sábado, 8 de agosto de 2026

David Foster Wallace


O canal sofredor 

A outra parte de Style mencionada pelo editor associado se referia a The Suffering Channel, uma grade de programação de tevê a cabo que Artwater tinha conseguido que Laurel Manderley desse um jeito e passasse direto para a editoria de internacional em What in the Word [ O que se passa no mundo]. Atwater era um dos três jornalistas em tempo integral a cargo dos noticiários da WITW, que recebia 0,75 página de editorial por semana, e era a coisa mais próxima que qualquer semanário da BSG conseguia em tabloides ou matérias sensacionalistas, e era objeto de discussão nos mais altos escalões de Style. Os especiais com equipe e chamada em destaque significavam que Skip Atwater estava oficialmente contratado para uma matéria de quatrocentas palavras a cada três semanas, só que o mais novato do WITW tinha ficado em meio período desde que Eckleschafft-Bodobrigou a sra. Anger a cortar o orçamento editorial para qualquer coisa que não fosse notícia de celebridades, de modo que na verdade eram três matérias completas a cada oito semanas. 

John Updike


Terrorista 

Ahmad tem dezoito anos. Estamos no início de abril; mais uma vez o verde penetra sorrateiro, semente por semente, nas fendas de terra da cidade cinzenta. Ele olha do patamar de sua altura recém-conquistada e pensa que, para os insetos invisíveis na grama, ele seria, se eles tivessem uma consciência como a sua, Deus. No ano passado Ahmad cresceu sete centímetros, chegando a 1,82 metro - mais forças materialistas invisíveis a exercer sua vontade sobre ele. Ele não vai crescer mais do que isso, Ahmada, nesta vida nem na outra. Se houver outra, um demônio interior murmura. Que provas, além das palavras ardentes e divinamente inspiradas do Profeta, garantem que existe outra vida? Onde ela estaria escondida? Quem estaria eternamente abastecendo as fornalhas do Inferno? Que fonte infinita de energia haveria de manter o Éden opulento, alimentando as huris de olhos negros, fazendo crescer os frutos pesados nas árvores, renovando os riachos e chafarizes em que Deus, conforme a nona sura do Alcorão, eternamente se regozija? E a segunda lei da termodinâmica? 

Henry James


 Pelos olhos de Maisie 

Foi por causa dessas coisas que sua mãe conseguira contratá-la por tão pouco, quase de graça: foi o que Maisie ouviu, um dia em que a sra. Wix a acompanhou até a sala de visitas e deixou-a lá, uma das senhoras que lá estava - uma mulher de sobrancelhas arqueadas como cordas de pular e pespontos negros e espessos como a pauta de um caderno de música nas belas luvas brancas - dizer para outra. Maisie sabia que as governantas eram pobres; a pobreza da srta. Overmore não se comentava, e a da sra. Wix era comentada por todos. Porém nem esse fato, nem o velho vestido marrom, nem o diadema, nem o botão, nada disso diminuía para Maisie o encanto que apesar de tudo se manifestava, o encanto que residia no fato de que junto à sra. Wix, com toda sua feiura e sua pobreza, ela experimentava uma sensação única e tranquilizadora de segurança que nenhuma outra pessoa no mundo lhe proporcionava - nem o papai, nem a mamãe, nem a mulher das sobrancelhas arqueadas, nem mesmo, por mais linda que fosse, a srta. Overmore, em cuja beleza a menina tinha a vaga consciência de que não era possível refastelar-se com igual sensação de aconchego e ternura. Era a mesma sensação de segurança que lhe inspirava Clara Matilda, a qual estava no céu e, no entanto - constrangedoramente -, também estava em Kensal Green, onde elas duas foram ver sua pequena e mal-amanhada sepultura. 

sábado, 23 de maio de 2026

Fernando Pessoa

 


Livro do desassossego 

99. 

Há momentos em que tudo me cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repusaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e dores humanas, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida.  

Estou em um desses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, fazendo contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Todo dia me senti pesar a vida sobre os olhos e contra as têmporas - sono nos olhos, pressão para fora das têmporas, consciência de tudo isso no estômago, náusea e desalento. 

Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação. Nem olho o dia, para ver o que ele tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição, tape com palavras a xícara vazia do meu não me querer. Nem olho o dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que está lá fora na rua subjetivamente triste, na rua deserta onde está passando o som de gente. Parei de trabalhar e não quero mexer-me daqui. Estou olhando para o mata-borrão branco sujo, que alastra, pregando aos cantos, por sobre a grande idade da secretária inclinada. Fito atentamente os rabiscos de absorção e distração que estão borrados nele. Várias vezes a minha assinatura às avessas e ao invés. Alguns números aqui e ali, assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desatenção. Olho a tudo isso como um aldeão de mata-borrões, com uma atenção de quem olha novidades, com todo o cérebro inerte por trás dos centros cerebrais que promovem a visão. 

Tenho mais sono íntimo do que cabe em mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir. 

Fotografia: James Nachtwey 


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Fernando Pessoa




O livro do desassossego 

91.

Uma vista breve de campo, por cima do muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável. 

Houve um tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e ativos na vida sorriem dos poetas e dos artistas.  Nem sempre o fazem, como creem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem acarinha uma criança, alguém alheio à certeza e à exatidão da vida. 

Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingênuos, e eu era ingênuo, que esse sorriso dado às preocupações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação íntima de superioridade. É somente um estalido de diferença. E, se antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto, porque implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que sonamos e dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que, muitas vezes, os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder que a entreveem. 

Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem ativo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação. 

Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia fictícia da vida?  Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajos da corte para escrever bem em segredo. 

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Stendhal



O vermelho e o negro 



- “Senhores jurados, o horror do desprezo, que acreditava poder enfrentar no momento da morte, me faz tomar a palavra. Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, vêem em mim um camponês que se revoltou conta a baixeza de sua sorte. Não lhes peço nenhuma graça - continuou Julien, firmando a voz. - Não tenho ilusões, a morte me espera: ela será justa. Fui capaz de atentar contra a vida da mulher mais digna de todo o respeito, de todas as homenagens. A senhora de Rênal foi para mim como uma mãe. Meu crime é atroz e foi premeditado. Mereci portanto a morte, senhores jurados. Mas, ainda que fosse menos culpado, vejo homens que, sem se deterem em tudo o que minha juventude pode merecer de piedade, vão querer punir em mim e desencorajar para sempre essa classe de jovens que, nascidos numa classe inferior e de alguma forma oprimidos pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia de misturar-se ao que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade. Este é o meu crime, senhores, e, na verdade, será punido ainda mais severamente por não ser julgado por meus pares. Não vejo nos bancos dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas apenas burgueses indignados…” 

(…) 

“Não existe um direito natural: essa expressão não passa de uma tolice antiga bem digna do promotor que me acusou naquele dia, e cujo antepassado foi enriquecido por um confisco de Luíz XIV. Só há um direito quando há uma lei que proíba de fazer alguma coisa, sob pena de punição. Antes da lei, só era natural a força do leão ou a necessidade… Não, as pessoas honradas não passam de velhacos que tiveram a sorte de não serem apanhados em flagrante delito. O acusador que a sociedade lança foi enriquecido por uma infâmia… Atentei contra a vida de alguém e fui justamente condenado, mas, a não ser por essa ação, o Valenod que me condenou é cem vezes mais nocivo à sociedade. “Pois bem”, continuou Julien, com tristeza mas sem raiva, “apesar de sua avareza, meu pai vale muito mais que todos esses homens! Ele nunca me amou. Acabo de ultrapassar os limites ao desonrá-lo com uma morte infame. Esse medo de ficar sem dinheiro, essa concepção exagerada da maldade humana que chamamos de avareza faz com que ele veja um prodigioso motivo de consolo e de segurança numa quantia de trezentos ou quatrocentos Luíses que posso lhe deixar. Um domingo, depois do jantar, ele mostrará seu ouro a todos os invejosos de Verrières. A esse preço, dirá o seu olhar, qual dentre vocês não ficaria encantado em ter um filho guilhotinado?” 

(…) 

“Amei a verdade… Onde ela está? Por toda parte a hipocrisia, ou pelo menos o charlatanismo, mesmo entre os mais virtuosos, mesmo entre os maiores”, e seus lábios assumiram a expressão de desgosto… “Não, o homem não pode confiar no homem.”


Tradução: Raquel Prado

sábado, 9 de janeiro de 2021

Edward O. Wilson

 



As origens das artes criativas 


Por mais ricas e ilimitadas que possam parecer, as artes criativas são filtradas pelos canais biológicos estreitos da cognição humana. Nosso mundo sensorial, o que podemos saber sem a ajuda de instrumentos sobre a realidade externa aos corpos, é lamentavelmente pequeno. [...] Os seres humanos, junto com os macacos antropóides e aves, estão entre as raras formas de vida que são basicamente audiovisuais e, portanto, fracos em paladar e olfato. Somos idiotas comparados com cascavéis e sabujos. Nossa pouca capacidade de cheirar e sentir gosto se reflete no tamanho pequeno de nosso vocabulário quimiossensorial, forçando-nos quase sempre a recorrer a símiles e outras formas de metáforas. Um vinho possui um buquê delicado, dizemos, seu sabor é encorpado e um tanto frutado, Uma fragância se assemelha à da rosa, do pinheiro ou da terra molhada pela chuva. Somos forçados a cambalear por nossas vidas quimicamente deficientes em uma biosfera quimiossensonrial, dependendo do som e da visão que evoluíram basicamente para a vida nas árvores. 


[...]


Podemos obter vislumbres da origem e da natureza do julgamento estético. Por exemplo, o monitoramento neurobiológico, em particular medições do amortecimento das ondas alfa durante as percepções de desenhos abstratos, mostrou que o cérebro é mais excitado por padrões com cerca de 20% de redundância de elementos, ou seja, mais ou menos a complexidade encontrada em um labirinto simples, ou em duas voltas de uma espiral logarítmica, ou em uma cruz assimétrica. [...] A origem do princípio pode ser o fato de que esse grau de complexidade é o máximo que o cérebro consegue processar de um só relance, assim como sere é o número máximo de objetos que podem ser contados de um só relance. 


        Em outra esfera das artes visuais existe a biofilia, a ligação inata que as pessoas buscam com outros organismos, especialmente com o mundo natural vivo. Estudos mostraram que, com liberdade para escolher o ambiente de suas casas ou escritórios, pessoas em diferente culturas gravitam em direção a um ambiente que combine três aspetos. Elas querem estar no alto olhando para baixo, preferem terrenos abertos como da savana com árvores e bosques espalhados e querem estar próximos de um corpo d’água como um rio, lago ou oceano. [...] As pessoas, em outras palavras, preferem viver naqueles ambientes onde nossa especie evoluiu por milhões de anos na África. Instintivamente gravitam rumo à savana e à floresta transicional, olhando, a uma distância segura, para fontes confiáveis de alimento e água. [...] Todas as espécies móveis são guiadas por instintos que as conduzem a habitas onde têm uma chance máxima de sobrevivência e reprodução. 


[...] 


Existem agora indícios substanciais de que o comportamento social humano surgiu geneticamente por evolução multinível. Se essa interpretação for correta, e um número crescente de biólogos e antropólogos evolutivos acredita que seja, podemos esperar um conflito constante entre componentes do comportamento favorecidos pela seleção individual e aqueles favorecidos pela seleção de grupo. A seleção no nível individual tende a criar competitividade e comportamento egoísta entre os membros do grupo - em torno de status, acasalamento e acesso aos recursos. Já a seleção entre grupos tende a criar um comportamento desprendido, expresso na maior generosidade e altruísmo, os quais por sua vez promovem uma maior coesão e aumentam a força do grupo como um todo. 


        Um resultado inevitável das forças mutuamente contrabalançantes da seleção multinível é a ambiguidade permanente na mente humana individual, levando a inúmeros cenários na forma como as pessoas acasalam, amam, se associam, traem, compartilham, sacrificam, roubam, enganam, se redimem, punem, imploram e decidem. A luta endêmica ao cérebro de cada pessoa, espalhada na vasta superestrutura da evolução cultural, é o manancial das humanidades. Um Shakespeare no mundo das formigas, livre de tal guerra entre honra e traição, e acorrentado pelos comandos rígidos do instinto a um repertório minúsculo de sentimentos, seria capaz de escrever apenas um drama de triunfo e outro de tragédia. As pessoas comuns, no entanto, podem inventar uma infinidade dessas histórias e compor uma sinfonia infinita de ambivalência e estados de espírito. 


[...]


As artes criativas se tronaram possíveis como um avanço evolutivo quando os seres humanos desenvolveram a capacidade do pensamento abstrato. A mente humana pôde então formar um modelo de uma forma, ou de uma espécie de objeto, ou de uma ação, e transmitir uma representação concreta do conceito para outra mente. Assim surgiu a linguagem verdadeira, produtiva, formada de palavras e símbolos arbitrários A linguagem foi seguindo pela arte virtual, pela música, pela dança e por cerimônias e rituais da religião. [...] Somos tentados a pensar que o processamento neural da linguagem serviu de pré-adaptação para a música, a qual, uma vez surgida, mostrou-se suficientemente vantajosa para adquirir sua própria predisposição genética


Trecho do livro A conquista social da Terra

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Edward O. Wilson



 As origens da religião 

[...] O homem foi feito à imagem de Deus, ou Deus foi feito à imagem do Homem? [...] Deus existe? Caso Ele exista, será um Deus pessoal a quem possamos orar com a expectativa de receber uma resposta? 

[...]

Os indícios abundantes em nossa frente apontam para a religião organizada como uma expressão do tribalismo. Toda religião ensina aos adeptos que eles formam uma confraria especial e que sua história da criação, seus preceitos morais e os privilégios do poder divino são superiores aos reivindicados por outras religiões. Sua caridade e outros atos de altruísmo estão concentrados em seus correligionários. Quando estendidos aos forasteiros, geralmente se visa ao proselitismo e, portanto, fortalecer o tamanho da tribo e seus aliados. Nenhum líder religioso jamais exorta as pessoas a examinarem as religiões rivais e escolherem aquelas  que julguem melhor à sua pessoa e sociedade. Pelo contrário, o conflito entre as religiões constumam ser um acelerador, se não a causa direta, da guerra. Os crentes devotos valorizam sua religião acima de tudo e logo se enfurecem quando ela é desafiada. O poder das religiões organizadas se baseia em sua contribuição à ordem social e à segurança pessoal, não na busca da verdade. A meta das religiões é a submissão à vontade e ao bem comum da tribo.  

[...]

Tal instinto intensamente tribal pôde, no mundo real, surgir na evolução somente por seleção de grupo, no contexto das tribos competindo entre si. As qualidades peculiares da fé religiosa são a consequência lógica do dinamismo nesse nível mais alto de organização biológica. 

[...]

Os crentes religiosos atuais, como nos tempos antigos, não estão, comumente, interessados em teologia, e menos ainda nos passos evolutivos que levaram às religiões do mundo atual. Em vez disso, estão preocupados com a fé religiosa e os benefícios que ela oferece. Os mitos da criação explicam tudo de que precisam para conhecer a história profunda a fim de manter a unidade tribal. Em épocas de mudança e perigo, sua pessoal promete estabilidade e paz. Diante de ameaça e da competição de grupos externos, os mitos asseguram aos crentes que eles são supremos aos olhos de Deus. A fé religiosa oferece a segurança psicológica que advém exclusivamente do pertencimento a um grupo, e ainda por cima um grupo divinamente abençoado. Ao menos para as multidões imensas de fiéis abraâmicos ao redor do mundo, ela promete a vida eterna após a morte, e no céu, não no inferno - especialmente se escolhermos a seita certa entre as muitas disponíveis, e juramos praticar fielmente seus rituais. 


Trecho do livro A conquista social da Terra

sábado, 2 de janeiro de 2021

Arnold Hauser




 Culturas urbanas do Oriente Antigo: Creta 


A arte cretense apresenta ao sociólogo o mais difícil problema de todo o campo da arte do Oriente antigo. [...] Em todo o vasto período, no qual predominou o estilo geométrico abstrato, nesse mundo imutável de estrito tradicionalismo e formas rígidas, Creta brinda-nos com um quadro de vida livre, colorida, exuberante, embora as condições econômicas e sociais não sejam aí diferentes das que vigoram em todo o mundo circundante. Aí, exatamente como no Egito e na Mesopotâmia, déspotas e senhores feudais, detêm o poder, a cultura encontra-se toda sob a égide de uma ordem aristocrática - e, não obstante, que enorme diferença na concepção da arte como um todo! Que liberdade na vida artística, em contraste com o convencionalismo opressivo do resto do mundo do Oriente antigo. [...] Talvez a diferença resida, em parte, no papel relativamente subordinado que a religião e o culto religioso desempenharam na vida pública de Creta. [...] Mas a liberdade da arte cretense também pode ser parcialmente explicada pelo papel de extraordinária importância que a vida urbana e o comércio desempenharam na economia da ilha. [...] O caráter especial da arte cretense deve contudo ser visto, em primeiro lugar, em relação ao fato de que, no Egeu, em contraste com outras áreas, o comércio sobretudo o comércio externo, estava concentrado nas mãos de uma classe dominante. O espírito instável do mercador, sempre disposto a fazer inovações, pôde abrir caminho e progredir com menos entraves do que no Egito ou na Babilônia. [...] Tal como no Egito e na Babilônia, a arte possui um caráter inteiramente palaciano, mas o elemento rococó, o prazer no requintado e no divertido, no delicado e no elegante são mais acentuados. [...] Esse estilo cortesão e cavaleiresco facilita o desenvolvimento de formas de vida menos rígidas, mais espontâneas e flexíveis, em contraste com o rigoroso e tenso modo de vida dos velhos e predatórios barões latifundiários - um processo que se repetiu na Idade Média - ,  e produz, de acordo com os novos padrões de vida, uma arte mais individualista, estatisticamente mais livre e que expressa um deleite isento de preconceitos na natureza.  

[...]

Creta não só estimulou a arte “modernista”, mas, em certos aspectos, até antecipou a moderna arte industrial. A “modernidade” dos cretenses estava provavelmente ligada às características fabris e de produção de massa de sua arte, com vistas a um enorme mercado exportador. Por outro lado, os gregos evitaram o perigo da padronização, apesar de uma industrialização igualmente avançada; mas isso apenas vem provar que, na história da arte, as mesmas causas nem sempre têm os mesmos efeitos, ou que as causas são, talvez, demasiado números para que a análise científica logre esgotá-los por completo. 


Trecho de História social da Arte e da literatura

Arnold Hauser

 



Culturas urbanas do Oriente Antigo: Mesopotâmia


O problema real da arte mesopotâmica consiste no fato de que, apesar de uma economia baseada predominantemente no comércio e na indústria, na finança e no crédito, possuiu um caráter mais rigidamente disciplinado, menos variável e dinâmico do que a arte do Egito, um país com raízes profundas na agricultura e na economia natural. 

[...]

A maior disciplina formal da arte babilônica, a par de uma economia mais diretamente urbana e dotada de maior mobilidade, refuta porém, a tese sociológica, aliás normalmente válida sob outros aspectos, segundo o qual o estilo geométrico estrito está vinculado à agricultura tradicionalista, e o naturalismo irrestrito à mais dinâmica economia urbana. Talvez as formas mais rígidas de despotismo e o espírito mais intolerante da religião na Babilônia tenham-se contraposto à influência emancipadores da vida na cidade, isto é, pressupondo-se que a mera circunstância de existir aí apenas uma arte da corte e do tempo - que ninguém, além do governante e dos sacerdotes, poderia exercer qualquer influência sobre a prática da arte - tenha cerceado no nascedouro todos os esforços de natureza individualista e naturalista. 

[...]

O racionalismo abstrato é praticado ainda mais sistematicamente na arte babilônica e assíria do que na egípcia. A figura humana apresenta-se não só em estrita frontalidade, com a cabeça voltada para apresentar-lhe o perfil, mas as partes características do rosto, o nariz e o olho, são consideravelmente ampliadas, enquanto os traços menos interessantes, como a testa e o queixo, são bastante reduzidos. O princípio antinaturalista da frontalidade em lugar nenhum se evidencia com maior clareza do que nos chamados “Porteiros”, leões e touros alados, da escultura arquitetônica assíria. Dificilmente se encontrará qualquer ramo da arte egípcia em que a estilização superlativa, renunciando a todo o ilusionismo, tenha sido posta em prática de forma tão inflexível quanto nessas figuras, as quais, vistas de perfil têm quatro pernas em movimento e, vistas de frente, duas pernas em repouso, cinco pernas no total, e que representam realmente a combinação de dois animais. A flagrante violação da lei natural é devida, nesse caso, a motivos puramente racionais: o criador desse gênero pretendia, obviamente, que o contemplador obtivesse de todos os lados uma imagem independente, completa e formalmente perfeita do objeto.     


Trecho de História social da Arte e da literatura