sexta-feira, 13 de julho de 2018

António Damásio



A origem das mentes

Como é que se passa da vida enganosamente simples de quase 4 bilhões de anos atrás até a vida dos últimos cerca de 50 mil anos, a que nutre as mentes culturais humanas? O que podemos dizer sobre a trajetória e os instrumentos que ela usou? Dizer que a genética e a seleção natural são a chave da transformação é pura verdade, mas não basta. Precisamos reconhecer a presença do imperativo homeostático – usado para o bem ou não – como um fator nas pressões seletivas. Precisamos reconhecer o fato de que não houve uma linha de evolução única, nem uma simples progressão na complexidade e eficiência dos organismos, que ocorreram altos e baixos e até extinções. Precisamos ressaltar que foi preciso uma parceria de sistemas nervosos e corpos para gerar mentes humanas, e que mentes surgiram não em organismos isolados, mas em organismos que faziam parte de uma estrutura social. Por fim, precisamos ressaltar o enriquecimento de mentes pelos sentimentos e subjetividade, pela memória baseada em imagens e pela capacidade de encadeá-las em narrativas que provavelmente começaram com sequências não verbais análogas a um filme, mas terminaram, depois do surgimento de linguagens verbais, combinando elementos verbais e não verbais. O enriquecimento veio a incluir a capacidade de inventar e produzir criações inteligentes, um processo que gosto de chamar de “inteligência criativa”, e que está um degrau acima das engenhosidades que permitem a numerosos organismos vivos, inclusive o humano, comportar-se com eficiência, rapidez e êxito na vida cotidiana.  A inteligência criativa foi o meio pelo qual imagens mentais e comportamentos foram combinados intencionalmente para fornecer soluções inovadoras aos problemas que os humanos diagnosticavam, para construir novos mundo para as oportunidades que imaginavam.


Em: A estranha ordem das coisas                                                         Fotografia: James Nachtwey

terça-feira, 10 de julho de 2018

António R. Damásio




A estranha ordem das coisas 
as origens biológicas dos sentimentos e da cultura

Princípio

A medicina não nasceu como um esporte intelectual destinado a exercitar o raciocínio com um quebra-cabeça diagnóstico ou um mistério fisiológico. Ela surgiu como uma consequência de sentimentos específicos de pacientes e dos primeiros médicos: a compaixão gerada pela empatia. Assim também, a busca do lucro é impulsionada por diversos anseios – pelo desejo de progredir, de ter prestígio, pela cobiça –, e tudo isso são sentimentos.

A ideia, em essência, é que a atividade cultural começa e permanece profundamente alicerçada em sentimentos. Precisamos reconhecer a interação favorável e desfavorável dos sentimentos com o raciocínio se quisermos compreender os conflitos e contradições da condição humana.

Como os seres humanos vieram a ser, ao mesmo tempo, sofredores, mendigos, celebradores da alegria, filantropos, artistas, cientistas, santos e criminosos, senhores benevolentes do planeta e monstros decididos a destruí-lo? A resposta a essa questão certamente demanda contribuições de historiadores e sociólogos, bem como de artistas, cuja sensibilidade costuma intuir os padrões ocultos do drama humano; além disso, requer contribuições de vários ramos da biologia.

A verdadeira ordem do surgimento das faculdades e estruturas biológicas que descobri é demasiadamente estranha e viola as expectativas tradicionais.

Quando um organismo vivo age de modo inteligente e vencedor em um cenário social, supomos que seu comportamento decorre de antevisão, deliberação e complexidade, contando com a ajuda de um sistema nervoso. Agora, porém, está claro que comportamentos assim podem surgir com base no singelo equipamento de uma única célula: uma bactéria, nos primórdios da biosfera. “Estranha” é uma palavra fraca demais para descrever essa realidade.

Podemos conceber uma explicação que comece a admitir as descobertas contrárias à intuição.  Ela se baseia nos mecanismos da própria vida e nas condições de sua regulação: uma coleção de fenômenos geralmente designada pela palavra “homeostase”. Os sentimentos são expressões mentais da homeostase enquanto esta, atuando sob o manto dos sentimentos, é a linha funcional que liga as primeiras formas de vida à extraordinária parceria de corpos e sistemas nervosos. Essa associação é responsável pelo surgimento de mentes dotadas de consciência e sentimentos, e essas mentes, por sua vez, são responsáveis por aquilo que é mais distintivo no ser humano: cultura e civilização. Os sentimentos são o cerne do livro, mas extraem seu poder da homeostase.

Associar as culturas a sentimentos e homeostase reforça suas ligações com a natureza e aprofunda a humanização do processo cultural. Sentimentos e mentes culturais criativas são frutos de um longo processo no qual a seleção genética guiada pela homeostase teve papel de destaque. A associação opõe-se à crescente dissociação de ideias, práticas e objetos culturais dos processos da vida.

Não estou reduzindo fenômenos culturais às suas raízes biológicas, nem tentando explicar através da ciência todos os aspectos do processo cultural. [...] Muitas discussões sobre a formação de culturas engalfinham-se em torno de duas interpretações conflitantes: uma na qual o comportamento humano resulta de fenômenos culturais autônomos e outra na qual o comportamento humano é consequência da seleção natural dirigida por genes. Contudo, não é necessário proferir uma interpretação à outra. Em grande medida, o comportamento humano resulta de ambas as influências, em proporções variadas. Curiosamente, descobrir as raízes de culturas humanas na biologia não humana não diminui nem um pouco a condição excepcional dos seres humanos. Tal condição deriva da importância única do sofrimento e da prosperidade no contexto das nossas lembranças do passado e das memórias que construímos a respeito do futuro.

Os seres humanos, em sua necessidade de lidar com o coração em conflito, em seu desejo de conciliar as contradições advindas do sofrimento, do medo e da raiva com a busca de bem-estar, entregam-se a conjecturas e deslumbramentos, descobrindo, assim, como fazer música, dança, pintura, literatura. Continuaram seus esforços criando os épicos; muitos deles, belos, alguns batidos – que atendem por nomes como crença religiosa, investigação filosófica e governança política. Do berço ao túmulo, esses foram alguns dos modos pelos quais a mente cultural enfrentou o drama humano.




Fotografia: James Nachtwey

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Harold Bloom



Por que ler Tchekhov?
Turgenev, Tchekhov e Hemingway têm um componente comum, um aparente distanciamento que, examinado atentamente, demostra ser algo peculiar. Afinidade com a paisagem e com a figura humana é central nos três autores.
Até mesmo os primeiros contos escritos por Tchekhov exibem delicadeza formal e a sombria reflexão que o tornam o artista imprescindível da “vida não vivida”.
Tchekhov dizia ser preciso escrever de modo que o leitor não precisasse das explicações do autor. As atitudes, os diálogos e as reflexões dos personagens haviam de bastar.
A esperança e a alegria, por mais irracionais que sejam, são mais fortes do que o desespero, embora, ao final, mais perniciosas. Leio “O beijo” e repito comigo mesmo conhecerás a verdade e a verdade te levará ao desespero. O problema é que esse gênio sombrio insiste em ser alegre.

Em Reminiscências, de Gorki, que assinala: “Parece-me que na presença de Tchekhov todos sentiam um desejo inconsciente de serem menos afetados, mais verdadeiros, mais eles mesmos”.  [...] A meu ver, esse desejo é um fenômeno de ordem estética, não moral, pois Tchekhov tem a sabedoria dos grandes escritores, e ensina, implicitamente, que a literatura é uma forma de fazer o bem. Shakespeare e Beckett oferecem-me o mesmo ensinamento.

“O estudante” é, ao mesmo tempo, de extrema simplicidade e belíssima concepção. [...] De súbito, o estudante sente grande alegria por acreditar que verdade e beleza sobrevivem nessa corrente que une passado e presente. [...] O leitor é levado a refletir sobre a sutil transição observada na alegria do estudante, que vai da constatação do elo existe entre verdade e beleza, no passado e no presente, à expectativa de que um jovem de vinte e dois anos, quanto à possibilidade de realização pessoal. [...] Tchekhov, o dramaturgo-psicólogo mais perspicaz depois de Shakespeare, escreve aqui um sombrio conto lírico, versado sobre sofrimento e transformação. Tudo em “O estudante”, exceto o que se passa na mente do protagonista, é absolutamente pequeno. Talvez a transformação irracional de uma alegria impessoal e de esperança pessoal, em meio ao frio e à necessidade, e, ainda, as lágrimas da traição tenham comovido Tchekhov.

“A dama e o cachorrinho”. O conto reverbera durante muito tempo. Gurov e Ana transformam-se ao longo do relato, mas a mudança não é, necessariamente, para melhor. Nada que um possa fazer pelo outro trará qualquer redenção; o que, então, resgata a história dos dois da rotina entediante? Até que ponto a história dos dois difere de outras tantas malfadadas histórias de adultério?

Não seria devido ao interesse que os dois personagens suscitam, como poderá constatar qualquer leitor; Gurov e Ana não têm nada de extraordinário. Ele é como qualquer homem mulherengo, ela, como qualquer mulher chorosa. A arte de Tchekhov jamais é tão enigmática quanto nesse conto, em que seu talento é, simultaneamente, visível e indefinível. Não resta dúvida, Ana está apaixonada, embora Gurov não seja digno de amor.  Jamais sabemos como avaliar a melancólica Ana. O que se passa entre os amantes é apresentado por Tchekhov com tamanho distanciamento que, embora não nos falte informação, falta-nos capacidade de discernir e julgar. O conto é de um universalismo estranho e lacônico.

Em Trigorin, na peça, A gaivota, Tchekhov parodia a si mesmo apaixonado; a meu ver, Gurov, é autoparódia ainda mais ousada. Não simpatizamos com Gurov, e bem gostaríamos de ver Ana parar de chorar, mas não temos como descartar a história dos dois, pois é a nossa também.
Referindo-se a Tchekhov, Gorki afirma: “Ele era capaz de revelar o humor trágico inerente à banalidade”. A asserção pode parecer ingênua, mas o grande poder de Tchekhov é causar, no leitor, a impressão de estar, finalmente, diante da verdade sobre a constante mescla de sofrimento banal e humor trágico que caracteriza a existência humana. Shakespeare foi, para Tchekhov (e para todos nós), a autoridade máxima em humor trágico, mas o banal inexiste em Shakespeare, mesmo quando compõe paródia ou farsa. 

Fotografia: Henri Cartier-Bresson

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Steven Pinker



O mundo tem se tornado pior ou melhor?

Nascemos em um mundo impiedoso, encarando chances adversas contra a ordem da vida e em risco constante de desmoronar. Fomos moldados por um processo cruelmente competitivo. Somos feitos de vigas tortas, vulneráveis à ilusão, centrados em nós mesmos, e, às vezes, de uma estupidez impressionante.

Ainda assim a natureza humana tem sido abençoada por recursos que abrem espaço para uma espécie de redenção. Somos dotados do poder de combinar ideias recursivamente, de pensar sobre nossos pensamentos. Temos o instinto da linguagem, que nos permite compartilhar os frutos de nossa ingenuidade e experiência. Somos aprofundados pela capacidade de ter simpatia, pena, imaginação, compaixão, comiseração. Esses talentos encontraram formas de intensificar seu próprio poder. O escopo da linguagem foi ampliado pela palavra escrita, impressa e digital. Nosso círculo de simpatia tem se expandido pela história, jornalismo e narrativas visuais. E nossas débeis capacidades foram multiplicadas pelas normas e instituições da razão, curiosidade intelectual, debate aberto, ceticismo da autoridade e dogma e pelo ônus da prova para verificar ideias confrontando-as com a realidade.

À medida que a espiral da melhoria recursiva ganha ímpeto, nós colecionamos vitórias contra as forças que nos desencorajam, notadamente as partes mais obscuras da nossa natureza. Penetramos os mistérios do cosmos, inclusive a vida e a mente. Vivemos mais, sofremos menos, aprendemos mais, nos tornamos mais inteligentes e desfrutamos mais de pequenos prazeres e experiências enriquecedoras. Poucos de nós são mortos, assaltados, escravizados, explorados ou oprimidos por outros. A partir de poucos oásis, crescem os territórios com paz e prosperidade e um dia podem abarcar o mundo. Restam muito sofrimento e perigos enormes mas foram enunciadas ideias sobre como reduzi-los, e ainda existem infinitas outras para serem concebidas.

Nunca teremos um mundo perfeito, e seria perigoso buscar um. Mas não há limite para as melhorias que podemos alcançar se continuarmos a aplicar o conhecimento para aprimorar o crescimento humano. Essa história heroica não é só mais um mito. Mitos são ficção, mas essa é verdadeira. Verdadeira até onde sabemos, que é a única verdade que podemos ter. Conforme aprendemos mais, podemos mostrar quais partes da história permanecem verdadeiras e quais são falsas, segundo qualquer uma delas pode ser e qualquer uma pode se tornar.

E essa história não pertence a qualquer tribo, mas a toda a humanidade, a qualquer criatura consciente, com o poder da razão e o desejo de persistir em seu ser, pois requer apenas a convicção de que a vida é melhor que a morte, a saúde é melhor que a doença, a abundância é melhor que a necessidade, a liberdade é melhor que a coerção, a felicidade é melhor que o sofrimento e o conhecimento é melhor que a ignorância e a superstição.


Fotografia: Henri Cartier-Bresson


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Robert L. Leahy



O que a evolução pode ensinar sobre a ansiedade?

Por que somos tão ansiosos? Como os nossos medos irracionais se encaixam no quadro evolutivo? Por que não conseguimos nos desligar à noite e não dormimos bem? Por que nos preocupamos com coisas sobre as quais não podemos fazer nada a respeito, pensamos sobre erros passados, ficamos obcecados com o que as outras pessoas pensam de nós, estabelecemos padrões – para nós mesmos – que nos entristecem, criamos cenários futuros terríveis a partir do nada, paralisamo-nos por causa de nossos próprios medos de modo que não conseguimos pensar ou agir com eficácia? Por que nossas vidas pessoais são, com tanta frequência, uma bagunça, mesmo quando nossa eficiência, como espécie, nos dá um predomínio sem precedentes sobre a natureza? [...]

A ansiedade foi umas principais ferramentas para a sobrevivência. Foi simplesmente a maneira de a natureza instilar a prudência em nós. [...] Embora a linguagem tenha nos dado ferramentas, as emoções eram ainda a força motriz do comportamento humano. E a ansiedade foi uma das principais emoções. [...] Em geral, muitos dos transtornos de ansiedade que experimentamos hoje têm sua origem nos medos programados em nós por nossa história evolutiva. [...] A evolução, portanto, tende a favorecer a precaução: ela quer que sejamos supercuidadosos, constantemente alertas ao perigo. Ela nos ensina a não deixarmos de ser vigilantes só porque um perigo que imaginamos não veio a se concretizar.

Isso é fundamental para nossa compreensão da ansiedade. O que nós pensamos ser um “transtorno” de ansiedade – um peculiar desvio da norma – não é uma aberração mas simplesmente o resultado natural de nossa história evolutiva. A evolução “instalou”, para isso, um software em nosso cérebro, como um mecanismo de sobrevivência. O problema não está em nós, mas na vida que levamos – no fato de ela ter mudado muito drasticamente em relação à vida que levávamos na savana ou na floresta. Ironicamente, o problema é que nosso ambiente é mais seguro agora, e nossos medos são, então, desnecessários. Eles não nos protegem tanto quanto inibem nossa fruição da vida. É o medo certo no momento errado. O que era perigoso antigamente pode não ser hoje, ao passo que um comportamento antes inconsequente pode hoje ser seriamente prejudicial à nossa capacidade de funcionar em nossas vidas econômicas, sociais e pessoais. Os padrões que nos protegiam na vida selvagem não mais têm sentido no mercado de trabalho, em casa ou no bairro. O que se pede a nós é que modifiquemos nossos instintos primitivos de modo adequado à nossa realidade de hoje.

Isso é possível? Por meio do exame de algumas maneiras pelas quais a ansiedade limita e controla nossas vidas possamos chegar a uma melhor compreensão de como lidar com ela. Ao conquistarmos a consciência de como o medo opera em nossas vidas começamos a afrouxar a pressão sobre nós. Começamos a trabalhar com nosso medo de uma maneira produtiva, que tira vantagem de nossa capacidade de aprender, de nos adaptar a novas circunstâncias. [...] Há uma coerência subjacente ao processo pelo qual o medo se torna um fator preponderante. Da mesma maneira, há uma coerência subjacente ao processo pelo qual podemos neutralizar esse medo.

Nossas mentes são como filtros pelos quais vemos a realidade. Elas foram programadas por nossa história evolutiva e por nosso condicionamento de toda uma vida para enviar-nos mensagens constantes, não raro irracionais, sobre a natureza dessa realidade, e também instruções sobre como responder. Quando experimentamos a ansiedade, a mensagem é que nada é seguro. As instruções que acompanham a mensagem dizem que há algo fundamental que devemos fazer (ou não fazer) para ficarmos seguros. Mas, e se nada disso for verdadeiro? E se a mensagem for falsa e as instruções contraproducentes? Afinal de contas, a mensagem é simplesmente uma mensagem – não precisamos acreditar nela. Ao colocarmos em questão a mensagem do medo, ao questionarmos sua verdade, ao colocarmos tal mensagem à luz da experiência, enfraquecemos seu poder de controlar nossos pensamentos e nosso comportamento. Abrimo-nos, então, para verdadeiro potencial e para nossa verdadeira liberdade.     


Fotografia: James Natchwey

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Leonard Mlodinow



In-groups e out-groups

Todos os grupos ... desenvolvem uma forma de viver, como com códigos e convicções característicos.
Gordon Allport

Os seres humanos sempre viveram em bandos. Se uma competição num cabo de guerra gera hostilidade intertribal, imagine a rivalidade entre bandos de homens com bocas demais para alimentar e poucas carcaças de elefante para comer. Hoje pensamos na guerra como algo em parte baseado em ideologia, mas a necessidade de comida ou água é a mais forte ideologia. Bem antes de inventarem comunismo, democracia ou teorias de superioridade racial, grupos de pessoas que viviam perto lutavam com regularidade e até massacravam uns aos outros motivados pela competição por recursos. Nesse contexto, um sentido altamente desenvolvido de “nós contra eles” teria sido crucial para a sobrevivência.

Havia também um sentido de “nós contra eles” dentro bandos, pois os seres humanos pré-históricos formavam alianças e coalizões no interior de seus próprios grupos, como aconteceu com outras espécies de hominídeos. [...] Assim, se a capacidade de captar pistas que sinalizem alianças políticas é importante no trabalho contemporâneo, na pré-história isso era vital, pois a ser demitido era equivalente a ser morto.

Os cientistas chamam qualquer grupo de que as pessoas se sentem parte de um “in-group”, e qualquer grupo que as exclui de “out-group”. Diferentemente do uso coloquial, no sentido técnico, in-group e out-group se referem não à popularidade dos que pertencem a grupos, mas apenas à distinção “nós-eles”. É uma diferença importante, porque pensamos de forma diversa sobre membros de grupos de que somos parte e de grupos dos quais não participamos; também apresentamos comportamentos diferentes em relação a eles. Fazemos isso de forma automática, independentemente de estarmos ou não conscientes da intenção de discriminar. [...] O fato de nos posicionarmos em categorias in-group e out-group tem um efeito na maneira como vemos nosso próprio lugar no mundo e como encaramos os outros.

Todos pertencemos a muitos grupos. Por conseguinte, a maneira como nos identificamos muda de situação para situação. Em diferentes ocasiões, a mesma pessoa pode se ver como mulher, executiva, funcionária da Disney, brasileira ou mãe, dependendo do que for relevante – ou do que a fizer se sentir bem no momento. Alterar a afiliação do grupo que adotamos em dado momento é um truque que todos usamos, e ajuda a manter uma aparência simpática, pois os in-groups com que nos identificamos são um importante componente de nossa autoimagem.

[...] As pessoas estão dispostas a fazerem grandes sacrifícios financeiros para ajudar a estabelecer a sensação de pertencer a um in-group de que desejam participar. – Disposição de abrir mão de dinheiro em troca do prestígio de uma identidade grupal cobiçada. [...] Quando penamos em nós mesmos como pertencentes a um clube de campo exclusivo, ocupando um cargo executivo, ou inseridos numa classe de usuário de computadores, os pontos de vista de outros no grupo infiltram-se nos nossos pensamentos e dão cores à maneira como percebemos o mundo. Os psicólogos chamam essa visão de “normas grupais”.

Quando nos vemos como membro de um grupo, automaticamente todos ficam marcados com um “nós” ou um “eles”. Alguns de nossos in-groups, como nossa família, os colegas de trabalho ou os parceiros de bicicleta, incluem outras pessoas que conhecemos. Outros, como mulheres, hispânicos ou cidadãos idosos, são grupos mais amplos definidos pela sociedade, que a eles conferem características. Porém, seja qual for o grupo a que pertencermos, por definição ele consiste em pessoas que percebemos como tendo alguma coisa em comum conosco. Essa experiência partilhada, ou identidade, faz com que vejamos nossa fé como algo interligado com a fé do grupo, e os sucessos e fracassos como também nossos. É natural, então, que tenhamos um lugar especial em nossos corações para os membros do grupo a que pertencemos.

Podemos não gostar muito das pessoas de maneira geral, mas nosso ser subliminar tende a gostar mais dos companheiros de nosso in-group. [...] No que se refere a religião, raça, nacionalidade, uso de computadores ou à nossa unidade operacional de trabalho, em geral, temos uma tendência inata de preferir os membros do nosso in-group. Estudos mostram que pertencer a um grupo em comum pode até superar atributos pessoais negativos. Como enunciou um pesquisador: “Podemos gostar de pessoas como membros do grupo mesmo quando não gostamos delas como indivíduos”.

Esta constatação – de que gostamos mais de pessoas apenas por estamos associados a elas de alguma forma – tem um corolário natural: também tendemos a favorecer membros do nosso grupo nos relacionamentos sociais e nos negócios, e a avaliarmos o trabalho e os produtos deles de maneira mais favorável do que faríamos em outras circunstâncias, mesmo quando pensamos que estamos tratando todo mundo de forma igualitária.

Outra maneira com que somos afetados pelas diferenças entre in-groups e out-groups é que tendemos a pensar nos membros do nosso grupo como mais diversificados e complexos que os do out-group. [...] Pode parecer natural observar mais diversificação nos grupos a que pertencemos, pois, em geral conhecemos melhor seus integrantes como indivíduos. [...] A sensação que temos de que nosso grupo é mais diversificado que o out-group não depende de conhecer melhor nosso in-group. Na verdade, a categorização das pessoas em in-groups e out-groups já é suficiente para acionar esse julgamento

Aliás, nossos sentimentos especiais em relação ao grupo a que pertencemos persistem mesmo quando pesquisadores separam artificialmente estranhos em in-groups e out-groups aleatórios. Quando Marco Antônio se dirigiu à multidão depois do assassinato de César e declarou, na versão de Shakespeare, “Concidadãos, romanos, bons amigos, concedei-me atenção”, ele na verdade estava dizendo: “Membros in-group, membros in-group, membros in-group...” Um apelo inteligente.    

Fotografia: Werner Bischof



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Mariano Sigman




A  natureza do otimista

O otimista fará uma cesta sempre que arremessar a bola, ganhará todas as finais que disputar, nunca perderá o emprego e poderá fazer sexo sem proteção ou dirigir de maneira imprudente porque, afinal de contas, os riscos não lhe competem. O estranho é que o otimismo sobreviverá apesar da evidência em contrário que recebemos diariamente. O otimismo é nada mais nada menos do que essa obstinação.

Parte disso é obra do esquecimento seletivo que todos experimentamos. Cada segunda-feira, cada aniversário, cada 1 de janeiro se enchem de promessa as repetidas; cada amor é o amor de nossas vidas. [...] Cada uma dessas afirmações ignora completamente que já houve outras tantas segundas-feiras e outros tantos desenganos. Somos realmente tão cegos ante a evidência? Que mecanismos do cérebro encaram esse otimismo fundamentalista? E o que fazemos com o otimismo persistente, se entendermos que ele se cimenta em uma ilusão?

Um dos modelos mais comuns de aprendizagem humana é o erro de previsão. É simples e intuitivo. A primeira premissa, para cada ação que realizamos, desde a mais mundana à mais complexa, é que construímos um modelo interno, uma espécie de prelúdio simulado daquilo que vai suceder.

Esse erro de previsão expressa a diferença entre o que esperamos e o que observamos na realidade, e isso se codifica em um circuito neuronal nos gânglios basais que gera dopamina. A dopamina é um neurotransmissor que funciona, entre outras coisas, como mensageiro da surpresa, espalhando-se por diferentes estruturas cerebrais. O sinal dopaminérgico reconhece a dissonância entre o previsto e o encontrado, e é o combustível vital para a aprendizagem, pois os circuitos irrigados por dopamina se tornam maleáveis e predispostos à mudança. Na ausência de dopamina, em contraposição, os circuitos neuronais são em sua maioria rígidos e pouco maleáveis. 

Se o cérebro não gerasse um sinal de dissonância quando a realidade é pior do que esperamos, renovaríamos indefinidamente nossas esperanças.

Em sua grande maioria, as pessoas pressupõem que as possibilidades de que lhes aconteça algo ruim são muito menores do que mostram as estatísticas.

A cada vez que descobrimos um conhecimento desejável ou benéfico, ativa-se um grupo de neurônios em uma pequena região do córtex pré-frontal esquerdo chamado giro frontal inferior. Em contraposição, quando recebemos uma evidência não desejável, ativa-se outro grupo de neurônios na região homóloga do hemisfério direito. Entre essas regiões cerebrais se estabelece uma espécie de balança entre as boas e as más notícias. Essa balança, porém, tem duas armadilhas: a primeira é que ela dá muito mais peso às boas notícias do que às más, o que, em média, cria uma tendência para o otimismo; e a segunda – a mais interessante – é que a inclinação da balança muda em cada indivíduo e revela a maquinaria do otimismo.

A ativação dos neurônios do giro frontal do hemisfério esquerdo é semelhante em todos nós, quando descobrimos que o mundo é melhor do que pensávamos. Em contraposição, a ativação do giro frontal do hemisfério direito varia em um nível amplo de indivíduo para indivíduo, nos casos em que ficamos sabendo que o mundo é pior do que acreditávamos. Nas pessoas mais otimistas, essa ativação é atenuada, como se literalmente elas fizessem ouvidos moucos às más notícias.  Nas mais pessimistas, ocorre o oposto: a ativação está amplificada, acentua e multiplica o impacto dessa informação negativa. Aí está a receita biológica que separa os otimistas dos pessimistas: não é a capacidade que eles têm de valorizar o bom, mas suas possibilidades de ignorar e esquecer o ruim.

razões instintivas para alimentar um otimismo cândido, o qual se revela um motor para a ação, a aventura e a inovação. Sem o otimismo não teríamos ido à Lua nem voltado de lá; e ele também está associado de uma maneira bastante genérica com uma saúde melhor e uma vida mais satisfatória. Poderíamos pensar então que o otimismo é uma espécie de pequena loucura que nos impele a fazer coisas que de outro modo não faríamos. Sua face oposta, o pessimismo, é o prelúdio da inação e, na versão crônica, da depressão.  [...] O otimista conhece os riscos mas age como se não o afetassem.  Sentem-se excetuado da estatística e isso, claro, é falso: se todos formos a exceção, a regra deixa de existir. Esse otimismo expandido – que não costuma ser reconhecido como tal – pode acarretar consequências fatais, mas também evitáveis. 

Fotografia: James Nachtwey

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Mariano Sigman



Crer, saber e confiar

Ao tomar uma decisão, além de executar a opção escolhida, o cérebro gera uma crença. É o que percebemos como confiança ou convicção quanto ao que fazemos.  [...] Como se constrói a confiança? Por que algumas pessoas sentem um excesso permanente de confiança, façam o que fizerem, e outras, ao contrário, vivem na dúvida?

O estudo científico a confiança – ou o da dúvida – é particularmente sedutor porque abre uma janela para subjetividade: já não é o estudo de nossos atos observáveis, mas de nossas crenças privadas. Sob uma perspectiva meramente pragmática, tampouco é um assunto menor, pois estarmos seguros ou não de nossas ações define nosso modo de ser.

Vícios e rastros da confiança

A forma pela qual cada pessoa constrói a confiança é quase como uma impressão digital. Alguns distribuem a confiança com matizes intermediários; outros, ao contrário, tendem a expressá-la em estados extremos de dúvida ou convicção.

Alguém com um sistema preciso de confiança julgar bem seu próprio conhecimento e sabe quando apostar e quando não. A confiança é, então, uma janela para o próprio conhecimento. [...] A precisão do sistema de confiança é um traço pessoal, quase como uma estrutura ou a cor dos olhos. Mas, à diferença desses traços físicos, há um certo espaço para modificar esse rastro do pensamento. E, como se poderia esperar de um traço característico da identidade – e que de certo modo a define –, ele tem uma assinatura na estrutura anatômica do cérebro. 0s que possuem sistemas de confiança mais precisos têm maior quantidade de conexões.

Essa diferença na atividade cerebral entre os que têm um sistema preciso de confiança e os que não o têm só se observa quando uma pessoa dirige a atenção para seu mundo interior – por exemplo, concentrando-se na respiração –, e não quando a atenção está focalizada no mundo exterior. Isso estabelece uma ponte entre duas variáveis que em princípio quase não estavam relacionadas: a qualidade da confiança e o conhecimento de nosso próprio corpo. Ambas coincidem em dirigir o olhar para o mundo interior. E, assim, sugere-se que uma maneira natural de melhorar o sistema de confiança é aprender a observar e focalizar nosso próprio corpo.




Fotografia: Justyna Mielnikiewicz

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Leonard Mlodinow




Classificação de pessoas e coisas

Nós ficaríamos ofuscados se tivéssemos de tratar tudo o que vimos, toda a informação visual, como um elemento em separado; e se tivéssemos de desvendar de novo as conexões todas as vezes que abríssemos os olhos.
Gary Klein

      A classificação é uma estratégia que nosso cérebro usa para processar informações com mais eficiência. Cada objeto ou pessoa que encontramos no mundo é único, mas nós não funcionaríamos muito bem se os percebêssemos dessa maneira. Não temos tempo nem capacidade mental para observar e considerar cada detalhe de todos os itens de nosso ambiente. Por isso utilizamos alguns traços salientes que conseguimos observar para situar o objeto em um categoria; depois baseamos nossa avaliação do objeto na categoria e não no próprio objeto. Ao mantermos um conjunto de categorias, conseguimos acelerar nossas reações.

    Pensar em termos de categorias genéricas, como “ursos”, “cadeiras” e “motoristas erráticos”, nos ajuda a navegar pelo nosso ambiente com mais velocidade e eficiência; primeiro entendemos o significado bruto de um objeto, depois nos preocupamos com sua individualidade.

         Classificar é um dos atos mentais mais importantes que desempenhamos, e nós fazemos isso o tempo todo. Até nossa capacidade de ler depende de nossa capacidade de classificar; o domínio da leitura exige o agrupamento de símbolos semelhantes, como b e d, em categorias de letras diferentes. [...] Em geral fazemos isso de maneira rápida e sem esforço consciente.

    Uma das principais maneiras de classificar é maximizar a importância de certas diferenças e minimizar a relevância de outras.  Mas a seta do nosso raciocínio pode apontar para o outro lado. Se concluirmos que um conjunto de objetos pertence a um grupo, e um segundo conjunto de objetos pertence a outro, podemos perceber os que estão dentro do mesmo grupo como mais semelhantes do que na verdade são – e os que estão em grupos diferentes como menos semelhantes do que na verdade são. O mero posicionamento de objetos em grupos pode afetar nosso julgamento desses objetos. Portanto, embora a classificação seja um atalho crucial e natural, como outros truques de sobrevivência do nosso cérebro, ele também tem suas desvantagens.
  
      Distorções causadas pelas categorizações [...] Quando categorizamos, nós polarizamos. Coisas que por uma ou outra razão arbitrária são identificadas como pertencentes à mesma categoria parecem mais semelhantes entre si do que realmente são, enquanto as catalogadas em diferentes categorias parecem mais distintas do que são na verdade. A mente inconsciente transforma diferenças difusas e nuances sutis em distinções nítidas. Seu objetivo é apagar detalhes irrelevantes enquanto mantém a informação importante. Quando isso é feito de forma bem-sucedida, nós simplificamos nosso ambiente e tornamos a navegação mais fácil e rápida. Quando isso não é feito da forma inadequada, distorcemos nossas percepções, às vezes com resultados prejudiciais para os outros ou até para nós mesmos .  Isso vale em especial quando nossa tendência a classificar afeta nossa visão acerca de outros seres humanos.

  Lippmann escreveu: “O ambiente real é na verdade grande, complexo e transitório demais para um conhecimento direto.  ... Embora tenhamos de agir nesse ambiente, precisamos reconstruí-lo em um modelo mais simples antes de conseguir lidar com ele ”.

    Tipos e personagens normais eram (e ainda são) um resumo conveniente – nós os reconhecemos de pronto -, mas seu uso amplifica e exagera os traços de personalidade associados às categorias que representam.

         Gostamos de pensar que julgamos as pessoas como indivíduos, e às vezes tentamos de forma consciente avaliar os outros com base em suas características específicas. Em geral conseguimos. Mas, se não conhecemos bem uma pessoa, nossa mente pode procurar as respostas em sua categoria social. Em cada um desses casos, nossa mente subliminar pega os dados incompletos, usa o contexto ou outras pistas para completar a imagem, faz algumas deduções e produz um resultado algumas vezes exato, outras vezes não, mas sempre convincente. Nossa mente preenche as lacunas quando julgamos as pessoas, e a categoria a que a pessoa pertence é parte dos dados que usamos para fazer isso.

     Os vieses perceptivos de categorização estão na raiz do preconceito. Até segunda metade dos anos 1980, muitos psicólogos ainda viam a discriminação como um comportamento consciente e intencional, não como algo surgido naturalmente de processos cognitivos normais e inevitáveis, relacionados à propensão vital do cérebro para categorizar.  A estereotipagem inconsciente, ou “implícita”, é a regra, não a exceção. Julgar individualmente é complicado, e essa complexidade exige recursos mentais, o que retarda o processo. ... Esse é o ponto crucial: quando o rotulamento segue suas associações mentais (vieses), o processo se acelera, mas, quando mistura as associações, o processo fica mais lento. 

         Pesquisadores mostraram aos participantes imagens de rostos brancos, negros, palavras hostis (horrível, fracasso, maligno, desagradável e assim por diante), e palavras positivas (paz, alegria, amor, felicidade e assim por diante). Se você fizer associações a favor de brancos ou contra negros, levará mais tempo para separar palavras e imagens quando tiver de relacionar palavras positivas com a categoria negra e palavras hostis para a categoria branca do que quando rostos negros e palavras hostis entrarem numa mesma caixa.  Cerca de 70% dos que passaram pelo teste mostraram essa associação pró-branca, inclusive muitos que ficaram (conscientemente) surpresos ao saber que mostraram tais atitudes. Aliás, até muitos negros mostraram um viés inconsciente pró-brancos no IAT. É difícil não fazer isso quando se vive numa cultura que incorpora estereótipos negativos envolvendo afro-americanos.

    Ainda que sua avaliação de outra pessoa possa parecer racional e deliberada, ela é informada por processos automáticos e inconscientes – os tipos de processo reguladores da emoção sediados no córtex pré-frontal ventromedial. Aliás, lesões no VMPC costumam suprimir a estereotipagem inconsciente de gênero.

   Como reconheceu Lippmann, não podemos evitar a absorção mental de categorias definidas pela sociedade em que vivemos. Elas permeiam notícias, programação da TV, filmes, todos os aspectos de nossa cultura. Pelo fato de nosso cérebro categorizar naturalmente, somos vulneráveis a agir de acordo com atitudes que essas categorias representam.

    A tendência a classificar até as pessoas em geral é uma benção. Ela permite que compreendamos a diferença entre motorista de ônibus e passageiro, balconista e comprador, recepcionista e médico, e entre outros estranhos com quem interagimos, sem ter de parar para repensar mais uma vez sobre o papel de cada um durante cada encontro. O desafio não é deixar de categorizar, mas como se tornar ciente de quando fazemos isso e conseguir ver as pessoas individualmente, como elas são.

         As categorias saturam tudo que elas contêm com o mesmo “sabor ideal ou emocional ”.

     A cultura agora chegou ao ponto de a maioria das pessoas considerar errado negar intencionalmente uma oportunidade a alguém em decorrência de traços de caráter inferidos a partir de sua identidade classificatória. Mas estamos apenas começando a lidar com esses vieses inconscientes. ... O desafio apresentado pela ciência à comunidade legal é ir além disso, abordar o tema mais difícil da discriminação inconsciente, do viés sutil e oculto até para quem o exerce. ... Se estivermos cônscios de nossos vieses e motivados para superá-los, conseguiremos fazer isso.

     Nosso juízo inconsciente, amplamente apoiado em categorias que atribuímos às pessoas, está sempre em competição com nosso pensamento mais deliberativo e analítico, que pode ver essas pessoas como indivíduos. À medida que os dois lados de nossa mente travam essa batalha, o grau com que consideramos uma pessoa como indivíduo versos membro de um grupo genérico varia em grande escala.

       A moral da história é que é preciso esforço se quisermos superar vieses inconscientes. Uma boa maneira é olharmos com mais atenção quem estamos julgando ... nosso conhecimento pessoal de um membro específico ou de uma categoria pode atropelar nosso viés categórico, porém, mais importante é que, com o tempo, o contato repetido com membros da categoria pode agir como antídoto para os traços negativos que a sociedade atribui ás pessoas dessa categoria.  ... A experiência pode atropelar os preconceitos.

  Quanto mais interagimos com outros indivíduos e nos expomos às suas características particulares, mais munição nossa mente tem para contra-atacar nossa tendência a estereotipar, pois traços que atribuímos às categorias são produto não só das suposições da sociedade como de nossa própria experiência.
        Os cientistas dizem que nós não teríamos sobrevivido como espécie sem nossa capacidade de categorizar, mas eu vou mais adiante: sem ela, mal se consegue sobreviver como indivíduo.





 Fotografia: James Nachtwey