Eu não piso a corola dos milagres do mundo
Eu não piso a corola dos milagres do mundo
e não mato
com a mente os mistérios que encontro
em meu caminho
nas flores, nos olhos, nas bocas ou nas campas.
A luz de outros
sufoca o encanto do impenetrável escondido
nas profundezas de trevas,
mas eu,
eu com minha luz acrecento ao mistério do mundo
e exatamente como com seus brancos raios a lua
não míngua mas, trêmula,
aumenta ainda mais o mistério da noite,
assim enriqueço também eu o horizonte das trevas
com amplos calafrios de santos segredos,
e todo o incompreendido
muda-se em imcompreensções ainda maiores
sob meus olhos -
pois eu amo
tantas folhas quantos olhos, tantas bocas quantas campas.
[1919]
domingo, 30 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Kim Tchun-su
Flor
Antes de eu pronunciar o nome
ele não era
mais que um simples gesto
Quando eu lhe pronunciei o nome
ele veio a mim
e se tornou uma flor
Assim como chamei-lhe o nome
alguém me chama o nome
que combine com o meu nariz e o meu perfume
Também quero ir até ele
e tornar-me a sua flor
Todos nós queremos ser algo
Eu para você, você para mim
Queremos ser
um inesquecível
significado
domingo, 9 de agosto de 2009
e.e.cummings
pequenos segredos da vida a cada passo
cantem lá o que for é melhor que saber
e quem não os ouve já se pôs a envelhecer
possa minha mente vagar com fome
e sem medo e sedenta e conforme
e mesmo domigo que eu possa esmorecer
pois quem tudo acerta jovem já deixou de ser
e possa eu mesmo fazer nada utilmente
e amar-te a ti tão mais veramente
pois tal tolo nunca houve que incapaz disto:
pôr todo o céu nas costas com um só riso
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Bernardo Soares
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é uma tendência para ser a seguir outra coisa; uma impasciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entonações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção que nela se disse, da minha parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Lucian Blaga

Biografia
Onde e quando eu vim à luz não sei.
Da sombra, só, eu me esforço por crer
ser o mundo um cantar.
Estranho sorrio entre enleios que me suspendem:
as coisas me vêm completar e espantar.
Por vezes falo palavras que não me compreedem,
Por vezes amo coisas que não me correspondem.
De ventos e façanhas sonhadas meus olhos vão cheios.
Ando como um qualquer, quanto a andar:
quando culpado sobre os telhados de geena,
se sem pecado por sobre montanhas de açucenas.
Fechado no círculo das mesmas lareiras
troco mistérios com os antigos,
o povo lavado pelas águas de sob as pedreiras.
A noite se passa suave por que escute mudo
como em mim trasborda tudo
das lendas do sangue esquecido de há muito.
Abençôo a lua e o pão.
Os dias vivo espalhado pelo trovão.
Com palavras presas na garganta
cantei a grande travessia, e ainda canto,
o sono do mundo, os anjos de cera.
De um ombro para o outro, calado,
eu troco minha estrela como um fardo.
Da sombra, só, eu me esforço por crer
ser o mundo um cantar.
Estranho sorrio entre enleios que me suspendem:
as coisas me vêm completar e espantar.
Por vezes falo palavras que não me compreedem,
Por vezes amo coisas que não me correspondem.
De ventos e façanhas sonhadas meus olhos vão cheios.
Ando como um qualquer, quanto a andar:
quando culpado sobre os telhados de geena,
se sem pecado por sobre montanhas de açucenas.
Fechado no círculo das mesmas lareiras
troco mistérios com os antigos,
o povo lavado pelas águas de sob as pedreiras.
A noite se passa suave por que escute mudo
como em mim trasborda tudo
das lendas do sangue esquecido de há muito.
Abençôo a lua e o pão.
Os dias vivo espalhado pelo trovão.
Com palavras presas na garganta
cantei a grande travessia, e ainda canto,
o sono do mundo, os anjos de cera.
De um ombro para o outro, calado,
eu troco minha estrela como um fardo.
[1929]
terça-feira, 28 de julho de 2009
Czeslaw Milosz

NÃO MAIS
Preciso contar um dia como mudei
Minha opinião sobre a poesia e por que
Me considero hoje um dos muitos
Mercadores e artesãos do Império do Japão
Compondo versos sobre a floração da cerejeira,
Sobre crisântemos e a lua cheia.
Se eu pudesse descrever as cortesãs
De Veneza, como incitam com uma vareta o
pavão no pátio
E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina
Os seios pesados, a marca
Avermelhada no ventre onde o vestido se
abotoa,
Ao menos assim como as viu o dono das
galeotas
Arribadas àquela manhã carregando ouro;
E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus
pobres ossos
No cemitério, onde o mar oleoso lambe
o portão,
Em palavras mais duráveis que o derradeiro
pente
Que entre carcomas sob a lápide, só, espera
pela luz
Não duvidaria. Da resistência da matéria
O que se retém? Nada, quando muito o belo.
Então devem nos bastar as flores da cerejeira
E os crisântemos e a lua cheia.
Mia Couto
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida
Juan Gelman

el pacto
cuando nadaba en dulce oscuridad, nada sabía del pacto
de nacer.la vida es, ciertamente, una de sus cláusulas.
también la muerte y el dolor, el amor, la alegría, el mero
padecer. y el daño que hacemos, el daño que nos hacen,
el espejo celeste donde miramos nuestro estar sobre la
tierra. a ella nos ata la cadena que se balancea sobre
todos los abismos del mismo abismo: ser.
?cuándo es delicia este yugo? o deleite, dejamiento de
sí profunda sangre? cuándo es cosmos mi pedacito de
papel, tan escrito y tachado por todos y por mí? qué
dice el libro humano? en qué balanza pesan esas tintas?
las palabras del puro cemenzar?
la vida es acto que no conoce y cada acto, introducción al
otro no saber. la inteligencia y el instinto encienden fuegos
en la noche, pero es del infinito que estamos exiliados.
así, en tu secreto, crece el árbol que sueña el sueño
donde un gallo, una piedra y la tristeza miran el mundo
enero y lo ponen en la boca de un niño para que el sol beba.
también la muerte y el dolor, el amor, la alegría, el mero
padecer. y el daño que hacemos, el daño que nos hacen,
el espejo celeste donde miramos nuestro estar sobre la
tierra. a ella nos ata la cadena que se balancea sobre
todos los abismos del mismo abismo: ser.
?cuándo es delicia este yugo? o deleite, dejamiento de
sí profunda sangre? cuándo es cosmos mi pedacito de
papel, tan escrito y tachado por todos y por mí? qué
dice el libro humano? en qué balanza pesan esas tintas?
las palabras del puro cemenzar?
la vida es acto que no conoce y cada acto, introducción al
otro no saber. la inteligencia y el instinto encienden fuegos
en la noche, pero es del infinito que estamos exiliados.
así, en tu secreto, crece el árbol que sueña el sueño
donde un gallo, una piedra y la tristeza miran el mundo
enero y lo ponen en la boca de un niño para que el sol beba.
Péter Zirkuli
XII
Viveríamos apenas.
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Francis Ponge
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