segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Czeslaw Miloz




Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é também quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Péter Kántor




Do que se necessita para a felicidade?

Posto assim,
não muito:
dois seres,
uma garrafa de vinho,
queijo do país,
sal, pão,
um quarto,
uma janela e uma porta,
lá fora, que chova,
chuva de longos fios,
e claro, cigarros.
Mas, ainda assim, de muitas noites
apenas uma o duas vezes resulta,
como os grandes poemas de grandes poetas.
O mais é preparatório,
ou epílogo,
dor de cabeça,
ou espasmo de riso,
não se pode, mas deve-se,
é demasiado, mas insuficiente.

Edwin Morgan




Quando você partir

Quando você partir,
se você partir,
e eu tiver vontade de morrer,
não há nada que me salvaria
mais do que o tempo
que você adormeceu nos meus braços
com uma confianca tão suave
deixei o quarto escurecendo
beber a noite, até
que o repouso, ou a chuva
levemente despertaram você.
Perguntei se tinha ouvido a chuva no seu sonho
E meio sonhando você disse apenas, eu te amo.

Mia Couto



Solidão 

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

sábado, 20 de novembro de 2010

Edwin Morgan



Morangos


Nunca houve morangos
Como os que tivemos
Naquela tarde tórrida
Sentados nos degraus
Da porta-janela aberta
de frente um para o outro
seus joelhos encostados nos meus
os pratos azuis em nossos colos
os morangos brilhando
na luz quente do sol
nós os mergulhamos em acúçar
olhando um para o outro
sem apressar a festa
para chegar ao fim
os pratos vazios
deitados sobre a pedra juntos
com os dois garfos cruzados
e eu me aproximei de você
dócil naquele ar
nos meus braços
abandonado como uma criança
da sua boca ávida
o gosto de morangos
na minha memória
inclina-se de volta
deixe-me amá-lo


deixe o sol bater
sobre o nosso esquecimento
uma hora de tudo
o calor intenso
e o relâmpago de verão
nas colinas de Kilpatrick


deixe a tempestade lavar os pratos

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Só Jóng-Ju





Junto ao Crisântemo


Terá sido para abrir este crisântemo
que o cuco chorou tanto
desde a primavera...

E terá sido para abrir este crisântemo
que o trovão chorou tanto
dentro de nuvens negras...

Flor, pareces a minha amada irmã
de volta agora diante do espelho,
após a longa juventude de longínquas sendas
de peito aflito de saudade e anseio

Terá sido para as tuas douradas pétalas se abrirem
que na noite passada a geada gelou tão fria
e eu não pude nem pegar no sono...

domingo, 7 de novembro de 2010

Jorge Luis Borges

Uma oração


Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Walt Whitman





Folhas de Relva

Vadie na relva comigo... solte o nó da garganta,
Nada de palavras música rima alguma... nem bons-costumes ou sermões,
          nem mesmo os melhores,
Só quero sua calma, o zumzum de sua voz valvulada.

Lembro da gente deitado em junho, numa transparente manhã de verão;
Você pousou sua cabeça sobre os meus quadris e delicadamente veio pra cima de mim,
E desabotoou a camisa do meu peito, e mergulhou sua língua no meu coração nu,
E estendeu a mão até tocar minha barba, depois até tocar meus pés.

De repente se ergueram e grassaram à minha volta a paz e a sabedoria que superam
          toda arte e argumento desta terra;

domingo, 17 de outubro de 2010

Mia Couto




A despedideira

Quando ele me dirigiu a palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negócio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.

Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira-vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para a gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez e voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente, todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Rainer Maria Rilke





Como outras pessoas arrasadas pelo sofrimento podem alcançar o profundo e fértil solo para a grande paciência? Já me fiz essa pergunta várias vezes, sem ter chegado a uma explicação. Mas é preciso admitir que dificilmente há outra coisa que se ofereça ao nosso olhar em tão variadas manifestações - do exemplo banal até a mais inesquecível forma - como o fato de que a vida, nas circunstâncias mais insultantes, tormentosas, até mesmo mortais, vicejou; de que pessoas foram capazes de amá-la quando ela era horrível em toda parte. E até mesmo o fato de que indivíduos que haviam levado um destino radiante vivido com indiferença, sem muito prazer e participação, desfraldaram a alegria e a segurança de seu coração quando, após uma queda repentina de sua situação no desespero, viram-se doentes, maltratados e no fundo de prisões insondáveis; de que só então tiveram direito de realmente conhecer e desfrutar essa alegria e segurança. Eu, quando pude e com grande zelo, fui no encalço de tais histórias de vida, e, apesar de não ter visto brilhar em nenhuma delas o próprio segredo que torna possíveis tais sobrevivências colossais, vivo na constante convicção de que elas ocorrem o tempo todo.


domingo, 19 de setembro de 2010

Voltaire

Cândido

"... cem vezes quis se matar, porém ainda amava a vida. Essa ridícula fraqueza talvez seja uma de nossas mais funestas aptidões: pois haverá algo mais tolo do que querer carregar continuamente um fardo que se quer jogar por terra? Ter horror ao seu ser e apegar-se a ele? Enfim, acariciar a serpente que nos devora, até que nos tenha comido o coração?"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Jens Peter Jacobsen



Niels Lyhne

- Não posso ajudá-lo, senhor Bigum, o senhor não representa para mim nada do que deseja ser; se isso o faz infeliz, seja infeliz; se isso o faz sofrer, sofra; é preciso que existam homens que sofram. Quando alguém faz de uma criatura humana o seu Deus e árbitro do seu destino, é preciso inclinar-se ante os decretos do ídolo. Mas é imprudente forjar desse modo uma divindade e entregar-lhe a alma; pois existem deuses que não querem descer  do seu pedestal. Seja razoável, senhor Bigum; seu ídolo é tão pequeno, tão pouco digno de ser adorado; esqueça-o... e seja feliz com uma das moças do lugar.
[...]
Pela janelinha da água-furtada, Niels o observava. Tinha assistido a cena do princípio ao fim, e uma expressão de quase terror estampava-se em sua fisionomia, o corpo sacudido por um tremor nervoso. Pela primeira vez a vida lhe fazia medo, compreendia que quando um homem é condenado a sofrer, não se trata de poesia nem de uma simples ameaça; trata-se de ser arrastado à câmara de torturas e ser de fato torturado, e não há, no último momento, salvação como nos contos de aventuras nem despertar súbito como nos pesadelos.

Eis o que ele compreendeu, cheio de medo e de pressentimento.

domingo, 29 de agosto de 2010

jorge luis borges

ensaio autobiográfico

Em minha idade, deve-se ter consciência dos próprios limites, pois esse conhecimento talvez possa levar à felicidade. Quando era jovem, pensava que a literatura era um jogo de variações engenhosas e surpreendentes. Agora que encontrei minha própria voz, parece-me que o fato de retocar e voltar a corrigir meus rascunhos não os melhora muito nem os prejudica. Isso, naturalmente, é um pecado contra uma das principais tendências da literatura desse século - a vaidade de reescrever -, que levou um homem como Joyce a publicar desconexos fragmentos, ostentosamente intitulados Work in progress [ Obra em curso]. 
Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e a fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Kim Tchun-su





Prelúdio para uma Flor

Eu no momento sou um bicho perigoso
Ao toque dos meus dedos você se transforma
na remota escuridão do incógnito

Na ponta trêmula do ramo da existência
você floresce e emudece
sem ao menos um nome

E nessa escuridão anônima que vem umedecendo o
                            canto dos olhos
eu ilumino um cálice de memória

e choro noite adentro
Aos poucos, então, meu pranto se transforma num
                               repentino remoinho da madrugada

e sacode a torre
E quando finalmente permeia até a pedra,
torna-se ouro

...de véus sobre o rosto, minha noiva!

sábado, 21 de agosto de 2010

Walt Whitman

FROM “I SING THE BODY ELECTRIC”

I knew a man, a common farmer, the father of five sons,
And in them the father of sons, and in them the father of sons.

This man was of wonderful vigor, calmness, beauty of person,
The shape of his head, the pale yellow and white of his hair and
beard, the immensurable meaning of his black eyes, the
richness and breadth of his manners.
These I used to go and visit him to see, he was wise also,
He was six feet tall, he was over eighty years old, his sons were
massive, clean, bearded, tan-faced, handsome,
They and his doughters loved him, all who saw him loved him,
They did not love him by allowance, they loved him with personal
love,
He drank water only, the blood show'd like scarlet through the
clear-brown skin of his face,
He was a frequent gunner, and fisher, he sail'd his boat himself,
he had a fine one presented to him by ship-joiner,
he had fowloing-pieces presented to him by men that loved him,
When he went with his five sons and many grand-sons to hunt or
fish, you would pick him out as the most beautiful and
vigorous of the gang,
You would wish long and long to be with him, you would wish to
sit by him in the boat that you and he might touch each other.

domingo, 15 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Feliz é aquele que, em seu luto pela morte de um ente querido, pode consagrar todas as lágrimas ao vazio, ao abandono, à privação daquele que se foi, pois mais penosos, mais amargos são os prantos que espiam a falta de ternura que os dias passados presenciaram contra aquele que agora está morto - e contra quem cometeram-se crimes irreparáveis. Retornam então as palavras duras, as respostas cuidadosamente envenenadas, a censura impiedosa e a cólera injustificada, e também os pensamentos hostis que não se externavam em palavras, os julgamentos precipitados que atravessaram o espírito, o dar de ombros discreto, e o riso oculto cheio de ironia e impaciência - voltam todos como flechas nocivas e cravam profundamente seus aguilhões no peito, seus aguilhões embotados, pois a ponta partida ficou no coração que não bate mais. Este não vive mais, nada mais pode reparar, nada. Agora há bastante amor em teu coração, mas agora é tarde; vai até o frio túmulo com teu coração agora generoso! Chega bem perto... Planta flores e tece coroas: nem por isso estarás mais perto do morto!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Roland Barthes




Ausência

7. Instalo-me sozinho, num café; alguns vêm me cumprimentar; sinto-me acolhido, requisitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente, evoco-o em mim mesmo para que ele me retenha na beira dessa complacência mundana que me espreita. Apelo para sua 'verdade'(para verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria de sedução com a qual me sinto resvalar. Torno a ausência do outro responsável por minha mundanidade: invoco sua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar o filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que me devolva 'a intimidade religiosa, a gravidade' do mundo amoroso.

8. Um koan budista diz: 'O mestre segura a cabeça do discípulo debaixo da água, durante muito, muito tempo; pouco a pouco as bolhas começam a se rarefazer; no  último momento, o mestre tira o discípulo, reanima-o: quando você desejar a verdade como desejou o ar, então saberá o que ela é.'
A ausência do outro segura minha cabeça debaixo da água; pouco a pouco, sufoco, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia que reconstituo minha 'verdade' e preparo o Intratável do amor.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Eu desprezo a imaginação. Quando todo o nosso ser anseia pelo coração de um homem, de que vale abrigar-se na câmara fria da imaginação? E quantas vezes isso não é tudo que nos é dado! E quantas vezes não devemos nos resignar a sermos adornadas pela fantasia daquele a quem amamos, que nos cinge a testa com uma auréola, cola-nos asas aos ombros e nos envolve numa túnica semeada de estrelas, e só nos julgas dignas de amor depois de nos termos revestido dessa fantasia, na qual nenhuma de nós assemelha a si mesma, porque esse disfarce nos incomoda e porque alguém nos perturba, alguém que se joga aos nossos pés e nos adora, em vez de nos tomar simplesmente como somos e desse modo simplesmente nos amar.
[...]
Essa adoração de que somos alvo, essa espécie de fanatismo no fundo é tirânica: somos obrigadas a nos amoldar ao ideal dos homens. Corta-se uma lasca do calcanhar, uma ponta do dedão!... Tudo aquilo em nós que não se adapta a essa imagem ideal deve ser suprimido - quando não pelo abafamento, pelo fato de que é ignorado, sistematicamente esquecido, qualquer expressão espontânea de nossa natureza é negada; por um lado aquilo que não nos é natural ou que não nos é peculiar, isso é freneticamente estimulado, é elevado às nuvens sempre na suposição de que possuímos em alto grau estas qualidades estranhas - e dessas qualidades é feita a pedra fundamental sobre a qual os homens edificam seu amor. Considero isso uma violência contra a natureza. Considero isso o mesmo que adestramento de animais. O amor do homem é o de um domador. E nós nos sujeitamos a isso; mesmo aquelas que não são amadas submetem-se junto com as outras - tão desprezível é a nossa fraqueza! 

Walt Whitman



I AM THE POET

I am the poet of reality
I say the earth is not an echo
Nor man an apparition;
But that all the things seen are real.
The witness and albic dawn of things equally real
I have split the earth and the hard coal and rocks and the solid bed of a sea
And went down to reconnoitre there a long time,
And bring back a report,
And I understand that those are positive and dense every one
And that what they seem to the child they are
And that the world is not joke,
Nor any part of it a sham.

sábado, 7 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen





Estava tão cansado de si mesmo, dos seus estéreis pensamentos e visões. A vida, um poema?... Não quando se passava a vida a poetar em vez de vivê-la. Como ficava oca, então, como ficava vazia, vazia, vazia! Essa perseguição constante do próprio eu, no rastro das próprias pegadas - e em círculo, naturalmente... Essa comédia simulada: fingir que se atira à corrente da vida e ao mesmo tempo ficar ali agarrado ao anzol, pescando-se a si próprio neste ou naquele curioso disfarce... Ah, se a vida quisesse submergi-lo... A vida, o amor, a paixão, de modo que ele não mais precisasse poetizá-la, porém apenas - em estado de poesia - vivê-la!
[...]
E contudo era lastimável a existência a meio pano, em águas calmas, com a terra à vista; viesse ao menos uma ventania, uma tempestade! Soubesse ele ao menos dirigir-se e desenrolaria todas as velas em direção ao alto mar da vida. E diria adeus aos dias monótonos; adeus, momentos de felicidade medíocre; adeus ainda, pálidas emoções, que deviam ser aquecidas pela poesia para poder brilhar um pouco; e os débeis sentimentos, que precisam ser envoltos em sonhos tépidos, e ainda assim perecem e frio, adeus! Tomarei o rumo de uma terra onde as sensações enrolam-se como lianas opulentas em todas as fibras do coração - uma floresta virgem; para cada ramo ressecado há vinte outros em flor, para cada um que floresce, mais cem que brotam...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Rainer Maria Rilke





Sobre Ironia


Não se deixe dominar por ela, sobretudo em momentos estéreis. Nos momentos criadores procure servir-se dela, como de mais um meio para agarrar a vida. Utilizada com pureza, ela também é pura e não nos deve envergonhar. Ao verificar, porém, que se familiariza demais com ela, temendo uma intimidade excessiva, volte-se para os objetos grandes e graves, diante dos quais ela se encolhe desajeitada. Busque o âmago das coisas, aonde a ironia nunca desce; e ao sentir-se destarte como que a beira do grandioso, examine ao mesmo tempo se essa concepção das coisas deriva de uma necessidade de seu ser. Sob a influência das coisas graves, com efeito, a ironia ou o abandonará por si mesma (se tiver sido algo de ocasional) ou então se reforçará (caso lhe pertença como coisa inata) num instrumento sério, enquadrando-se no conjunto dos meios com o que o senhor deverá moldar a sua arte.

.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne

Há homens que são capazes de assumir os seus sofrimentos até o fim, naturezas vigorosas que experimentam as suas forças justamente sob o peso da infelicidade, enquanto outros - mais fracos - abandonam-se à dor sem resistência, como vítimas de uma moléstia. E como uma moléstia, penetra-os o sofrimento, embebe-se no âmago do seu ser, identifica-se com eles, assimilando-se através de uma luta prolongada e desaparece com a volta da saúde.
Mas existem também seres para os quais o sofrimento significa um atentado à sua pessoa, uma crueldade, e nunca uma provação, um castigo ou um mero capricho do destino. Tomam-no como um golpe de tirania odiosa e dele guardam sempre uma cicatriz no fundo do coração.
[...]
Com sua fé, não tinha arrancado ao céu nenhum milagre; nenhum Deus tinha respondido ao seu apelo; a morte agarrara sem vacilar a sua presa, como se nenhuma muralha de preces se levantasse até as nuvens.
Em sua alma fez-se um grande silêncio.
[...]
E ele desafiou Deus e bani-o do seu coração [...] quando ouvia alguém dizê-lo, franzia a testa numa expressão de revolta. À noite, quando ia dormir, experimentava um estranho sentimento de dignidade solitária; [...] Ele renunciara a proteção divina, nenhum anjo inclinava-se sobre sua cabeceira; sozinho e desamparado, ele se dispunha a enfrentar o sono noturno como quem atravessa um lago escuro e misterioso, e a solidão o  submergia em círculos cada vez maiores e mais distantes: mas ele não rezava, podia até chorar de desgosto, mas não cedia.
[...]
Pois ele pertencia a essa classe por assim dizer artística e superficial de naturezas religiosas, de acordo com o feitio peculiar dos seus dotes de inteligência: dessas que não temem harmonizar um pouco os contrários, e facilmente alteram os limites e os fundamentos de uma crença, pois desejam antes de tudo afirmar a sua personalidade e, sejam quais forem as esferas em que voem, apenas fazem questão de ouvir a seu próprio espírito adejante.
[...]
Ele tomou o freio nos dentes, e lança-se a cada atalho novo que se ofereça, contanto que se afaste do que era outrora o refúgio dos seus sentimentos e dos seus pensamentos.
Experimenta uma sensação de força desconhecida no fato de ver com os próprios olhos, escolher com o próprio coração e modelar a si próprio. [...] É o tempo encantado das descobertas, quando ele, cheio de medo e de incerta alegria, cheio de uma felicidade intranquila, descobre a si mesmo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Hans Borli





UMA COISA É NECESSÁRIA

Uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo díficil
de sem-abrigos e desterrados:

Fixares residência em ti.

Entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.

Para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.

(1974)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

e.e.cummings




it may not always be so;and i say
that if your lips, whitch i have loved,should touch
another's,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on anothe's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writting words as, uttering over much,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be -
you of my heart, send me little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.



quarta-feira, 28 de julho de 2010

Jens Peter Jacobsen




Niels Lyhne


O primeiro ano assemelhou-se muito ao tempo do noivado, mas à medida em que a vida em comum envelhecia, Lyhne sentia maior dificuldade em dissimular a si próprio sua fadiga: estava cansado de procurar sempre novas expressões para o seu amor; cansado de, sempre revestido da plumagem da poesia, manter as asas alçadas para a fuga pelo céu de todas as emoções e pelas profundezas de todos os pensamentos; ansiava pelo bem-estar de uma paz contemplativa, sentar-se muito quieto no seu galho e dormitar, a cabeça oculta na morna penugem sob a asa. Não concebia o amor como chama sempre desperta, crepitante, que fulgidiamente iluminasse os menores incidentes da existência, fantasticamente tornando tudo maior e mais estranho. Antes era o amor para ele, como a brasa que arde na calma, que irradia de suas brandas cinzas um calor sempre igual, que no aconchego do crepúsculo faz esquecer suavemente a distância e acende no que está ao redor um brilho mais próximo, mais familiar.
[...]
Havia muito que ela percebera, com desgosto, como minguava a opinião que fizera do marido, e como ele descia das alturas vertiginosas em que ela o colocara ao tempo do noivado.[...] procurou reconstituir o estado anterior, afogando o marido numa torrente de emoções ainda mais extraordinárias, de maiores entusiasmos; encontrou porém, tão fraca ressonância, que passou quase a sentir-se ela mesma sentimental e afetada[...] não queria acreditar no que pressentia; mas à medida que, pouco a pouco, a inutilidade dos seus esforços despertou-lhe dúvidas sobre suas próprias qualidades de espírito e de coração, passou a deixá-lo tranquilo, tornou-se fria, silenciosa e meditativa, procurou a solidão para chorar em paz as suas ilusões.

Pois agora ela verificava que se tinha enganado amargamente e que Lyhne, a rigor e no íntimo, não era diferente das pessoas que sempre conhcecera, e que aquilo que a enganara era a coisa mais comum: o amor simplesmente o envolvera por algum tempo numa fugitiva auréola de espírito e nobreza, como acontece tantas vezes às naturezas inferiores.

Lyhne tornou-se tão aflito quanto apreensivo com essa alteração nas suas relações, e esforçou-se em tentativas infelizes para reatar o antigo vôo apaixonado; o que apenas serviu para provar mais claramente a Bartolina a extensão do seu erro. 
.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Rainer Maria Rilke




Cartas

É impossível que haja algo mais difícil do que amar alguém - essa tem sido minha experiência recorrente. É trabalho, labuta diária, lida diária, sabe lá Deus, não há outra palavra pra isso. E a isso se acrescente que os jovens não estão sendo preparados para esse tão difícil amar. As convenções tentaram transformar essa relação mais complicada e extrema em algo fácil, frívolo e criaram a ilusão de que todos seriam capazes dela. Mas não é bem assim. O amor é difícil, e é mais difícil do que as outras coisas porque, em outros conflitos, a própria natureza nos exorta a nos concentrar e nos contrair com todas as forças enquanto há na intensificação do amor o estímulo para que nos entreguemos completamente. Mas realmente pode haver beleza nisto: entregar-se ao outro não como uma totalidade ordenada, mas casualmente, peça por peça, como por acaso se dá? Esse doar-se que tanto parece com um jogar fora e um dilacerar, pode ser algo bom, pode ser felicidade, alegria, progresso? Não, não pode... Quando manda flores para alguém, primeiro você as arranja, não é verdade? Mas os jovens amantes lançam-se uns aos outros na sua impaciência e na pressa de sua paixão e absolutamente não notam a falta de consideração mútua presente nessa entrega desordenada. Só a notam com espanto e mau humor, perante a desavença que toda essa desordem provoca entre eles. E, tão logo se instala a desunião, as coisas se tornam cada dia mais confusas; nenhum deles tem mais em torno de si algo inteiro, puro e incorrupto. E, no meio do desconsolo do dilaceramento, eles procuram manter a ilusão de felicidade (pois supõe-se que tudo isso seja em nome da felicidade). Eles mal conseguem se lembrar o que julgavam ser felicidade.

Em sua insegurança, cada um se torna mais injusto com o outro; aqueles que queriam agradar um ao outro agora se tocam de maneira prepotente e inquieta. E, no esforço de escapar do estado insustentável e insuportável de sua confusão, eles cometem o pior erro que pode acontecer às relações humanas: tornam-se impacientes. Eles se empurram para chegar a um término, a uma decisão (como crêem) definitiva; tentam determinar de uma vez por todas sua relação, cujas mudanças surpreendentes os espantaram, de modo que daí em diante ela possa permanecer 'para sempre' a mesma (como eles dizem). Esse é apenas o último erro nessa longa cadeia de equívocos entrelaçados.

Nem mesmo o que está morto se deixa determinar definitivamente(pois ele se desintegra e se modifica em sua natureza); menos ainda algo vivente e vivo pode ser tratado peremptoriamente de uma vez por todas. Viver é, precisamente, transformar-se, e as relações humanas, que são um extrato da vida, constituem o que há de mais mutável; elas sobem e caem de minuto a minuto, e os amantes são pessoas para as quais nenhum momento se iguala ao outro em sua relação e seus toques, e entre os quais não ocorre nada de habitual nem nada que já existiu uma vez, mas apenas coisas novas, inesperadas, inauditas. [...]

Os jovens [...] quando amam, não devem esquecer que são iniciantes, desajeitados da vida, aprendizes do amor - eles devem aprender a amar, e isso requer (como para qualquer aprendizado) calma, paciência e concentração!

sábado, 24 de julho de 2010

Czeslaw Milosz





Love

Love means to learn to look at yourself
The way one looks at distant things
For you are only one thing among many.
And whoever sees that way heals his heart,
Without knowing it, from various ills
A bird and a tree say to him: Friend.
Then he wants to use himself and things
So that they stand in the glow of ripeness.
It doesnt matter whether he knows what he serves:
Who serves best doesnt always understand.

Czeslaw Milosz

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Zbigniew Herbert




Pebble

The pebble 
is a perfect creature
equal to itself
mindful of its limits
filled exactly
with a pebbly meaning
with a scent that does not remind one of anything
does not frighten anything away does not arouse desire
its ardour and coldness
are just and full of dignity
I feel a heavy remorse
when I hold it in my hand
and its noble body
is permeated by false warmth
- Pebbles cannot be tamed
to the end they will look at us
with a calm and very clear eye

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Jo Nam-du



Folhas Secas (1)

E se viesse caindo dos céus
E se um bicho selvagem abandonado
chorasse a solidão até cansar
e rolasse pelo chão
Por mais que eu olhe
aquilo é
a triste sombra da solidão
Vá saber,
se é o nome de algum triste amor
que alguém em algum lugar
grita sufocado
Vá saber

domingo, 11 de julho de 2010

Honoré de Balzac







Eugênia Grandet

Os avarentos não crêem numa vida futura, o presente é tudo para eles. Essa reflexão lança uma luz horrível sobre a época atual onde, mais que em qualquer outro tempo, o dinheiro domina as leis, a política e os costumes.  [...]
Hoje em dia, o esquife é uma transição pouco temida. O futuro, que nos esperava para além do réquiem, transportou-se para o presente. Chegar per fas et nefas* ao paraíso terrestre do luxo e dos prazeres vãos, petrificar o coração e macerar o corpo em busca de posses passageiras, como outrora se sofria o martírio da vida em busca de bens eternos, eis a idéia geral! Ideia aliás inscrita por toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: ' que pagas?', ao invés de ' que pensas?' Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, que será do país?


* Pelo lícito e pelo ilícito.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Rainer Maria Rilke


CARTAS A UM JOVEM POETA

"PRIMEIRA CARTA"

" Paris, 17 de Fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente.Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão.Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Wislawa Szymborska





Amor Feliz

Amor feliz. Será normal,
sério ou útil?
O que retém o mundo de duas pessoas,
que nem sequer o enxergam?

Sem mérito algum, mutuamente enaltecidos,
apenas mais dois entre milhões, contudo convencidos
que tinham de ser eles. Como prêmio de quê? De nada.
A luz vem de nenhures.
Porque ilumina justamente estes e não outros?
É uma ofensa à justiça? É sim.
Transgride os princípios zelosamente coligidos?
Arrasa toda a moral? Transgride e arrasa.

Vejam lá os felizardos:
se pelo menos um pouco disfarçassem,
se para alento dos amigos, tormento fingissem!
Vejam, como se riem - ofensivamente.
Ouçam a sua fala - aparentemente inteligível.
E os seus ritos, cerimônias,
as suas recíprocas atenções requintadas
parecem uma conspiração nas costas da humanidade.

Difícil de prever, ao que isto chegaria,
se um exemplo tal pudesse ser copiado.
O que aproveitaria a religião e a poesia,
o que seria lembrado ou descuidado,
quem quereria ficar na roda.

Amor feliz. Será necessário?
O tacto e o bom senso mandam silenciá-lo
como se fosse um escândalo da alta roda da vida.
Esplêndidas crianças nascem sem o seu favor,
se assim não fosse, nem a terra se enchia,
pois afinal de contas, coisa rara é o amor.

Que negue o amor feliz,
quem amor feliz desconhecer.

Com essa fé, mais leve ficar-lhe-á viver e morrer.

sábado, 3 de julho de 2010

Lev Tolstói




Felicidade Conjugal

Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. Eu queria movimento e não uma fluência tranquila da vida. Queria inquietação, perigos e autossacrifício em prol do sentimento.Havia em mim um excesso de força, que não encontrava lugar em nossa vida sossegada.
[...]
Apenas nos momentos de uma ternura quieta, moderada, que havia entre nós, eu tinha a impressão de que algo não estava bem, de que algo me machucava o coração, e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. Eu sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria, e que eu não podia transpor. Isso entristecia-me às vezes, mas não havia tempo para se ficar pensando fosse no que fosse, e eu procurava esquecer essa tristeza da mudança confusamente percebida, entregando-me a divertimentos que estavam continuamente à minha disposição.
[...]
Agora, nunca mais ficava à sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. Todo o meu tempo, desde tarde da manhã até tarde da noite, estava ocupado e não me pertencia, mesmo que eu não saísse de casa. Isto não me alegrava nem entediava mais, mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser assim e não de outra maneira.
[...]
Havia entre nós como que uma ofensa não perdoada, era como se ele me castigasse por algo e fingisse não o perceber. Não havia por que pedir perdão: ele me castigava apenas não se entregando a mim totalmente, não me dando toda a sua alma, como outrora; mas não a entregava a nada nem a ninguém, como se não a tivesse mais. 
[...]
A princípio, eu ficava ofendida com este medo da sinceridade, mais depois habituei-me à ideia de que não era insinceridade, e sim falta de uma necessidade de ser sincero. Agora, a minha língua não se moveria para lhe dizer de repente que o amava, ou para lhe pedir que rezasse comigo umas orações, ou então chamá-lo para ouvir-me tocar piano. Já se podia perceber entre nós determinadas relações de conveniência. Vivíamos cada um no seu lado.
[...]
A partir desse dia, terminou o meu romance com o meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

F. Scott Fitzgerald




O Boa-Vida


O ocidente, cinzento quando o boa-vida entrou na garagem, converteu-se num azul rico e vívido, quando Jim acendeu sua solitária lâmpada elétrica. Tornou logo a apagá-la e, acercando-se da janela, apoiou os cotovelos no parapeito e fitou a manhã que surgia. Com o despertar de suas emoções, o que primeiro experimentou foi uma sensação de inutilidade, uma dor surda ante a extrema desolação de sua própria vida. Uma parede erguera-se subitamente em torno dele, encarcerando-o - uma parede tão palpável e definida como a branca parede de seu pobre quarto. E, com a percepção dessa parede, tudo o que tinha constituído o romance de sua existência - sua inteligência, sua despreocupada imprevidência, a miraculosa liberalidade da vida - se dissipou. O boa-vida que caminhava despreocupado por Jackson Street, a cantarolar uma canção indolente, conhecido em todas as casas de chistes locais, às vezes triste devido apenas à própria tristeza e à fuga do tempo - esse boa-vida desapareceu subitamente.

[...]

A rua estava quente às três e mais quente às quatro; a poeira de abril parecia enredar o sol e soltá-lo de novo, uma brincadeira velha como o mundo, repetida sempre numa eternidade de tardes. Mas, às quatro e meia, caiu uma primeira camada de silêncio e as sombras se alongaram debaixo dos toldos e das árvores densamente copadas. Naquele calor nada importava. Toda a vida era apenas um estado da atmosfera, uma espera em meio do calor, onde os acontecimentos não tinham significado, pela fresca do crepúsculo, suave e acariciante como uma mão de mulher sobre uma testa cansada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Tzvetan Todorov





A Literatura em Perigo

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver.
[...]
Ela [as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas] me permitem dar forma aos sentimentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida. Elas me fazem sonhar, tremer de inquietude ou me desesperar. 
[...]
A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos, e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesmo ou que apenas pode ensinar o desespero.
[...]
Sendo o objeto da literatura a própria condição humana, aquele que a lê e a compreende se tornará não um especialista em análise literária, mas um conhecedor do ser humano. Que melhor introdução à compreensão das paixões e dos comportamentos humanos do que uma imersão na obra dos grandes escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios?

Joseph Conrad






Juventude

Não preciso dizer a vocês o que é estar a balançar num bote desabrigado. Me lembro de noites e dias de calmaria, quando remávamos e remávamos, e o bote parecia ficar tranquilo como que enfeitiçado no círculo do horizonte marítimo. Me lembro do calor, do dilúvio marítimo. Me lembro do calor, do dilúvio que nos obrigava a tirar água com balde para salvar a pele (mas pelo menos enchia o nosso barril), e me lembro das dezesseis horas sem fim, da boca seca como cinza e do remo apoiado na proa, para manter minha atenção voltada para o mar revolto. Não sabia até então que eu era o que se pode chamar de um homem! Lembro os rostos cansados, as figuras abatidas dos meus dois homens, lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento de que podia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para o amor, para o vão esforço – para a morte; a triunfante convicção de força, o calor da vida numa mão cheia de pó, a chama do coração que todo ano diminui, esfria, arrefece e expira – expira muito depressa, depressa demais, antes da própria vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Philip Roth



Indignação

A mãe era forte e quase chegou aos cem anos, embora sua vida também tivesse sido arruinada. Não passava um dia sem que ela olhasse para a fotografia de formatura no ginásio de seu bonito garotão no porta-retrato que ficava sobre o aparador da sala de jantar e, em voz alta, perguntasse soluçante ao falecido marido: “Por que é que você o perseguiu tanto até fazer ele ir embora de casa? Um momento de raiva, e veja no que deu! Que diferença fazia a hora em que ele chegava em casa? Ao menos estava em casa ao voltar! E agora, onde é que ele está? Onde é que você está meu querido? Marcus, por favor, a porta está destrancada, volte pra casa!”. Caminhava então até a porta, a porta com a famosa tranca, e abria, abria de todo, e lá ficava, em vão, esperando pela volta dele.

Se não fosse isso e aquilo, estaríamos todos juntos e viveríamos para sempre e tudo teria um final feliz. Se não fosse seu pai, se não fosse[...] se não fosse [...]se não fosse[...] Se ele próprio tivesse ido à igreja! Se tivesse ido lá as quarenta vezes e assinado seu nome, ainda estaria vivo hoje, aposentando-se após toda uma carreira como advogado. Mas ele não podia! Não era nehuma criança para acreditar num deus idiota qualquer! Não podia ouvir os hinos de merda deles! E as rezas, aquelas rezas de olhos fechados – supertição primitiva e putrefata! Nossa Tolice, que estás no Céu! A desgraça da religião, a imaturidade, a ignorância e a vergonha de tudo aquilo! Piedade lunática por nada!
[…]
Que escolha tinha Marcus, o que mais podia fazer senão, como o Messner que era, como o estudioso de Russell que era, bater com o punho na escrivaninha do diretor e lhe dizer pela segunda vez “Vai se foder”!

Sim, o popular e desafiador “Vai se foder” - e foi o que bastou ao filho do açogueiro, morto três meses antes de fazer vinte anos […] o único de seus colegas suficientemente desafortunado para ser morto na Guerra da Coreia […] onze meses antes que, caso tivesse sido capaz de tolerar a igreja e manter a boca fechada, se formasse na Universidade de Winesburg […] podendo assim postergar o aprendizado daquilo que seu pai, embora pouco educado, vinha fazendo tanta força para lhe ensinar havia muito tempo: a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fotuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Machado de Assis

'Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol – o céu ficou de súbito vermelho-sangue – eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta– havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade – os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade – e senti o grito infinito da Natureza'. Edvard Munch


Memórias Póstumas de Brás Cubas




Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo que passava diante de mim – flagelos e delícias – desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se como uma ilusão.


Yannis Ritsos



A outra cidade

Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.
Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.



domingo, 6 de junho de 2010

Czeslaw Milosz






Cris

Em abril de 1996 a imprensa internacional noticiou a morte  aos 75 anos de idade de Christopher Robin Milne, eternizado no livro de seu pai, A.A. Milne, O Ursinho Puff, como Cris.

       Eu, o Ursinho Puff, preciso de repente pensar em coisas muito difíceis pra minha pequena cabecinha. Nunca me importei com o que está lá fora do nosso jardim, onde morávamos eu, o porquinho Leitão, o coelho Abel e o burrinho Bisonho com nosso amigo Cris. Quer dizer, nós ainda moramos aqui e nada mudou e agorinha mesmo comi um pote de mel – o Cris só foi ali e já volta.
      A Coruja diz que lá fora do nosso jardim começa o Tempo, e isso é um poço assim fundo pra caramba, e quando uma pessoa cai nele vai sumindo e sumindo lá pra baixo, até que ninguém sabe o que acontece com ela depois. Fiquei um pouco preocupado com o Cris, se não tinha caído lá dentro, mas ele voltou e aí eu perguntei sobre o tal poço. “Puff – ele disse – eu estava dentro dele e fui caindo, e caindo eu ia mudando, minhas pernas foram ficando compridas, fiquei grande, usava umas calças que iam até o chão e me cresceu barba, depois meus cabelos foram ficando brancos, fui me encurvando, andei de bengala e aí morri.
     Com certeza, foi tudo só um sonho, porque não parecia bem de verdade. De verdade pra mim sempre foi só você, Puff, e as nossas brincadeiras. Agora já não saio daqui pra lugar nenhum, mesmo se me chamarem pro lanche."

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Oh Jung-Hee



Espelho de Bronze

Os velhos não se retratam. Pois não estão à espera de uma nova vida que exija uma retratação.

[...]

A sombra já havia começado a descer num dos cantos do quintal enquanto as pétalas se encolhiam em cores mais escuras, na fina escuridão que ia subindo da terra. Mas quão longo seria o fluir invisível do tempo até que as flores mergulhassem no silêncio e no abismo?

Sentiu que deveria dizer alguma coisa para ela que já não tentava esconder o choro e precisava de um afago. Abriu os lábios com a timidez de um menino e também com um pouco de medo, mas ela não compreendeu as palavras que escapavam da boca sem definição. A esposa aproximou o ouvido bem pertinho dele e perguntou toda aflita. O que foi? O que você disse? Quem foi que veio mesmo?

Com os cabelos tingidos, pretos feito breu, ele ficou deitado com a boca arruinada entreaberta, uma boca que já não podia falar.

O reflexo do espelho que se movia rapidamente pelo teto e pelas paredes finalmente permaneceu parado sobre o copo de vidro. E, no silêncio decantado e escuro, somente a dentadura cintilava clara e brilhante como se quisesse dizer alguma coisa.


terça-feira, 1 de junho de 2010

Rainer Maria Rilke



Estou muito só, mas não o bastante para que cada momento seja sagrado.
Sou muito pequeno neste mundo, mas não o bastante para jazer
 apenas à tua frente como uma coisa, sagaz e secreta.
Quero a minha própria vontade, e quero simplesmente estar com
 a minha vontade, que se prepara para a ação,
e nos momentos silenciosos, que por vezes mal se movem,
quando alguma coisa se aproxima,
Quero estar com os que conhecem as coisas secretas,
Ou então sozinho.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sándor Márai



As Brasas

Compreendi tudo. Que quer que lhe diga?... A gente vai envelhecendo aos poucos: numa primeira fase, atenua-se a vontade de viver e de ver nossos semelhantes. Vai prevalecendo o sentido da realidade, vai se esclarecendo o significado das coisas, você acha que os acontecimentos se repetem monótona e fastidiosamente. Isso também é um sinal de velhice. Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais. Depois, seu corpo envelhece; não todo de uma vez, é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração. A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia, você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a seus olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos. Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probabilidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem, nem para o mal... e esta é a verdadeira velhice. E no entanto, alguma coisa ainda vive em seu coração, uma lembrança, uma vaga e nebulosa esperança, há alguém que gostaria de ver, há algo ainda que gostaria de dizer ou saber. Um dia, você tem absoluta certeza, chegará esse momento, e então, de repente, saber e enfrentar a verdade já não lhe parecerá tremendamente importante como imaginara durante os anos de espera. O homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre. Descobre as causas ocultas dos fenômenos e das ações humanas. A linguagem simbólica do inconsciente... pois os homens recorrem a uma linguagem simbólica para comunicar seus pensamentos, você nunca percebeu? Quando falam das coisas essenciais parece que usam uma língua estrangeira, que falam como os chineses, e é preciso traduzir essa língua para trazê-la ao plano da realidade. Os homens não sabem nada sobre si mesmos. Falam sempre de seus desejos e camuflam osbtinadamente seus pensamentos mais secretos. Se você aprender a reconhecer as mentiras dos homens, notará que dizem sempre coisas diferentes do que pensam e querem realmente. E então a vida se torna quase divertida. Depois, um dia, você consegue entender a verdade: isso quer dizer que a velhice e a morte chegaram. Mas nessas alturas já não sente dor.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

Honoré de Balzac




Eugênia Grandet

Não há graciosas semelhanças entre o começo do amor e o da vida? Não é com doces cantigas e com ternos olhares que se nina a criança? Não se lhe contam maravilhosas histórias que douram seu futuro? A esperança não lhe abre incessantemente suas asas radiosas? E ela não derrama alternadamente lágrimas de alegria e dor? Não briga a criança por um nada, por umas pedras com as quais tenta construir um palácio móvel, por um ramalhete logo esquecido, apenas cortado? Não possui ela a avidez de tomar conta do tempo, de avançar na vida? O amor é a nossa segunda transformação. A infância e o amor foram a mesma coisa entre Eugênia e Carlos: foi a paixão primeira com todas as suas puerilidades, tanto mais cariciosas para os seus corações quanto estes se achavam envoltos em melancolia.

Debatendo-se, logo ao nascer, entre os crepes do luto, esse amor, por isso mesmo, se harmonizava melhor com a rusticidade provinciana daquela casa em ruína. Trocando algumas palavras com a prima à beira do poço, naquele pátio mudo; deixando-se estar naquele jardinzinho sentado com ela num banco coberto de musgo, até a hora do pôr do sol, ocupados em dizerem grandes nadas, ou recolhidos os dois na calma que reinava entre a muralha e a casa, como sob as arcadas de uma igreja, Carlos compreendeu a santidade do amor.

[…]

Pela manhã, deixava-se estar, pensativa, em baixo da nogueira, sentada no banco de madeira roído pelo carucho e coberto de musgo cinzento, onde eles se haviam dito tantas coisas boas, tantos pequenos nadas, onde tinham construído os castelos de vento de seu formoso lar. Ela pensava no futuro, olhando para o céu pelo pequeno espaço que os muros lhes permitiam abranger; depois para o velho pano de muralha e o teto debaixo do qual ficava o quarto de Carlos. Enfim, foi o amor solitário, o amor verdadeiro, que persiste, que se esgueira em todos os pensamentos e torna-se substância, ou, como diriam nossos pais, o estôfo da vida.