuímos às pessoas, está sempre em competição com nosso pensamento mais deliberativo e analítico, que pode ver essas pessoas como indivíduos. À medida que os dois lados de nossa mente travam essa batalha, o grau com que consideramos uma pessoa como indivíduo versos membro de um grupo genérico varia em grande escala.

       A moral da história é que é preciso esforço se quisermos superar vieses inconscientes. Uma boa maneira é olharmos com mais atenção quem estamos julgando ... nosso conhecimento pessoal de um membro específico ou de uma categoria pode atropelar nosso viés categórico, porém, mais importante é que, com o tempo, o contato repetido com membros da categoria pode agir como antídoto para os traços negativos que a sociedade atribui ás pessoas dessa categoria.  ... A experiência pode atropelar os preconceitos.

  Quanto mais interagimos com outros indivíduos e nos expomos às suas características particulares, mais munição nossa mente tem para contra-atacar nossa tendência a estereotipar, pois traços que atribuímos às categorias são produto não só das suposições da sociedade como de nossa própria experiência.
        Os cientistas dizem que nós não teríamos sobrevivido como espécie sem nossa capacidade de categorizar, mas eu vou mais adiante: sem ela, mal se consegue sobreviver como indivíduo.





 Fotografia: James Nachtwey

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Mariano Sigman



A vida secreta da mente


O contorno da identidade
Como escolhemos, e o que nos faz confiar (ou não) nos outros e em nossas próprias decisões?

Nós somos o que decidimos. Somos aquele que escolhe viver assumindo riscos ou, ao contrário, de maneira conservadora. Esse conjunto enorme de ações define o contorno de nossa identidade. Como resumiu José Saramago em Todos os nomes: “A rigor, não tomamos decisões, as decisões nos tomam a nós”.      

De maneira imperceptível, como se cada alternativa se decantasse naturalmente, comparamos o universo de opões possíveis em uma balança mental, pesamos tudo e por fim decidimos. Nossas decisões se resolvem quase sempre com base em informação incompleta e dados imprecisos. [...] Só é possível esboçar de maneira aproximada as futuras consequências daquilo que foi decidido.  A tomada de decisão tem algo de adivinhação, uma certa conjectura sobre um futuro que é necessariamente impreciso.  A máquina funciona. Isso é o mais extraordinário.

O cérebro de Turing 
O cérebro decide por meio de uma corrida no córtex parietal.

Como no procedimento esboçado por Turing, o mecanismo cerebral para tomar decisões se constrói sobre um princípio extremamente simples: o cérebro elabora uma paisagem de opções e desencadeia entre elas uma corrida que só terá um vencedor. Basicamente, o cérebro transforma a informação obtida através dos sentidos em um conjunto de votos a favor de uma ou outra opção. Os votos se acumulam até alcançar um limiar no qual o cérebro considera que a coleta de evidências é suficiente para tomar a decisão.

Três princípios para a tomada de decisão – fruto do registro da atividade neuronal dos pesquisados (correntes elétricas no cérebro).

1)      Um conjunto de neurônios do córtex visual recebe informações dos órgãos sensoriais. O neurônio responde mais quando a nuvem de pontos se move em uma determinada direção. A cada instante, a corrente do neurônio (sua intensidade) reflete a quantidade e a direção do movimento, mas não cumula a história dessas observações.
2)      Os neurônios sensoriais se conectam com outros neurônios do córtex parietal que acumulam essa informação no tempo. Assim, os circuitos neuronais do córtex parietal codificam como vai mudando, no tempo, a predisposição a favor de cada ação possível no espaço de decisões.
3)      À medida que a informação a favor de uma opção se acumula, o circuito parietal que codifica essa opção aumenta a atividade elétrica. Quando a atividade alcança um determinado limiar, um circuito de neurônios em estruturas profundas do cérebro – conhecidas como gânglios basais – dispara a ação corresponde e reinicia o processo para abrir caminho à decisão seguinte.

Que relação tem a clareza da evidência com o tempo que usamos para tomar uma decisão? Quanto mais incompleta é a informação, mais lenta é a acumulação de evidência.  Como as opções se enviesam em consequência de preconceitos ou conhecimento prévio? Quando é realmente suficiente para decidir-se, a evidência a favor de uma opção? (Como se estabelece um limiar?) Depende de um cálculo feito pelo cérebro de uma maneira indiscutivelmente precisa. O cérebro pondera entre “o custo de equivocar-se” e o “tempo disponível para a decisão”.

O cérebro determina o limiar de tal modo que otimiza o ganho resultante de uma decisão. Para isso, combina circuitos neuronais que codificam:

·         O valor da ação. - O que perdem se errarem? – Quanto maior o custo de errarem, maior o limiar para a decisão.
·         O custo do tempo investido. Quanto mais tempo, mais chances de decidir de maneira segura. 
·         A qualidade da informação sensorial. – Quanto pior a informação, mais demoram para se decidir.  Maior o limiar para a decisão.
·         Uma urgência endógena de responder, algo que reconhecemos como a ansiedade ou a impaciência por tomar uma decisão.

Se os erros forem severamente castigados, o cérebro aumenta o limiar de quantidade de evidência de que precisam para decidir e demoram mais tempo para responder. Ao contrário, se os erros não forem punidos e a melhor estratégia for responder depressa para acumular muitas oportunidades de recompensa, os jogadores reduzem esse limiar. O notável é que, na maioria dos casos, este ajuste adaptativo (do limiar necessário para que a decisão seja disparada) não é consciente.  O tomador de decisões sabe muito mais do que acredita saber. Isso nem sempre acontece para as decisões conscientes. Todos nós recordamos haver adiado em algum momento uma decisão urgente ou, ao contrário, ter nos apressado em uma que requeria paciência. Mas, em contraposição, em muitíssimas decisões inconscientes o cérebro ajusta de forma excelente, e sem que tenhamos registro, o limiar de decisão.

[...] Quando nos oferecem uma paisagem de opções, nem todas começam a correr a partir do mesmo ponto: as que nos dão por default partem com vantagem. Se, além disso, o problema for de difícil solução, o que faz com que a evidência a favor de qualquer opção seja pequena, gana quem começa com aquela vantagem. [...] Nosso mecanismo de tomada de decisão sofre um colapso diante de situações difíceis. Então, aceitamos o que nos oferecem por default, aquilo que vier.

Coraçonadas: a metáfora precisa
(Fisiologia das decisões inconscientes)

[...] Todos percebemos que as decisões que tomamos pertencem a pelo menos duas formas qualitativamente distintas: algumas são racionais, e poderíamos esgrimir seus argumentos: as outras, não. São as Coraçonadas, aquelas decisões inexplicáveis que sentimos terem sido ditadas pelo corpo. Mas são realmente duas maneiras de decidir? Será que nos convém escolher algo de acordo com nossas intuições, ou é melhor deliberar cuidadosa e racionalmente cada decisão?

[...] A decisão de que algo é engraçado ou aborrecido não se origina somente numa avaliação do mundo exterior, mas também em reações viscerais que se produzem no mundo interior. Descobrimos que alguém nos agrada, que algo envolve risco ou que um gesto nos emociona porque o coração bate mais rapidamente.
Isso revela um princípio importante. O cérebro recebe dos sentidos informação emocional – digamos, por exemplo, tristeza ou alegria – que depois se expressa em variáveis corporais. Às emoções se associam expressões faciais, aumento da umidade da pele, do ritmo cardíaco ou da produção de adrenalina. Essa é a parte mais intuitiva do diálogo. Mas esse diálogo é recíproco, pois o cérebro identifica variáveis corporais para decidir se sente uma emoção. Tanto é assim que a indução mecânica de um sorriso faz com que nos sintamos melhor ou que avaliemos algo mais positivamente do que quando nosso rosto expressa seriedade.
Que os estados corporais possam afetar nosso processo de decisão é uma demonstração fisiológica e científica daquilo que percebemos como coraçonada. Quando se toma uma decisão de modo inconsciente, o córtex cerebral avalia diferentes alternativas e, ao fazê-lo, estima possíveis riscos e benefícios de cada opção. O resultado desse cômputo se expressa em estados corporais a partir dos quais o cérebro pode reconhecer o risco, o perigo ou o prazer. O corpo se torna um reflexo do mundo exterior.

O corpo no cassino e no tabuleiro

[...] Em uma situação de incontáveis opções, com uma complexidade que se assemelha à própria vida, o coração se alarma muito antes de tomar uma decisão ruim. Se o indivíduo pudesse perceber isso, se soubesse escutar o que diz seu coração, poderia talvez evitar muitos dos erros que acaba cometendo.  Isso é possível porque o corpo e o cérebro têm as caves para a tomada de decisão muito antes que esses elementos se tornem conscientes para nós; as emoções expressadas no corpo funcionam como um alarme que nos alerta sobre possíveis riscos e erros. Isso faz desmoronar a ideia de que a intuição pertence ao âmbito da magia ou da adivinhação. Não há nenhum conflito entre a ciência e as coraçonadas; pelo contrário, as intuições funcionam de mãos dadas com a razão e a deliberação, em pleno território da ciência. 

Decisões ou coraçonadas?

A complexidade da decisão é o que dita quando convém deliberar e quando intuir. [...] Quando há muitos elementos em jogo, a coraçonada é mais efetiva do que a deliberação. [Quem pensa perde].  [...] Quando tomamos uma decisão que se resolve ponderando um número pequeno de elementos, escolhemos melhor se levarmos um tempo pensando. Em contraposição, quando o problema é complexo, em geral decidimos melhor seguindo uma coraçonada do que se meditarmos longamente e dermos muitas voltas – mentais – ao assunto.

Algo sabemos da consciência: é bastante estreita e nela podemos alojar pouca informação. Já o inconsciente é muito mais vasto. Isso nos permite entender por que, para tomar decisões com poucas variáveis em jogo – preço, qualidade e tamanho de um produto, por exemplo -, nos convém pensar bem antes de agir. Ante esse tipo de situação nas quais podemos avaliar mentalmente todos os elementos ao mesmo tempo, a decisão racional é a melhor e mais eficiente. Também entendemos por que, quando estão em jogo muito mais variáveis do que a consciência é capaz de manipular ao mesmo tempo, as decisões inconscientes, rápidas e intuitivas, mesmo quando apenas aproximadas, mostram-se mais eficientes.

Farejando o amor


Em resumo, as decisões que se seguem a coraçonadas e intuições, as quais, por serem inconsciente, costumam ser percebidas como mágicas, espontâneas e sem princípios, na realidade estão reguladas e às vezes são marcadamente estereotipadas. De acordo com as virtudes e limitações mecânicas da consciência, parece sensato delegar as decisões simples ao pensamento racional e deixar as complexas entregues ao olfato, ao suor e ao coração.
Fotografia: Werner Bischof