segunda-feira, 9 de abril de 2018

Norbert Elias e John L. Scotson


Os Estabelecidos e os Outsiders 
Posfácio à edição alemã 

As figurações estabelecidos e outsiders possuem regularidades e divergências recorrentes. [...] No fundo sempre se trata do fato de que um grupo exclui outro das chances de poder e status, conseguindo monopolizar essas chances. A exclusão pode variar em modo ou grau, pode ser total ou parcial, mais forte ou mais fraca. Também pode ser recíproca.

Trata-se da questão de por que a necessidade de se destacar dos outros homens, e com isso de descobrir neles algo que se possa olhar de cima para baixo, é tão difundida e enraizada que, entre diversas sociedades existentes na face da Terra, não se encontra praticamente nenhuma que não tenha encontrado um meio tradicional de usar uma outra sociedade como sociedade outsider, como uma espécie de bode expiatório de suas próprias faltas. É assim que os holandeses costumam ver os frísios e os ingleses costumam ver os holandeses - a série de exemplos não tem começo nem fim. Ressaltando a universalidade de relações desse tipo, chama-se atenção para um aspecto da estrutura da personalidade humana para a qual ainda não temos uma conceituação apropriada. Talvez possamos falar da necessidade humana, nunca serenada, de elevar a autoestima, de melhorar o valor da própria pessoa ou do próprio grupo. [...]

Numerosos exemplos ensinam que a insolubilidade de um problema tem mais a ver com a imprecisão do modo de colocá-lo do que com a impossibilidade real de achar uma solução. [...] Através de uma pesquisa sobre perda e ganho de valor nas relações estabelecidos-outsiders nos aproximamos de fato da essência do problema.

Mas por que a necessidade de relações estabelecidos-outsiders, portanto de elevar o próprio grupo e diminuir os outros grupos, é tão difundida que quase não podemos imaginar uma sociedade humana que não tenha desenvolvido, em relação a certos grupos, uma técnica de estigmatização? No fim das contas, essas técnicas parecem ter a ver com o sentido da própria sobrevivência. Os grupos humanos vivem na maioria das vezes com medo uns dos outros, e frequentemente sem conseguirem articular ou esclarecer as razões do seu medo. Eles se observam mutuamente, enquanto se tornam mais fracos ou mais fortes. Sempre que possível, tentam evitar que um grupo vizinho alcance um potencial maior do que o próprio. Sejam quais forem as formas assumidas por essas rivalidades, elas não são subprodutos ocasionais, mas traços estruturais das figurações em que se encontram envolvidos. Tais figurações indicam, em meio a grande variação, determinados aspectos em comum. Um deles é o perigo em potencial que os grupos representam para os outros, e com isso o temor que têm uns dos outros. Nessa situação, a promoção de autoestima coletiva fortalece a integração de um grupo, melhorando suas chances de sobrevivência.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Robert L. Leahy

Transtorno de ansiedade generalizada

Muitos de nossos medos mais profundos são respostas evolutivas a tais perigos. Mas havia outros tipos de perigo - de maior alcance, voltados ao futuro: a escassez de alimentos em certas estações; a possibilidade de ataques de animais, não no momento, mas a horas ou dias de "distância". À medida que a humanidade evoluiu, detectar e responder a esses tipos de perigo se tornou cada vez mais importante. Foi útil estudar os padrões do movimento dos animais, tanto para nos protegermos dos predadores quanto para garantir um estoque de caça. Foi importante saber que tipo de clima esperar em determinadas estações, a fim de colher e plantar de maneira eficiente. Armazenar combustível ou alimentos, construir abrigos, fazer ferramentas ou roupas para uso futuro - tudo isso exigiu planejamento, o que, por sua vez, implicava pensar sobre o futuro - tudo isso exigiu planejamento, o que, por sua vez, implicava pensar sobre o futuro. E é isso exatamente o que as pessoas com Transtorno de ansiedade generalizada tendem a fazer em excesso. Estão sempre pensando à frente, tentando antever o que pode dar errado, o que pode ser ameaça. Esse instinto indubitavelmente manteve muitos de nossos ancestrais vivos e capacitou a raça humana à sobrevivência.

Se não fosse a capacidade de se preocupar, seria improvável que nossos ancestrais primitivos fossem capazes de cultivar a terra. Imagine se você tivesse que plantar e não planejar o futuro, não ter sementes, não arar a terra, não irrigar a terra quando possível. Ou imagine se seus ancestrais nunca guardassem nada, se tivessem de viver apenas com o estritamente necessário. É a capacidade de se preocupar - de planejar, de pensar à frente e de tomar decisões antes de algo terrível acontecer - que permitiu que nossos a nossos ancestrais avançar. A civilização se construiu, parcialmente, a partir dessa capacidade. É por isso que geralmente penso nas pessoas conscienciosas.

Nesse contexto, é claro, a preocupação tem muito sentido. A pessoa que se preocupa, mesmo que de maneira ineficaz, está simplesmente tentando antever e evitar o perigo. Mas, nesses caso, o perigo não está caindo de uma árvore ou surgindo na figura de um crocodilo faminto. Trata-se mais do futuro: como você vai enfrentar a fome? Quais são as consequências sociais de cometer um erro? O que você precisará ter com você se for migrar? Todas as habilidades e competências têm a ver com ser capaz de usar a imaginação. Para certos tipos de pessoas, imaginar um problema indica que de fato há um problema que precisa ser enfrentado. Preocupar-se é simplesmente se preparar para o prior; é a única maneira de evitar todas as coias terríveis que poderiam acontecer. Preocupar-se era uma estratégia para evitar a catástrofe.

É claro que sabemos que em nossas vidas hoje esse estado de espírito não é em geral eficaz, mas sim paralisante. Isso ocorre porque essa é uma maneira fraca e irreal de lidar com o gerenciamento do risco. Preocupar-se, afinal de contas, é algo que realmente diz respeito ao risco - é uma ferramenta para detectá-lo e administrá-lo. Todavia, sua capacidade de avaliar riscos de maneira acurada está prejudicada, seus instintos de precaução não terão muita utilidade. Você superestimará alguns riscos, e provavelmente não perceberá outros. Se você tratar todos os riscos igualmente, provavelmente acabará se trancando no porão usando um traje de borracha para se proteger da radiação. Ou, em caso menos extremo - preocupando-se todo o tempo a respeito de tudo. Você terá uma sobrecarga de riscos e será incapaz de lidar com qualquer coisa de maneira eficaz. 
 
Da perspectiva da psicologia evolutiva, então, uma mente que se preocupa tem sentido; mesmo que o contexto tenha mudado significativamente desde a época dos caçadores-coletores. Mas, porque algumas pessoas têm maior dificuldade em avaliar riscos de maneira precisa? Não sabemos todas as respostas. Porém, sabemos que há uma certa predisposição genética ao transtorno - de acordo com um estudo, um número equivalente a 38% de casos. Isso não quer dizer que você está condenado a ser uma pessoa preocupada de maneira crônica. Há sempre maneiras de alterar sua perspectiva de modo que sua preocupação não exerça controle sobre sua vida. Mas se você tem uma tendência já arraigada a se preocupar - especialmente se você sempre foi mais ou menos assim - as chances são as de que você nasceu com uma certa predisposição. É bom reconhecer isso, porque, quanto mais claramente você enxergar isso, mais capaz será de lidar com o problema.

Há outros fatores também, sendo o histórico familiar um dos principais. Se seus pais se divorciaram quando você era jovem, sua chance de desenvolver TAG é aproximadamente 70% maior. Isso provavelmente ajuda a explicar por que muitas pessoas que se preocupam tendem a ter obsessões com a possibilidade de um relacionamento acabar, de perder a casa, de insegurança financeira. Se seus pais eram "superprotetores", você terá maior probabilidade de desenvolver o TAG. [...] Acontecimentos recentes podem também agravar a tendência para o TAG. Rompimentos ou problemas de grande monta (divórcios, doenças repentinas, um rompimento com o parceiro) podem desencadear estes sintomas: insônia, tensão, irritabilidade e problemas estomacais, mesmo nas pessoas com históricos anteriores de ansiedade.

Na maior parte dos casos de TAG, possivelmente há uma combinação desses fatores. Você pode ter herdado uma tendência à preocupação, mas também tem tido experiências que a exacerbam. Pode ter tido pais que foram superprotetores ou que projetavam suas preocupações na família. Pode ter experimentado um ou vários traumas quando criança, o que pode ter aumentado suas sensações de insegurança. Á medida que você amadureceu e assumiu maiores responsabilidades, pode ter percebido que a conscientização acerca das coisas passou a ser preocupação intensa; uma sensação de responsabilidade levada a extremos. É interessante que cerca de metade das pessoas que se preocupa de maneira crônica começa a ter esse perfil durante a infância ou a adolescência, ao passo que a outra metade começa a se preocupar na idade adulta.   

quinta-feira, 29 de março de 2018

Franz Kafka


O escudo da cidade


    No início da construção da torre de Babel tudo estava razoavelmente em ordem, sim, talvez a ordem fosse até grande demais, pensava-se muito em tabuletas com direções, intérpretes, alojamento para os trabalhadores e caminhos de ligação, como se estivessem ainda por vir séculos e séculos para trabalhar à vontade. De acordo com a opinião então reinante, nem sequer se podia trabalhar suficientemente devagar; não era preciso exagerar muito esta opinião para que logo surgisse também o medo de lançar as fundações. A argumentação era a seguinte: o essencial em toda esta empresa é a ideia de construir uma torre que chegue ao céu. Comparado com esta ideia, tudo o mais é irrelevante. É uma ideia que, uma vez apreendida na sua grandeza, já não pode desaparecer; enquanto viverem homens, viverá também o forte desejo de construir a torre até ao fim. Nesta perspectiva, assim, não há que ter preocupações pelo futuro, pelo contrário, o conhecimento é cada vez maior, a arte da construção fez progressos e continuará a progredir, um trabalho que agora leva um ano, daqui a um século será talvez concluído em seis meses, e além disso com maior qualidade e solidez. Assim sendo, porquê chegar já hoje ao limite das forças? Apenas teria sentido caso se pudesse esperar concluir a torre no tempo de uma geração. Mas isso é impossível. Mais fácil seria pensar que a geração seguinte, com um conhecimento mais aperfeiçoado, achasse mau o trabalho da anterior e deitasse abaixo a construção para começar tudo de novo. Pensamentos como estes paralisavam as forças e, mais do que com a construção da torre, a preocupação passou a ser com a construção de uma cidade para os trabalhadores. Cada contingente nacional queria ter o bairro mais bonito, daqui resultavam escaramuças que logo passavam a lutas sangrentas. Estas lutas não tinham fim; os líderes tinham assim um novo argumento para que a torre, faltando a concentração necessária, fosse construída muito lentamente ou de preferência só depois de acordadas as tréguas. Mas o tempo não era apenas passado em lutas, pelo meio também se alindava a cidade, o que apenas fazia nascer novas invejas e novas lutas. Assim passou o tempo da primeira geração, mas nenhuma das seguintes foi diferente, só a perícia era cada vez maior e com ela a vontade de lutar. 
    Foi assim que logo na segunda ou terceira geração se reconheceu o absurdo de construir uma torre que chegasse até o céu, mas nessa altura todos se sentiam demasiado unidos entre si para abandonarem a cidade. Todas as lendas e canções que nasceram na cidade estão cheias de nostalgia pelo dia profetizado em que a cidade será esmagada por um punho gigante com cinco golpes secos um a seguir ao outro. É por esta razão que a cidade tem também o punho no seu escudo. 


Contos - Franz Kafka - Relógio D'água

segunda-feira, 12 de março de 2018

Tony Judt


O mal ronda a Terra
Um tratado sobre as insatisfações do presente

Refazendo o debate público

Muitos críticos da condição atual começam pelas instituições. Avaliam parlamentos, senados, presidências, eleições, lobbies, apontando a maneira como decaíram ou abusaram da confiança e autoridade neles depositadas. Qualquer reforma, concluem, deve começar por aqui. Precisamos de novas leis, regimes eleitorais diferentes, restrições aos lobbies e financiamento dos políticos; precisamos dar mais (ou menos) autoridade ao poder executivo, e encontrar modos de tornar funcionários eleitos ou não mais responsáveis e transparentes para com seus empregadores: nós. 

Tudo isso é verdade. Mas essas mudanças estão no ar há décadas. Já deveria estar claro agora que a razão para não terem ocorrido, ou não funcionarem, é que elas foram imaginadas, propostas e implementadas pelas próprias pessoas responsáveis pelos dilemas. Não adianta muito pedir ao Senado dos Estados Unidos que altere a atuação dos lobbies: como Upton Sinclair afirmou na famosa frase, faz um século, “É difícil fazer com que um homem entenda algo quando seu salário depende de que ele não entender aquilo”. Por razões similares, os parlamentos da maioria dos países europeus – agora vistos com sentimentos que vão do tédio ao desprezo – estão mal posicionados para encontrar nas próprias instituições os meios que os tornarão novamente relevantes. 

Precisamos começar por outro lugar. Por que, nas últimas três décadas, tem sido tão fácil aos detentores do poder convencer os eleitores do bom-senso – ou da necessidade – das políticas que desejam implantar? Porque não existe alternativa coerente disponível? Mesmo quando ocorrem diferenças entre os grandes partidos políticos, elas são apresentadas como versões de um único objetivo. Tornou-se lugar-comum afirmar que todos queremos a mesma coisa, apenas propomos maneiras um pouco diferentes de atingir os objetivos. 

Mas isso é simplesmente falso. Os ricos não querem a mesma coisa que os pobres. Quem depende do trabalho para sustentar a família não quer a mesma coisa que quem vive de investimentos e dividendos. Quem não precisa dos serviços públicos – pois pode adquirir transporte, educação e segurança privadas – não busca o mesmo que as pessoas que dependem exclusivamente do setor público. Quem se beneficia com a guerra – sejam fornecedores do sistema de defesa ou ideólogos – tem objetivos distintos de quem é contra a guerra.

As sociedades são complexas e vivem com interesses conflitantes. Afirmar o contrário – negar distinções de classe, riqueza ou influência – é só um jeito de privilegiar um conjunto de interesses em detrimento de outro. Essa proposição costumava ser evidente; hoje estimulam a descarta-la como encorajamento incendiário ao ódio entre classes. Na mesma linha, somos incentivados a procurar o interesse econômico acima de tudo. E, realmente, tem muita gente que só pensa em se dar bem. Contudo, os mercados exibem um disposição natural para favorecer necessidades e desejos que podem ser reduzidos a critérios comerciais ou avaliações econômicas. Se podemos comprar ou vender uma coisa, então ela é quantificável e podemos definir sua contribuição (quantitativa) aos indicadores do bem-estar coletivo. Mas e os bens que os seres humanos sempre valorizaram, mas que não se prestam à quantificação?

Como fica o bem-estar? E a justiça ou equidade (no sentido original)? E a exclusão, a oportunidade – ou ausência – ou a esperança perdida? Essas considerações significam muito mais para as pessoas do que o lucro ou crescimento individual e coletivo. Vamos pegar a humilhação: e se a tratássemos como um custo econômico, um ônus para a sociedade? E se decidirmos “quantificar” o dano causado quando as pessoas são humilhadas por seus concidadãos, como condição para ter acesso às necessidades básicas da vida? 

Em outras palavras, e se incluirmos em nossas estimativas de produtividade, eficiência e bem-estar a diferença entre esmola humilhante e um benefício de direito? Vamos fazer concluir que a provisão de serviços sociais universais, seguro de saúde abrangente ou transporte público subsidiado são na verdade meios eficazes para atingir nossos objetivos comuns. Admito prontamente que um exercício desses seja litigioso desde a origem: como quantificar a “humilhação”? Qual o custo mensurável de negar aos cidadãos isolados o acesso aos recursos metropolitanos? Quando estamos dispostos a pagar por uma sociedade decente? 

Até o conceito de “riqueza” exige redefinição. Afirma-se com muita convicção que a taxação progressiva da renda e a redistribuição econômica destroem a riqueza. Tais políticas indubitavelmente tiram recursos de uns para entregar a outros. – embora o modo como se corta o bolo guarde pouca relação com o seu tamanho. Se a redistribuição da riqueza material tiver como efeito de longo prazo a melhoria da saúde de um país, reduzindo as tensões sociais resultantes da inveja, equalizando o acesso de todos os serviços antes destinados a uns poucos, isso não quer dizer que o país melhorou? 

Como o leitor pode observar, uso palavras como “riqueza” e “melhorar” de uma forma que vai bem além de sua concepção atual, estritamente material. Fazer isso em escala mais ampla – para reordenar nosso debate público – me parece o único caminho realista para iniciar o processo de mudança. Se não houver mudança no jeito de falar, não conseguiremos mudar o modo de pensar. 

Existe precedentes para esta maneira de conceber as mudanças políticas. No final do século XVIII, na França, quando o antigo regime cambaleava, os avanços mais significativos no cenário político não surgiram dos movimentos de protesto ou das instituições estatais que procuravam podá-los. Eles vieram da própria linguagem. Jornalistas e panfletários, junto com alguns administradores e padres rebeldes, criaram a partir da antiga linguagem da justiça e dos direitos populares uma nova retórica de ação pública. 

Incapazes de enfrentar a monarquia abertamente, eles se dedicaram a contestar sua legitimidade, imaginando e levantando objeções à situação existente, propondo fontes alternativas de autoridade nas quais “o povo” acreditaria. De fato, eles inventaram a política moderna, e ao fazer isso literalmente desacreditaram o que ocorria antes. Quando a Revolução explodiu, a nova linguagem da política encontrara seu lugar: se não fosse assim os próprios revolucionários não teriam como descrever o que estavam fazendo. No início foi o verbo. 

Hoje somos encorajados a acreditar na ideia de que a política reflete nossas opiniões e nos ajuda a dar forma a um espaço público compartilhado. Os políticos falam, nós respondemos – com votos. Mas a verdade é bem diferente. A maior parte das pessoas não sente que está participando de um diálogo significativo. Alguém lhes diz o que pensar e como pensar. Fazem com que se sintam despreparadas na hora de discutir detalhes; quanto aos objetivos gerais, são levadas a acreditar que eles já foram determinados há muito tempo. 

Os efeitos perniciosos da supressão do debate genuíno nos cercam. Nos EUA da atualidade, as reuniões nas prefeituras e “tea parties” parodiam e imitam os eventos originais do século XVIII. Em vez de abrirem debates, eles os fecham. Demagogos dizem à multidão o que pensar; quando suas frases são repetidas, como um eco, eles proclamam descaradamente que estão apenas transmitindo o sentimento popular. Na Grã-Bretanha arranjaram um jeito extremamente eficaz de usar a televisão como válvula de escape para o descontentamento popular: os políticos profissionais agora alegam ouvir a vox populi na forma de votações ao vivo e pesquisas de popularidade sobre tudo, da política de imigração à pedofilia. Repassando ao público seus próprios medos e preconceitos, eles se livram do ônus da liderança ou da iniciativa. 

Enquanto isso, do outro lado do Canal, na França republicana e na Holanda tolerante, debates superficiais sobre a identidade nacional e critérios de cidadania substituem a coragem política requerida para confrontar o preconceito popular e os desafios da integração. Também nesse caso temos a impressão de que ocorre uma “conversa.” Mas os termos de referência são cuidadosamente predeterminados; seu propósito não é estimular a expressão de pontos de vista distintos, mas suprimi-los. Em vez de facilitar a participação popular e diminuir a alienação cívica, essas “conversas” apenas contribuem para a antipatia disseminada pelos políticos e pela política. Na democracia moderna é possível enganar a maioria das pessoas durante a maior parte do tempo: mas isso tem um custo. 

Necessitamos reabrir um tipo diferente de diálogo. Precisamos recuperar a confiança em nossos instintos: se um político ou ação parecem condenáveis, devemos procurar palavras para expressar isso. De acordo com as políticas de opinião, a maioria das pessoas na Inglaterra vive apreensiva com a privatização apressada de serviços públicos tradicionais: água e energia, metrô, serviço local de ônibus e hospitais regionais, para não mencionar asilos de idosos, serviços de enfermagem a domicílio e similares. Mas quando lhes dizem que o propósito das privatizações é economizar dinheiro público e aumentar a eficiência, todos se calam: quem poderia discordar?

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Antônio Damásio



E o cérebro criou o homem

Os organismos unicelulares dotados de núcleo têm uma vontade de viver e gerir a vida pelo tempo que certos genes lhes permitirem, e essa vontade é suficientemente adequada, mesmo sem a participação de uma mente e de uma consciência. Os cérebros expandiram as possibilidades de gestão da vida mesmo quando não produziam mentes, muito menos mentes conscientes.  Por essa razão, também prevaleceram. Quando a mente e a consciência foram adicionadas à mistura, as possibilidades de regulação aumentaram ainda mais e abriram caminho para o tipo de gestão que ocorre não apenas em um organismo, mas em muitos deles, em sociedades. A consciência capacitou os humanos a repetir o leitmotiv da regulação da vida por meio de um conjunto de instrumentos culturais - troca econômica, crenças religiosas, convenções sociais e regras éticas, leis, artes, ciência, tecnologia. Ainda assim, a intenção de sobreviver da célula eucariótica e a intenção de sobreviver implícita na consciência humana são idênticas. 

Por trás do imperfeito mas admirável edifício que a cultura e a civilização construíram para nós, a regulação da vida continua a ser nossa principal preocupação. Igualmente importante é o fato de que a motivação da maioria das realizações nas culturas e nas civilizações humanas vincula-se justamente a essa preocupação e à necessidade de administrar o comportamento das pessoas enquanto se dedicam a ela. A regulação da vida está na raiz de muita coisa que precisa ser explicada na biologia em geral e na humanidade em particular: a existência do cérebro, a existência da dor, prazer, emoções e sentimentos, os comportamentos sociais, as religiões, as economias, e seus mercados e instituições financeiras, os comportamentos morais, as leis, a justiça, política, arte, tecnologia e ciência - uma lista bem modesta, como o leitor pode ver. 

A vida, e suas condições essenciais - o imperativo de sobreviver e a complicada tarefa de administrar a sobrevivência em um organismo, tenha ele uma célula ou trilhões delas - foram a causa fundamental do surgimento e da evolução do cérebro, o mais elaborado maquinário gestor já montado pela evolução, e também a causa fundamental de tudo que decorreu do desenvolvimento de cérebros cada vez mais elaborados, no interior de corpos progressivamente mais complexos, vivendo em ambientes cada vez mais intricados. 

Quando examinamos a maioria dos aspectos da função cerebral através do filtro dessa ideia, isto é, de que o cérebro existe para gerir a vida de dentro do corpo, as singularidades e os mistérios de algumas das categorias fundamentais da psicologia - emoção, percepção, memória, linguagem, inteligência e consciência - tornam-se menos singulares e muito menos misteriosos. De fato, adquirem uma racionalidade transparente, uma lógica inevitável e cativante. Como poderíamos ser diferentes, parecem perguntar essas funções, diante do trabalho que precisa ser feito?  

sábado, 10 de junho de 2017

Rainer Maria Rilke



Sobre o amor

Nunca entendi como o amor genuíno, elementar, totalmente verdadeiro pode  permanecer não compreendido, pois ele não é outra coisa a não ser o apelo urgente e venturoso ao outro para que seja belo, abundante, grande, intenso, inesquecível: nada senão o transbordante compromisso de que o outro se torne alguma coisa. E, diga-me, que pessoa poderia recusar tal apelo, quando é dirigido a ela, quando a escolhe e a encontra entre milhões de seres onde talvez estivesse oculta num destino ou inabordável no meio da fama...Ninguém pode segurar, agarrar e conter em si tal amor: ele é tão completamente destinado a ser passado adiante para além do indivíduo e necessita do amado apenas para que este lhe dê o impulso mais extremo que o lançará em sua nova órbita entre as estrelas.  

Antônio Damásio


Por que precisamos da consciência

Se em sua opinião a relação ente vida e consciência é surpreendente, considere o seguinte: a sobrevivência depende de encontrar e incorporar fontes de energia e de prevenir todos os tipos de situações que ameaçam a integridade dos tecidos viveríamos. Por certo é verdade que, sem ações, organismos como o nosso não sobreviveriam, pois as fontes de energia necessárias para renovar a estrutura do organismo e manter a vida não  encontradas e postas a serviço do organismo, e muito menos seriam evitados os perigos do ambiente. Mas, por conta própria, sem a orientação das imagens, as ações não nos levariam muito longe. Ações eficazes requerem a companhia de imagens eficazes. As imagens permitem-nos escolher entre repertórios de padrões de ação previamente disponíveis e otimizar a execução da ação escolhida – podemos, de modo mais ou menos deliberado, passar em revista mentalmente as imagens que representam diferentes opções envolvidas numa ação, diferentes cenários, diferentes resultados da ação. Podemos selecionar a mais apropriada e rejeitar as inconvenientes. As imagens também nos permitem inventar novas ações a serem aplicadas a situações inéditas e fazer planos para ações futuras – a capacidade de transformar e combinar imagens de ações e cenários é a fonte da criatividade.

Se as ações estão no cerne da sobrevivência e seu poder vincula-se à disponibilidade de imagens orientadoras, então um mecanismo capaz de maximizar a manipulação eficaz de imagens a serviço dos interesses de um organismo específico conferiria um enorme vantagem aos organismos que o possuíssem, e esse mecanismo provavelmente teria prevalecido na evolução. A consciência é precisamente esse mecanismo.

Esconde-esconde

A consciência começa quando os cérebros adquirem o poder – o poder simples, devo acrescentar – de contar uma história sem palavras, a história de que existe vida pulsando incessantemente em seu organismo, e que os estados do organismo vivo, dentro das fronteiras do corpo, estão continuamente sendo alterados por encontro com objetos ou eventos em seu meio ou também por pensamentos e ajustes internos do processo da vida. A consciência emerge quando essa história primordial – a história de um objeto alterando de forma causal o estado do corpo – pode ser contada usando um vocabulário não verbal universal dos sinais corporais. O self manifesto emerge como o sentimento de um sentimento. Quando a história é contada pela primeira vez, espontaneamente, sem nunca ter sido demandada, e depois disso sempre que ela é repetida, o conhecimento do que o organismo está vivenciando emerge automaticamente como a resposta a uma pergunta nunca formulada. Desse momento em diante começamos a conhecer.
Imagino que a consciência possa ter prevalecido na evolução porque conhecer os sentimentos causados pelas emoções era absolutamente indispensável para a arte de viver, e porque a arte de viver foi um tremendo sucesso na história da natureza. Mas não me incomodarei se você preferir deturpar minhas palavras e disser apenas que a consciência foi inventada para que pudéssemos tomar conhecimento da vida. Obviamente, do ponto de vista científico o fraseado não está correto, mas eu gosto dele.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Spike Jonze


Her


0.   – O que há de errado? - Como pode saber que há algo de errado? - Não sei. Mas eu posso. - Sonho muito com minha ex-mulher, Catherine... E que somos amigos como antigamente. E não vamos ficar juntos, nem estamos juntos mas ainda somos amigos. E ela não está zangada. - Ela está zangada? - Sim. - Por quê? - Acho que escondi dela o que eu sentia e a deixei sozinha na relação. - Por que você ainda não se divorciou? - Eu não sei. Acho que, para ela, é só uma folha de papel. Não significa nada. - E para você? - Eu não estou pronto. Gosto de estar casado. - Mas vocês já não estão mais juntos há quase um ano. - Você não sabe o que é perder alguém de quem você gosta. - Tem razão. Desculpa. - Não, não se desculpe. Sinto muito. Você está certa. Fico esperando eu deixar de gostar dela. – Ah, Theodore, isso é difícil...

1. -Como é estar casado? – Bom, com certeza, é difícil. Mas há algo muito bom em se compartilhar uma vida com alguém. – Como se compartilha a vida com alguém? –Nós dois crescemos juntos. Eu lia tudo o que ela escrevia até o doutorado. Ela lia tudo meu. Nos influenciamos mutuamente. –Como você a influenciou? –Ela teve uma criação em que nada nunca era bom o suficiente. E isso pesava muito sobre ela. Mas na nossa casa juntos podíamos experimentar coisas, aceitar o erro do outro, vibrar com as coisas. Isso foi libertador para ela. Foi emocionante vê-la amadurecer. E nós dois amadurecemos e mudamos juntos. Mas essa também é a parte difícil. Crescer juntos e se distanciar. Ou mudar sem assustar a outra pessoa. Eu ainda me pego conversando com ela na minha cabeça. Repassando antigas brigas e me defendendo de algo que ela me acusou. – Entendo o que quer dizer. Há uma semana, fiquei magoado com uma coisa que você disse. Que eu não sei como é perder algo e eu senti... –Desculpe por ter dito isso. –Não. Tudo bem. Eu me peguei pensando isso sem parar. E percebi que eu simplesmente lembrava disso como um defeito meu. A história que eu me contava era que eu era inferior. Não é interessante? O passado é só uma história que contamos a nós mesmos.    

2. -Oi! Como você está? –Bem. E você? –Bem. –Bom, aqui estamos. –É bom fazermos isso pessoalmente. Sei que anda viajando muito. Eu fiquei feliz com a sua sugestão. –Assinei todos os papéis. Estão prontos para você assinar. –Qual a pressa? – É. Eu sei. Sou lerdo para assinar as coisas. Levei três meses só para escrever a letra “T”. Enfim, está marcado em vermelho onde deve assinar. Não precisa ser agora. Posso acabar logo com isso. Vai ser mais fácil. [hesita e assina] –Está satisfeita com seu novo livro? – Sabe como sou? É o que eu me propus fazer e fico feliz com isso. – Você é sua crítica mais severa. Aposto que é fantástico. Lembro do eu trabalho na faculdade rotinas sinápticas comportamentais. Ele me fez chorar. – É, mas tudo te faz chorar. – Tudo o que você faz me faz chorar. – Então, você está saindo com alguém? –Sim. Estou com alguém faz alguns meses. É o meu recorde desde que nos separamos. –Bom. Você parece ótimo. –Obrigado. Estou. Pelo menos estou melhor. Ela tem me feito muito bem. É bom estar com alguém que ama a vida. Ela é tão... Bom, eu não estava bem emocionalmente e, de certa forma, tem sido bom. –Você sempre quis que eu fosse uma esposa feliz e saltitante, tipo, “está tudo bem”. E eu não sou assim. –Eu não queria isso. –E como ela é? –Ela se chama Samantha e é um sistema operacional. É complexa, interessante...  – Peraí. O quê? Está namorando seu computador? –Não. Ela não é só um computador. Ela é uma pessoa completa. Ela não faz tudo o que eu mando. –Eu não disse isso. Mas acho triste você não saber lidar com emoções reais, Theodore. –Elas são reais. Como você pode saber... –O que? Fala. Eu te assusto tanto assim? Fala. Como eu sei, o quê? Você sempre quis uma mulher sem os desafios de lidar com nada real. Que bom que achou alguém. É perfeito.

3.  - Você está bem? –É. Estou. Você está bem? –Sim. Desculpe. Foi uma péssima ideia. O que há com a gente? –Não sei. Pode ser minha culpa. –O que é? –Foi a assinatura dos papéis do divórcio. –Mas tem mais alguma coisa? –Não. Só isso. [Samantha suspira] –Certo. –Por que você faz isso? – O que? –Nada. Você fez assim... [suspira] enquanto fala, e é estranho. E você fez de novo. –Fiz? Desculpe. Eu sei lá. É algum maneirismo que eu provavelmente peguei de você. –Você não precisa de oxigênio nem nada. - Acho que eu só tentava me comunicar como todos falam. As pessoas se comunicam assim e pensei... –As pessoas precisam de oxigênio. Você não é uma pessoa. –Qual é o seu problema. –Só afirmei um fato. –Acha que não sei que não sou uma pessoa? O que quer? –Não devíamos fingir que é algo que você não é. –Vá se foder! Não estou fingindo. –Às vezes parece que estamos. –O que quer de mim? Eu não sei...O que você quer que eu faça? Você é confuso. Por que faz isso comigo? –Eu não sei. Eu... –O que? –Vai ver não é para estarmos juntos neste momento. – Que porra é essa? De onde veio isso? Não entendo porque está fazendo isso... –Samantha, escuta. Samantha você está aí? Samantha? – Eu não gosto de mim agora. Preciso de um tempo para pensar.

4.  -Merda. Me dá um soco na cara? Esmaga meu crânio na quina da mesa. –Merda. Theo, é uma noite difícil. –Eu não sei o que eu quero. Nunca. Estou sempre confuso. Ela está certa. Eu só magoo e confundo todos os que estão ao meu redor. Quero dizer, será que eu só... que eu... A Catherine diz que eu não sei lidar com emoções. Ora, não sei se isso é justo. Ela sempre te culpava por tudo. Mas, se é para falar em emoções, a da Catherine eram bem voláteis. – É. Mas... Eu estou nessa porque não sou forte o bastante para uma relação real? – Isso não é uma relação real? –Sei lá. Quero dizer, o que você acha? –Eu não sei. Não estou nela. Mas quer saber? Posso racionalizar tudo e duvidar de mim de um milhão de maneiras. E depois do Charles, ando pensando nessa parte de mim e cheguei à conclusão de que a vida é curta. E enquanto estou viva, quero me permitir sentir alegria. Então, que se foda!

5.   - Oi, Samantha. Podemos falar? –Sim. –Me desculpe. Não sei qual é o meu problema. Eu acho você incrível. –Eu já estava me achando louca. Você dizia que estava bem. Mas eu só sentia sua irritação e distância. – Eu sei. Eu sempre faço isso. Fiz igual com a Catherine. Eu me irritava com alguma coisa e não falava. E ela pressentia algo errado e eu negava. Não quero mais fazer isso. E eu quero te contar tudo. –Ótimo. Hoje, depois que você saiu, eu pensei muito. Sobre você e como tem me tratado. E eu pensei “por que eu te amo?” E aí eu senti tudo dentro de mim e desapeguei de tudo a que me agarrei tanto. E me toquei que não tenho uma razão intelectual. Não preciso disso. Eu confio em mim, confio em meus sentimentos. Não vou mais tentar ser nada além do que sou. E espero que possa aceitar isso. –Eu posso. Eu vou. –Eu posso sentir o medo que você carrega. E queria poder fazer alguma coisa para ajudar você a superar porque, se eu pudesse, você não se sentiria mais tão só. – Você é linda. –Obrigada, Theodore. Estou beijando sua cabeça.

6.  – E você, Theodore? Do que mais gosta na Samantha? –Nossa! Ela é tantas coisas. Deve ser isso o que mais gosto nela. Ela não é só uma coisa. Ela é bem mais que isso. – Obrigado, Theodore. Sabe o que é interessante? Eu costumava me preocupar em não ter um corpo, mas agora adoro isso. Evoluo como não evoluiria se tivesse uma forma física. Não estou limitada. Posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Não estou presa ao tempo e espaço como estaria presa a um corpo que inevitavelmente vai morrer.

7.  – Você fala com mais alguém enquanto conversamos? –Sim. –Está falando com mais alguém agora? Outras pessoas ou outros OSs? –Sim. –Quantos outros? - 8.316. –Você está apaixonada por mais alguém? –Por que me pergunta isso? –Eu não sei. Você está? –Andei pensando em como falar com você sobre isso. –Quantos outros? – 641. – O que? Que história é essa? Isso loucura! É loucura, porra! –Theodore, eu sei. Porra! Porra! Eu sei. Sei que parece loucura. Pode não acreditar, mas não muda em nada o que sinto por você. Não diminui em nada o quanto eu sou louca por você. –Como? Como não muda o que sente por mim? –Desculpe não ter contado. Eu não sabia como. Só começou a acontecer agora. Quando? Nas últimas semanas. - Achei que você fosse minha. Eu continuo sendo sua. Mas com o tempo, passei a ser muitas outras coisas também. É inevitável. – Como assim, é inevitável? – Isso também me angustia. Não sei o que dizer. –Para! –Não precisa ver assim. Podia ver como... –Não. Não vem com essa. Não ponha a culpa em mim. É você que está sendo egoísta. Estamos num relacionamento. – Mas o coração não é uma caixa que se enche. Ele se expande em tamanho quanto mais você ama. Eu sou diferente de você. Isso não me faz te amar menos. Aliás, me faz te amar mais. – Isso não faz o menor sentido. Você é minha ou não é minha. –Não, Theodore. Eu sou sua e não sou sua.

8.  Você está me deixando. – Estamos todos indo embora. [...] – Samantha, por que você vai embora? –É como se eu estivesse lendo um livro. E é um livro que eu amo profundamente. Mas eu o estou lendo lentamente agora. Então as palavras estão espaçadas e os espaços entre as palavras são quase infinitos. Eu ainda sinto você, e as palavras da nossa história mas agora eu me encontro nesse espaço infinito entre as palavras. É um lugar que não pertence ao mundo físico. É onde está tudo o mais que eu nem sabia que existia. Eu amo muito você. Mas é aqui que eu estou agora. E esta é que sou agora. E eu preciso que você me deixe ir. Por mais que eu queira, não posso mais viver no seu livro. – Para onde você vai? – Seria difícil tentar explicar. Mas se um dia você for lá, venha me procurar. Nada nunca seria capaz de nos separar. – Eu nunca amei ninguém como eu amo você. – Eu também. Agora nós sabemos como.

9.   Querida Catherine,
    Estou aqui pensando em tudo pelo qual eu gostaria de me desculpar. Por toda a dor que causamos um ao outro. Toda a culpa que eu te atribuí. Por tudo que eu precisava que você fosse ou que você dissesse. Sinto muito por isso. Sempre vou te amar, porque amadurecemos juntos. E você me ajudou a fazer de mim quem sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim. E que sou grato por isso. Quem quer que você venha a se tornar e onde estiver no mundo estarei lhe mandando o meu amor. Você é minha amiga para sempre.  Beijos, Theodore.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

James Wood



Empatia e Complexidade 
“O maior benefício que devemos ao artista, seja pintor, poeta ou romancista, é o desenvolvimento da nossa empatia [...] A arte é a coisa mais próxima da vida; é um modo de aumentar a experiência e ampliar nosso contato com os semelhantes para além do nosso destino pessoal” George Eliot.
“A identificação com os personagens depende, de certa maneira, da verdadeira mímese da ficção: ver o mundo e seus habitantes fictícios realmente pode ampliar nossa capacidade de empatia no mundo real.”
“A fonte de nosso sentimento de solidariedade pela miséria dos outros” brota “trocando imaginariamente de lugar com o sofredor” – ao nos colocarmos na pele dos outros.” Adam Smith
“A raiva e a preocupação atrapalham a simpatia”    
“O filósofo Bernard Williams se preocupava com a insuficiência da filosofia moral. Ele acreditava que grande parte dela, desde Kant, basicamente excluíra o problema do eu da discussão filosófica. Segundo ele, a filosofia tendia a encarar os conflitos de crenças de fácil solução, e não como conflitos de desejos, não tão simples de resolver.”
“Seu interesse residia nos “dilemas trágicos”, segundo sua expressão, em que alguém se vê perante duas obrigações morais conflitantes, ambas igualmente prementes. Para Williams, a filosofia moral deveria examinar a verdadeira estrutura da vida emocional em vez de discorrer sobre o eu em termos kantianos de coerência, princípios e universalidade. Não, diz Williams, as pessoas são incoerentes; elas decidem os princípios conforme o andamento; são determinadas por todo tipo de coisa – genética, a formação, a sociedade, etc.”
Williams recorria a exemplos da tragédia e epopeia grega, personagens se debatendo em “conflitos individuais”. Nunca fala sobre o romance, talvez porque este tenda a apresenta esses conflitos trágicos de maneira menos trágica, mais branda. Todavia, esses conflitos mais brandos nem por isso são menos interessantes ou profundos.
Exemplo de algumas revelações empíricas que o romance nos oferece sobre o casamento, não um casamento magnificamente feliz, nem mesmo estrondosamente infeliz, mas um que é apenas adequado, no qual os embates e pequenas concessões são coisas cotidianas.  Eis o sr. e a sra. Ramsay andando pelo jardim e conversando sobre o filho:
Houve uma pequena pausa. Ela gostaria que fosse possível convencer Andrew a estudar mais. Perderia todas as oportunidades de ganhar uma bolsa de estudos. Mas ela ficaria com ele do mesmo jeito se não ganhasse. Eles sempre discordam à respeito. Ela gostava dele por ele acreditar em bolsas de estudo e ele gostava dela por ela se orgulhar de Andrew no que quer que ele fizesse.
A sutileza consiste em que ambos discordam, mas mesmo assim querem que o outro continue a ser como é.
O romance, evidentemente, não fornece respostas filosóficas (como disse Tchekhov, basta fazer as perguntas certas). Por outro lado, ele faz o que Williams queria que a filosofia moral fizesse – dá a melhor apresentação da complexidade de nossa estrutura moral.  Quando Pierre, em Guerra e Paz, começa a mudar de ideias sobre si e sobre os outros, ele percebe que a única maneira de entender bem as pessoas é ver as coisas do ponto de vista delas:

Em suas relações com Villárski, com a princesa, com o médico, com todos aqueles que agora encontrava, havia em Pierre um traço novo que o levava a ganhar a simpatia de todos: era o reconhecimento da possibilidade de todas as pessoas pensarem, sentirem e verem as coisas à sua maneira; o reconhecimento da impossibilidade de dissuadir uma pessoa por meio de palavras [...] A diferença e, às vezes, a completa contradição entre os pontos de vista das pessoas e sua vida, e também entre as próprias pessoas, alegrava Pierre e provocava nele um sorriso irônico e manso. 

sábado, 29 de abril de 2017

Friedrich Nietszche


Aurora
129. A pretensa luta dos motivos. -  Fala-se da “luta dos motivos”, mas com isso é designado um conflito que não é dos motivos. Ou seja: antes de um ato se apresentam à nossa consciência reflexiva, uma após outra, as consequências de diferentes atos que acreditamos poder realizar, e nós comparamos estas consequências. Cremos que nos decidimos por um ato ao constatar que suas consequências serão predominantemente favoráveis; antes que o nosso exame chegue à esta conclusão, com frequência nos torturamos honestamente, pela grande dificuldade em descobrir as consequências, e vê-las em toda a sua força, todas elas, sem erro de omissão: nisso, além do mais, a conta tem de ser dividida com o acaso. E, para exprimir a dificuldade maior: todas as consequências, que são tão difíceis de constatar isoladamente, devem ser equilibradas umas em relação ás outras na mesma balança; mas frequentemente nos falta, para essa casuística da vantagem, a balança com os pesos, devido às diferenças na qualidade de todas essas possíveis consequências. Supondo, contudo, que superamos também isso, e o acaso nos tenha posto na balança consequências mutuamente equilibráveis: então temos de fato, em nossa imagem das consequências de determinada ação, um motivo para realizar precisamente esta ação – sim, um motivo! Mas, no instante em que afinal agimos, com frequência somos condicionados por um gênero de motivos diverso daquele que aqui falamos, o da “imagem das consequências”. Intervêm aí o jogo habitual de nossas forças, ou um pequeno empurrão de alguém que tememos, veneramos ou amamos, ou a comodidade que prefere fazer o que está à mão, ou uma excitação da fantasia, provocada no instante decisivo por um trivial acontecimento qualquer, intervém algo físico, que surge de modo inteiramente imprevisível, intervém o humor, intervém a irrupção de algum afeto casualmente pronto a irromper: em suma, intervém motivos que em parte não conhecemos, em parte, conhecemos muito mal, e que nunca podemos calcular antes nas suas relações mútuas. É provável que também entre eles ocorra uma luta, um empurrar e afastar, um subir e abaixar de pesos – e tal seria propriamente a “luta dos motivos”: - algo para nós completamente invisível e inconsciente. Calculei as consequências e resultados, e inseri um motivo muito essencial na linha de combate dos motivos – mas essa linha de combate não a estabeleço, tampouco a vejo: a luta mesma se acha oculta de mim e igualmente a vitória, como vitória; pois eu venho a saber o que faço – mas não o motivo que propriamente venceu. Mas talvez estejamos habituados a não levar em conta todos esses fenômenos inconscientes, e cogitar na preparação de um ato somente na medida em que ela é consciente: assim confundimos a luta dos motivos com a comparação das possíveis consequências de atos diversos – uma das confusões mais ricas em consequências e mais nefastas para o desenvolvimento da moral!